Site faz análise enviesada e com erros técnicos para defender uso da ivermectina contra covid
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Site faz análise enviesada e com erros técnicos para defender uso da ivermectina contra covid

Plataforma pseudocientífica reúne pesquisas não revisadas e compara dados não equivalentes, segundo especialistas; órgãos de saúde internacionais não recomendam medicamento no combate ao coronavírus

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

15 de março de 2021 | 17h46

É falso que uma análise de 45 estudos sobre o uso da ivermectina contra a covid-19 comprove a eficácia do medicamento para prevenção e tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus, conforme sugerem publicações virais no Facebook e no WhatsApp. De acordo com especialistas, o site Ivmmeta.com, que embasa o boato, não tem validade científica e contém uma série de falhas metodológicas. 

A professora de microbiologia da Universidade de Brasília (UnB) Fabiana Brandão aponta que, embora a plataforma apresente uma estrutura alusiva a trabalhos científicos, incluindo gráficos e cálculos matemáticos, o site tem um conteúdo perigoso, “com interpretações nocivas”, repleto de “dados enviesados e errôneos”.

“Com qualquer dado dá para se chegar a algum resultado, a depender de como eles são tratados”, afirma Brandão.  Ela destaca, no site, o uso inadequado de estudos que não foram revisados por pares (não tiveram a análise de outros cientistas) e a mistura de artigos com características muito diferentes, que não podem ser comparados entre si.

O pesquisador do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) Marcio Bittencourt também pontua erros nas seleção dos artigos e adiciona que o site apresenta viés na seleção dos resultados. O médico ressalta que a análise do Ivmmeta não foi submetida à revisão de outros cientistas ou publicada em periódicos.

Ele destaca ainda que os autores nem sequer se identificam para assumir a responsabilidade pelo conteúdo. “É estranho que os autores de um trabalho tão extenso não queiram receber o crédito”, questiona. Até o momento, agências e entidades de saúde nacionais e internacionais afirmam não existir evidências suficientes e confiáveis de que a ivermectina promova benefícios contra a covid-19. 

Estruturas muito distintas

As revisões sistemáticas são ferramentas que permitem aos cientistas avaliarem o impacto de um medicamento em uma larga amostra de pacientes, a partir dos resultados de diferentes estudos clínicos. Trata-se de um recurso importante para responder às dificuldades de pesquisadores reunirem uma grande quantidade de participantes em um único trabalho, seja por falta de estrutura, tempo ou apoio financeiro.

Para que a análise seja precisa, é necessário suprimir interferências do autor e de outros fatores externos. As revisões sistemáticas, portanto, devem estabelecer critérios rigorosos na seleção dos trabalhos. Mas isso não acontece no caso do Ivmmeta. O site, na verdade, seleciona os resultados que melhor convém para defender o uso da ivermectina.

Marcio Bittencourt aponta que o Ivmmeta mistura estudos com estruturas, objetivos e desfechos muito distintos. Ele cita a combinação de estudos que comparam a ivermectina com placebos e pesquisas que comparam a ivermectina com outros medicamentos. “Do ponto de vista técnico isso é completamente inadequado”, diz o especialista. 

Um trabalho selecionado pelo Ivmmeta, por exemplo, analisou o uso da ivermectina combinada a um antibiótico em relação ao protocolo de hidroxicloroquina e azitromicina. Esse estudo não poderia ser comparado com outros que verificaram a melhora de grupos tratados somente com a ivermectina contra grupos submetidos a placebo (substância sem efeito). 

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que não houve alteração na regra de compra de hidroxicloroquina e ivermectina Foto: Gerard Julien/ AFP

Além disso, alguns trabalhos avaliam a resolução de sintomas, enquanto outros observam os efeitos sobre os tempo de internação e a mortalidade.

Fabiana Brandão destaca que a maioria dos estudos são observacionais — não correspondem ao melhor padrão de pesquisas sobre a eficácia de um medicamento. Além disso, a cientista comenta que muitos deles não passaram por revisão de pares ou têm dados publicados. 

Seleção enviesada

Outra inconsistência do Ivmmeta é a seleção enviesada dos resultados das pesquisas. Os autores do site tendem a dar mais importância a desfechos considerados “mais sérios”, mesmo que não sejam o resultado principal do estudo. Isso quer dizer que, se uma pesquisa é estruturada para avaliar a eficácia da ivermectina na resolução dos sintomas da covid-19, mas também gera algum resultado positivo acerca da mortalidade, o último dado é privilegiado em detrimento do outro. “Eles procuram sempre o dado mais favorável para o medicamento”, ressalta Bittencourt. 

Até mesmo o resultado de estudos que não atestam o benefício da ivermectina são deturpados para respaldar o uso do medicamento, observou Fabiana Brandão. É o caso de uma pesquisa publicada na JAMA Network, a única presente em revista científica de grande impacto. 

Após avaliarem o tempo médio de resolução de sintomas da covid-19 entre um grupo tratado com a ivermectina e outro grupo com placebo, os autores do trabalho não encontraram diferenças significativas. “As descobertas não sustentam o uso da ivermectina no tratamento de covid-19 moderada, embora mais estudos sejam necessários para entender os efeitos em outros desfechos clínicos”, diz a conclusão do artigo. 

O Ivmmeta faz uma série de críticas ao estudo, mas ainda assim usa o trabalho na metanálise. Segundo o site, a pesquisa mostra um benefício de 66,8% na prevenção de mortes por covid-19. Porém, essa estatística não aparece no relatório da pesquisa publicada na JAMA ou na conclusão dos autores. A taxa de mortalidade nem sequer foi mensurada no estudo.

Segundo Bittencourt, ainda não há uma revisão sistemática confiável sobre eficácia da ivermectina devido à falta de estudos de qualidade que poderiam ser contemplados na análise.  

O valor P

Como parte da estratégia de revestir a análise com um falso teor científico, a plataforma emprega o cálculo do “valor p” para sustentar que a “probabilidade de um tratamento ineficaz ter gerado resultados tão positivos como os dos 45 estudos (listados) é estimada em 1 em 35 trilhões”. Para os especialistas consultados pelo Verifica, no entanto, a interpretação está errada e não tem validade. 

A professora Fabiana Brandão explica que esse teste estatístico geralmente tem a finalidade de negar ou confirmar a chamada hipótese nula. Nos testes de um medicamento, por exemplo, a hipótese nula pode presumir que o tratamento não tem efeito. O valor de p, neste caso, indicaria as chances de algum resultado diferente dessa hipótese ser aleatório ou consequência do tratamento.

“Esse teste estatístico tem por finalidade confirmar ou negar a hipótese nula, o que não tem nada a ver com a afirmação”, diz Fabiana Brandão.  Nos testes de um medicamento, por exemplo, a hipótese nula poderia ser que o remédio pesquisado não tem eficácia. O valor-p definiria quais as chances de o resultado obtido ser fruto do acaso ou indicar que aquele desfecho é igual ou diferente da hipótese de que o medicamento não funciona. 

“Esse cálculo só mostra a probabilidade do resultado ser diferente do nulo. O p não mostra o quão eficaz algo pode ser”, concorda Bittencourt. O especialista destaca também que o cálculo é infundado, uma vez que a própria seleção dos artigos já apresenta erros metodológicos.

Passageiros no transporte público de SP em primeiro dia útil da fase emergencial. Foto: Werther Santana/Estadão

Site compõe plataforma de desinformação

O Ivmmeta integra uma plataforma que reúne análises de estudos de uma série de medicamentos apontados como “cura” da covid-19. Uma verificação do Projeto Comprova mostrou inconsistências em sites semelhantes com interpretações enganosas sobre a eficácia da hidroxicloroquina. Assim como o Ivmmeta, os sites apresentavam metodologias enviesadas, com uma roupagem de trabalho científico. 

Essas plataformas, inclusive, já sustentaram anúncios e conteúdos enganosos de defensores de tratamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus, como mostram verificações da Agência Lupa e do Aos Fatos. Outras supostas metanálises sobre a eficácia da ivermectina também foram usadas para confundir usuários de plataformas digitais.

Um trabalho conduzido por médicos americanos foi compartilhado por parlamentares brasileiros no fim do ano passado como prova de eficácia do medicamento contra a covid-19, mas o artigo também contava com problemas metodológicos. Outro caso de artigo científico usado para desinformação ocorreu com o pesquisador britânico Andrew Hill. O próprio estudo de Hill afirmava que os resultados sobre ivermectina eram preliminares, mas conteúdos enganosos se apropriaram do artigo para defender o uso do medicamento contra covid-19.

Até o momento, agências e entidades internacionais como os Institutos de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) apontam que não há evidências suficientes para recomendar o uso da ivermectina contra a covid-19. No Brasil, a Agência Nacional de Saúde (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia também não reconhecem os benefícios do medicamento contra a covid-19.

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