Trio de remédios indicado em redes sociais não tem eficácia comprovada contra coronavírus

Trio de remédios indicado em redes sociais não tem eficácia comprovada contra coronavírus

Postagem que incentiva automedicação contra covid-19 não tem embasamento científico

Estadão Verifica

18 de junho de 2020 | 19h37

Uma publicação do Facebook sugere que os remédios azitromicina, nitazoxanida e ivermectina são capazes de curar a covid-19 se usados no começo da manifestação dos sintomas. Em um documento que fornece recomendações baseadas em evidências científicas, as Sociedades Brasileiras de Infectologia, Tisiologia e Pneumologia e a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, no entanto, não recomendam o uso desses fármacos para tratamento do vírus, visto que não há comprovação científica que assegure a eficácia deles.

Documento

Nos comentários do post, há relatos de pessoas que fizeram uso desses medicamentos no combate à doença e teriam tido sucesso. A publicação no Facebook oferece até mesmo recomendações dos horários e das doses que supostamente curariam pacientes com o novo coronavírus.   

Automedicação pode ser perigosa. Foto: Pexels/Pixabay

Em entrevista ao Comprova,  o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) disse que “todas as estratégias, seja a hidroxicloroquina ou qualquer outra (azitromicina, ivermectina e nitazoxanida), estão em estudo, e não se justifica o uso por experiência pessoal porque isso não é ciência, isso é empirismo”. 

A azitromicina é um antibiótico com efeito antibacteriano, ou seja,  trata muitas infecções oriundas de bactérias. Além dessa finalidade, a azitromicina atua também  como anti-inflamatório. Já a ivermectina serve no combate a parasitas como piolho e sarnas. A nitazoxanida, por sua vez, é um antimicrobiano utilizado para diarréias crônicas. 

Uso deliberado de medicamentos sem prescrição pode causar danos

O infectologista Sidnei Rodrigues, do hospital Eduardo Menezes, em Belo Horizonte, alerta que a automedicação pode ocasionar intoxicações, causar alterações hepáticas e renais, como também diminuir a imunidade de remédios ocasionalmente usados em tratamentos. “A pessoa pode desenvolver alergia com determinado medicamento, e ao se fazer automedicação com antimicrobiano para tratar infecção no organismo, pode ser que quando seja de fato necessário não faça efeito, porque as  bactérias se tornarão resistentes”, ressalta. 

A mistura de diferentes medicamentos também não é indicada e pode ser causar danos à saúde caso não tenha sido recomendada por médicos. Segundo Rodrigues, cada remédio foi pensado e estudado para situações específicas de saúde, e por consequência, ao se misturar substâncias químicas distintas e sem orientação de profissionais, os efeitos podem ser negativos e até mesmo agravar quadros clínicos. “Cabe um uso consciente para nós, enquanto sociedade, fazermos um uso racional porque todo medicamento tem também potenciais efeitos negativos para a saúde a pessoa. 

O protocolo mais indicado para prevenção da covid-19 continua sendo  manter-se em isolamento social, utilizar máscaras, higienizar as mãos constantemente e manter distanciamento de, no mínimo 1,5m de outras pessoas quando for preciso expor-se. 

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

 

 

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