Médico espalha boato falso e perigoso ao sugerir que flutamida cura covid-19

Médico espalha boato falso e perigoso ao sugerir que flutamida cura covid-19

Medicamento não tem recomendação de agências de saúde contra a covid-19 e pode causar danos ao fígado; estudo mencionado em vídeo viral testou proxalutamida e ainda não foi publicado em revista científica

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

22 de março de 2021 | 18h24

É falso o discurso de um médico de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, que aponta a flutamida, um medicamento bloqueador de hormônios masculinos, como a solução da pandemia da covid-19. Em vídeo que acumulou mais de 40 mil compartilhamentos no Facebook, o profissional de saúde Luiz Maciel Cardoso disse ter recomendado o medicamento para seus pacientes e chegou a afirmar que a pandemia seria “vencida” com o remédio. 

A eficácia e a segurança da administração do remédio contra infecções pelo novo coronavírus, entretanto, não foram confirmadas pela ciência e o protocolo não tem o respaldo de autoridades de saúde. O Facebook removeu o conteúdo original publicado por Cardoso em seu perfil na plataforma, mas algumas reproduções ainda circulam na rede social e no WhatsApp. Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490

O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) afirmou em nota que a recomendação do médico é falsa. “Bem como outros fármacos sem comprovada eficácia, o uso do medicamento para outras indicações que não as previstas em bula pode trazer riscos à saúde da população”, informou a entidade. 

O Conselho ressaltou que o uso inadequado do medicamento já provocou mortes no início dos anos 2000. De acordo com a bula do remédio disponibilizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a flutamida é recomendada apenas para o tratamento de câncer de próstata avançado e pode provocar efeitos adversos no fígado. A substância é contraindicada para mulheres. 

Além disso, não há qualquer recomendação de uso da flutamida contra a covid-19 pela Anvisa ou por autoridades de saúde internacionais, tampouco existem estudos que comprovem a eficácia do medicamento contra a ação do coronavírus. O Hospital Santa Casa de São Gabriel, onde Cardoso trabalha, também emitiu uma nota em que diz não reconhecer o tratamento mencionado pelo médico nas redes sociais. 

“Não há comprovação cientifica de que esta medicação cure a doença e também não há informações de que o médico tenha curado algum de seus pacientes, nas dependências da Santa Casa”, diz o comunicado.

Conforme informou o jornal Zero Hora, o Cremers abriu uma sindicância e acionou o Ministério Público para apurar a conduta de Cardoso. O discurso do médico, vale ressaltar, foi impulsionado também por um vídeo gravado pelo vereador da cidade de Passo Fundo (RS) Rodinei Candeia (PSL). Posteriormente, o próprio parlamentar publicou uma retratação.

A proxalutamida

Cardoso cita no vídeo e em postagens anteriores que sua escolha pela flutamida se baseou em um estudo brasileiro conduzido no Amazonas. A pesquisa mencionada por ele é um ensaio clínico que testou a proxalutamida, medicamento do mesmo grupo da flutamida, em pacientes com covid-19 internados em enfermaria. 

Embora a pesquisa com proxalutamida tenha indicado um impacto significativo da substância sobre a mortalidade e o agravamento da doença, os resultados do estudo foram apresentados somente em uma coletiva de imprensa. O trabalho ainda não foi publicado ou passou pela revisão de outros cientistas independentes.

Em reportagem do Estadão Verifica, especialistas enfatizaram que é preciso ter cautela. Por enquanto, não há comprovação científica da eficácia da proxalutamida contra a covid-19, uma vez que os detalhes da pesquisa ainda não estão disponíveis e a qualidade do estudo é incerta. 

Estadão Verifica tentou entrar em contato com Luiz Maciel Cardoso, mas não obteve resposta.

Este boato também foi desmentido pelos sites Aos Fatos e Boatos.org.

 

 

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