É falso que Dilma tenha participado de atentado que matou soldado Mario Kozel Filho
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É falso que Dilma tenha participado de atentado que matou soldado Mario Kozel Filho

Ação foi realizada por VPR, grupo de luta armada do qual Dilma nunca fez parte; não há indícios de participação da ex-presidente em atos violentos na ditadura

Samuel Lima, especial para o Estado

10 de julho de 2020 | 19h43

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) não participou do atentado que levou à morte do soldado Mário Kozel Filho, em 26 de junho de 1968. Esta alegação falsa circula em redes bolsonaristas no Facebook. Na data citada, o grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que praticou luta armada contra a ditadura militar (1964-1985), atacou o quartel-general do 2º Exército, em São Paulo. Nos meses seguintes, dez dos acusados pelo atentado foram presos e dois foram mortos pelos militares.

É falsa a publicação no Facebook que acusa Dilma Rousseff de matar soldado em 1968. Foto: Reprodução / Arte Estadão

O Estadão publicou a notícia na capa da edição de 27 de junho de 1968, disponível no acervo digital. A reportagem afirma que um veículo carregando dinamite foi lançado contra o Quartel General do 2º Exército, no bairro Ibirapuera. A explosão matou um soldado de 18 anos, Mário Kozel Filho, e deixou outros cinco feridos. Esses fatos já colocam em descrédito o boato. A postagem inventa que Dilma teria “jogado uma granada no portão”. A data citada no post também está errada.

Capa da edição do ‘Estado’ em 27 de junho de 1968. Foto: Reprodução / Acervo Estadão

Nas páginas internas, o Estadão noticiou que o atentado ocorreu durante a madrugada e foi executado por apenas uma pessoa. O motorista saltou do veículo depois que tiros de advertência foram disparados e os pneus do carro foram alvejados. Depois, o homem que dirigia foi resgatado por cúmplices em um segundo veículo. O carro com explosivos se chocou contra a parede do quartel e detonou quando os soldados se aproximaram. Posteriormente, o fato foi atribuído ao grupo VPR.

Dilma, no entanto, não fazia parte da VPR nessa época. Segundo a biografia da petista no CPDOC da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a ex-presidente era integrante do grupo guerrilheiro Comando de Libertação Nacional (Colina). Essa organização apenas se uniria à VPR em 1969, um ano após o atentado contra Kozel Filho. Os dois grupos formaram a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR) – Palmares. 

Em outra verificação recente, o Estadão Verifica mostrou que não há evidências da participação de Dilma Rousseff em qualquer ação armada durante o regime militar. A reportagem consultou documentos tornados públicos em 2010 pelo Superior Tribunal Militar (STM) para desmentir boatos de que a ex-presidente teria participado de assaltos aos bancos Banespa e Mercantil, em 1968; de que teria confessado planos de assassinato do capitão norte-americano Charles Chandler; e de que teria participado de roubo ao quartel da Força Pública do Barro Branco. Nada disso é verdade.

O caso do soldado Mário Kozel Filho não é sequer citado nos arquivos da ditadura referentes a Dilma, produzidos a partir de depoimento sob tortura prestado por ela em delegacia do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em 1970. De acordo com o relatório, Dilma afirmou que sabia de três assaltos e um atentado a bomba realizados pelo Colina, mas negou “participação ativa”. 

A ação da Justiça Militar concluiu que ela teria chefiado greves e assessorado assaltos a bancos, mas não cita quais foram eles, nem comprova vinculação direta. Os arquivos indicam ainda que a ex-presidente se mudou para São Paulo apenas em outubro de 1969 — portanto, meses depois da morte do soldado.

Acusada de subversão em 1970, Dilma foi condenada a quatro anos de reclusão e suspensão dos direitos políticos por dez anos. Ela foi solta no final de 1972. 

Bolsonaro também insinuou participação de Dilma

Assim como ocorreu com os outros quatro casos citados pelo boato analisado anteriormente pelo Estadão Verifica, o presidente Jair Bolsonaro também insinuou envolvimento de Dilma Rousseff na morte de Mário Kozel Filho, sem apresentar provas. Em entrevista a um canal italiano de televisão, em janeiro de 2019, Bolsonaro citou o VPR como responsável “por várias ações terroristas, incluindo uma bomba que matou um soldado em São Paulo”. Em seguida, disse que “fazia parte dessa organização terrorista também a senhora Dilma Rousseff”. A transcrição do trecho foi feita pelo site Poder 360.

Dilma divulgou nota à imprensa sobre o episódio no Facebook, afirmando que Bolsonaro espalha uma fake news corrente entre seus apoiadores. “Nunca fui integrante deste grupo (VPR), jamais participei de qualquer ação armada e não propus ou contribuí para a morte de quem quer que seja”, escreveu Dilma. 

Ela ressaltou que a acusação não consta nos arquivos da ditadura, nem no livro sobre o assunto editado por militares após o fim do regime — a publicação também foi analisada pelo site Aos Fatos. A petista disse ainda que o episódio ocorreu quando residia em Belo Horizonte e frequentava a Faculdade de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e que a postura do atual presidente é “profundamente lamentável” para um chefe de Estado.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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