Bolsonaristas resgatam boato falso sobre participação de Dilma em assaltos a banco e homicídios na ditadura
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Bolsonaristas resgatam boato falso sobre participação de Dilma em assaltos a banco e homicídios na ditadura

Texto com acusações infundadas circula desde 2016 na internet; não há provas de que ex-presidente tenha participado de ações violentas contra o regime militar

Samuel Lima, especial para o Estado, e Pedro Prata

02 de junho de 2020 | 18h58

Boatos nas redes sociais apresentam uma série de acusações infundadas sobre o período de militância de Dilma Rousseff (PT) contra a ditadura militar (1964-1985), na década de 1960. O texto afirma, entre outros pontos, que a ex-presidente teria participado de dois assaltos a banco em São Paulo, em 1968, que nunca foram relacionados a ela por nenhuma investigação. Também alega que Dilma teria confessado na prisão, em 1970, planos de assassinato do capitão norte-americano Charles Rodney Chandler e roubo a quartel da Força Pública do Barro Branco, o que não é verdade.

O texto falso circula na internet, ao menos, desde abril de 2016 e passou a ser compartilhado recentemente, no Facebook, com a frase “Aproveita a quarentena pra estudar sobre a história do seu país”. Também foram acrescidos trechos em defesa do presidente Jair Bolsonaro e assinatura da juíza federal Gabriela Hardt, que substituiu Sérgio Moro na 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba, onde tramitam processos da Operação Lava Jato. Em nota, a juíza negou a autoria e disse que não escreve ou fala publicamente sobre política ou qualquer político.

Texto falso nas redes sociais acusa Dilma Rousseff de ter participado de assaltos a bancos e planejado assassinato de capitão norte-americano. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Dilma iniciou a militância no grupo de esquerda Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (Polop) de Minas Gerais, em 1967, e participou de duas organizações que fizeram luta armada contra o regime militar: o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), originado da fusão entre o Colina e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Porém, ela sempre negou a participação em ações violentas. O Estadão Verifica entrou em contato com a assessoria da ex-presidente e obteve a mesma resposta.

A reportagem consultou o acervo do Estadão, notícias, arquivos do Superior Tribunal Militar (STM) e outras fontes, mas não encontrou indícios que relacionem Dilma Rousseff às acusações do texto na internet. Ao contrário, arquivos da ditadura indicam que a ex-presidente mudou para São Paulo apenas em outubro de 1969, quase um ano depois dessas ocorrências. Além disso, a fusão do Colina com a VPR, que teve militantes envolvidos com a morte de Chandler, só ocorreu em junho de 1969, também meses depois do fato.

Dilma não participou de assaltos à mão armada em São Paulo

Sem citar fonte alguma, o boato afirma que Dilma Rousseff participou de dois assaltos à mão armada em São Paulo, no ano de 1968, em agências do Banespa e do Banco Mercantil. No entanto, a ex-presidente nunca teve o nome envolvido nessas ocorrências.

O assalto à agência do Banespa na Rua Iguatemi, em São Paulo, aconteceu em 15 de outubro de 1968 e foi descrito em reportagem do Estado no dia seguinte. A notícia pode ser consultada no acervo digital do jornal. Conforme a matéria, cinco assaltantes renderam os funcionários do banco e retiraram 200 mil cruzeiros novos do cofre. Não há registro de que algum deles fosse mulher — e o caso nunca foi ligado a Dilma. Além disso, esse mesmo boato já foi atribuído à jornalista Miriam Leitão e desmentido em 2018.

Foto: Acervo Estadão

O segundo assalto teria ocorrido no Banco Mercantil de São Paulo, em 1º de agosto de 1968. De fato, naquela data, houve dois roubos em agências do Banco Mercantil, nos bairros Perus e Itaim, segundo artigo disponível no acervo digital do Estadão. Porém, o boato inventa uma história sobre “comparsas” mortos e feridos para acusar Dilma. Ao contrário do que está escrito no post, os dois crimes tiveram sucesso, e não há registro de confronto. Dilma também nunca foi apontada como integrante desse grupo por nenhuma investigação.

Suposta confissão de assassinato do capitão Chandler é falsa

A seguir, o boato alega que Dilma Rousseff teria confessado dois crimes após ter sido presa e torturada pela ditadura militar em 1970: o planejamento do assassinato do capitão norte-americano Charles Rodney Chandler e o assalto ao quartel da Força Pública do Barro Branco. Não é verdade.

O capitão americano Charles Chandler foi morto em 12 de outubro de 1968, no Sumaré, na zona oeste de São Paulo, em um atentado feito por três militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Dilma não fez parte desses grupos. Já o assalto ao quartel de Barro Branco consistiu no assassinato do aluno-soldado Antônio Carlos Jeffery, em 20 de setembro do mesmo ano, quando este servia de sentinela na Escola de Bombeiros. Os assassinos roubaram a metralhadora do soldado.

O Estadão Verifica consultou documentos tornados públicos pelo Superior Tribunal Militar em 2010 e verificou que nenhum dos casos é sequer citado por Dilma Rousseff em depoimento sob tortura prestado em delegacia do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em 1970. A ação da Justiça Militar acusou Dilma de ter chefiado greves e assessorado assaltos a banco, sem citar quais foram eles e comprovar vinculação direta.

De acordo com o relatório, Dilma afirmou em depoimento que sabia de três assaltos a banco e um atentado a bomba realizados pelo Colina, mas negou “participação ativa” dela e do então marido Cláudio Galeno de Magalhães Linhares. Também é relatado que foram apreendidos “materiais para falsificação, panfletos, livros subversivos e uma infinidade de comprovantes de sua atuação” em sua residência, mas não armas. Acusada de subversão, Dilma foi condenada a quatro anos de reclusão e suspensão dos direitos políticos por dez anos.

Diferentemente do processo da Justiça Militar, um telegrama da Embaixada dos Estados Unidos de 2005, revelado pelo Wikileaks, diz que Dilma “organizou três assaltos a banco” e “planejou o lendário roubo” do cofre de Adhemar de Barros. À época da divulgação do material, o embaixador dos Estados Unidos em Brasília, Thomas Shannon, disse ao jornal Folha de São Paulo que “o governo dos EUA não tem informação que confirme essas alegações”

Já o roubo do cofre do governador paulista Adhemar de Barros, feito em julho de 1969 pela VAR-Palmares e que envolveu a quantia de 2,59 milhões de dólares, foi descrito no livro O Cofre do Dr. Rui, escrito pelo jornalista Tom Cardoso. Segundo ele, não partiram de Dilma nem a ideia do roubo, nem a organização do ataque, e a ex-presidente também não fez parte do grupo que invadiu o local onde estava escondido o baú. “Mas Wanda (codinome de Dilma) tinha, sim, grande importância no grupo. Cuidava de planejar, distribuir armas e munição, documentos”, disse Cardoso ao Estadão.

Bolsonaro fez acusações semelhantes

No ano passado, o presidente Jair Bolsonaro insinuou, em evento nos Estados Unidos, que a petista teria participado de ações armadas que resultaram na morte de Chandler. “Quem até há pouco ocupava o governo teve suas mãos manchadas de sangue na luta armada, matando inclusive um capitão”, disse. Na sequência, fez homenagem ao capitão americano morto no período de ditadura. Dilma acusou Bolsonaro de calúnia, e o presidente teve de se explicar ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Essa não foi a primeira vez que o presidente fez acusações do tipo contra Dilma. Em 2009, Bolsonaro fez discurso na Câmara dos Deputados em que saudou o regime militar e falou com ironia sobre a “ficha” da então ministra-chefe da Casa Civil. Ele citou os quatro crimes atribuídos falsamente à Dilma no boato — assaltos ao Banespa, ao Banco Mercantil e ao quartel do Barro Branco e planejamento do assassinato de Chandler. Como mostrado acima, não há indícios da participação dela em nenhum desses casos. /COLABOROU TIAGO AGUIAR

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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