É falso que Porto Feliz, no interior paulista, não tenha nenhum óbito por covid-19
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É falso que Porto Feliz, no interior paulista, não tenha nenhum óbito por covid-19

Boato no Facebook inventa que cidade teria conseguido evitar mortes com protocolo de tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina

Pedro Prata

16 de julho de 2020 | 18h32

É falso que o município de Porto Feliz, no interior de São Paulo, não tenha nenhuma morte causada pelo novo coronavírus. A alegação está presente em ao menos cinco posts que viralizaram no Facebook ao informar que a secretaria municipal de Saúde estaria distribuindo kits com os medicamentos cloroquina e azitromicina aos infectados pela covid-19. Estas publicações receberam ao menos 12,5 mil compartilhamentos e 3,5 milhões de visualizações desde 11 de junho.

Diferentemente do informado no post viral, o município de Porto Feliz, com 53.098 habitantes, não evitou mortes pelo novo coronavírus com uso de cloroquina. O boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Estado informa que em 11 de junho, data da publicação das postagens falsas, a cidade tinha registrado acumulado de 354 casos confirmados e 6 óbitos. Em 16 de julho, data de publicação desta checagem, eram 376 casos e 8 óbitos — número bem distante dos 1.500 casos falsamente informados pelo boato. A situação epidemiológica na cidade não é muito diferente de vizinhas na região que não adotaram protocolo com cloroquina e azitromicina (veja mais abaixo).

Conforme noticiado pelo Estadão, a prefeitura de Porto Feliz adotou um protocolo de tratamento farmacológico com hidroxicloroquina e azitromicina ainda em abril — um mês antes do Ministério da Saúde publicar recomendação de uso do medicamento em casos leves de covid-19, por pressão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Porto Feliz possui oito óbitos por covid-19. Foto: Reprodução

O kit de remédios foi colocado à disposição em dois postos de saúde e no pronto-socorro da cidade. A decisão foi tomada pelo prefeito Antônio Cássio Habice Prado (PTB). O post viral afirma que ele é médico, informação que aparece na sua página de candidatura no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele está inscrito no Conselho Regional de Medicina com o número 49.282.

A hidroxicloroquina é um antimalárico defendido por Bolsonaro e pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu uso no tratamento da covid-19 foi sugerido inicialmente por um médico francês, mas o estudo foi criticado por utilizar apenas 20 pacientes e por considerar no resultado apenas aqueles que se curaram seguindo o tratamento até o fim. Estudos posteriores falharam em provar o benefício da medicação.

Já a azitromicina é um antibacteriano — isto é, medicamento utilizado para combater infecções causadas por bactérias. Ela foi combinada à hidroxicloroquina em estudos laboratoriais, mas sua eficácia contra o novo coronavírus no corpo humano tampouco foi provada. Em maio, as sociedades brasileiras de Infectologia, Medicina Intensiva e Pneumologia e Tisiologia publicaram diretrizes para o tratamento farmacológico no qual foram contra a recomendação do uso de rotina destes medicamentos pela baixa evidência que apresentaram no tratamento da covid-19.

Estadão Verifica fez esta checagem com base em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis em 16 de julho de 2020.

A Prefeitura de Porto Feliz não respondeu ao contato da reportagem até a publicação desta checagem. Em sua página no Facebook, informou nesta quarta-feira, 15, que os óbitos confirmados no boletim epidemiológico “são de pacientes que não realizaram o tratamento precoce e procuraram atendimento médico já com a doença em estágio avançado. Na maior parte desses casos, os pacientes possuíam graves comorbidades”.

Estudos falharam em comprovar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Foto: George Frey/Reuters

Situação de Porto Feliz

Porto Feliz é uma cidade com 53.098 habitantes na região metropolitana de Sorocaba. Outros municípios desta região com tamanho populacional semelhante apresentam quadro de óbitos e infectados muito semelhantes, mesmo que não tenham adotado institucionalmente o protocolo com a hidroxicloroquina e a azitromicina:

  • Mairinque – 47.150 habitantes, 205 casos confirmados e 12 óbitos. Não adotou a hidroxicloroquina como tratamento padrão, e o médico é o responsável por prescrever o tratamento mais adequado para cada paciente.
  • Cerquilho – 48.949 habitantes, 97 casos confirmados e 7 óbitos. Adotou uma central de monitoramento para acompanhar familiares dos infectados e rastrear aqueles que tiveram contato com eles.
  • Boituva – 60.997 habitantes, 340 casos confirmados e 9 óbitos. Não adotou o protocolo de tratamento com covid-19. A escolha do tratamento é de responsabilidade de cada médico.

Em 27 de maio, o governador João Doria (PSDB) anunciou o Plano São Paulo, esquema de reabertura gradual da economia que começou a valer em 1º de junho. O Estado foi dividido em regiões que receberam uma classificação de acordo com média da taxa de ocupação de leitos de UTI exclusivas para pacientes com coronavírus, número de novas internações no mesmo período e o número de óbitos.

A combinação desses fatores coloca cada região em uma das cinco fases de abertura econômica. Na vermelha, a mais crítica, apenas os serviços essenciais, a indústria não essencial e a construção civil têm autorização para funcionar. Já a fase azul foi batizada de “normal controlado”: todas as atividades econômicas são retomadas normalmente.

Gráfico mostra as fases do Plano São Paulo para abertura gradual das atividades econômicas. Foto: Estadão

Em 3 de junho, a região de Sorocaba foi classificada na fase laranja. Nesta fase, foi permitida a reabertura com restrições de imobiliárias, concessionárias, escritórios, comércios e shoppings centers. No entanto, a região regrediu para a fase vermelha em 29 de junho.

Somente em 10 de julho é que a região avançou novamente para a fase laranja. O boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Estado mostra que nesta quinta-feira, 16, a taxa de ocupação dos leitos de covid-19 na região de Sorocaba em enfermaria era de 51,9% e os de UTI, 66,5%.

O Brasil registrou acumulado de 75.366 mortes e 1,9 milhão de casos nesta quinta-feira, segundo dados da Universidade John Hopkins. Aproximadamente um em cada cinco dos infectados brasileiros está em São Paulo. O Estado tinha 393.176 casos confirmados da doença até esta quinta-feira. É o Estado com segundo maior número de infectados no mundo, atrás apenas do Estado de Nova York, nos Estados Unidos.

Este boato também foi checado por Fato ou Fake e Boatos.org.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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