Em discurso nos mil dias de governo, Bolsonaro admite ter rompido quarentena de ministro e volta a semear dúvidas sobre vacina

Em discurso nos mil dias de governo, Bolsonaro admite ter rompido quarentena de ministro e volta a semear dúvidas sobre vacina

Mesmo que alguns vacinados se contaminem, imunizantes diminuem significativamente infecções e casos graves de covid

Alessandra Monnerat, Pedro Prata, Samuel Lima e Victor Pinheiro

27 de setembro de 2021 | 17h21

Em pronunciamento que marcou os 1.000 dias de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro voltou a lançar dúvidas sobre a efetividade das vacinas contra covid-19 — que passaram por testes de segurança e eficácia, foram aprovadas pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e por órgãos sanitários do mundo inteiro. O presidente afirmou ter ido ao quarto de hotel do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mesmo depois de saber que ele havia sido infectado com a covid-19 na semana passada, e ironizou o fato de o médico estar com o vírus mesmo depois de vacinado. Queiroga deveria ter ficado em isolamento após a contaminação. Bolsonaro disse que não se vacinou e que teve resultado negativo ao fazer teste para covid-19 neste domingo, 26.

Como nenhuma vacina tem 100% de eficácia, são esperadas algumas infecções mesmo entre os imunizados. Mas isso não diminui a importância da vacinação: os imunizantes diminuem significativamente infecções e casos graves de covid. Dados de diversos países mostram diminuição no número de internações e mortes após o início da campanha de imunização.

O Estadão Verifica checou outras afirmações de Bolsonaro no discurso. Leia abaixo.

Embora Bolsonaro lance dúvidas sobre imunizantes, todos os utilizados no Brasil tiveram segurança e eficácia aprovados em estudos bem conduzidos. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O que Bolsonaro disse: que PIB do Brasil caiu “apenas” 4% em 2020, enquanto “em outros países” caiu 9%.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é exagerado. De fato, a economia brasileira encolheu 4,1% em 2020, de acordo com dados do Banco Mundial. A média mundial, no entanto foi de queda de 3,6%. Em países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o PIB caiu 4,7%. Na América Latina, a retração foi de 6,3%.

O que Bolsonaro disse: que recebe críticas por ter colocado “militar demais” no governo, “mais até proporcionalmente que os governos de Castelo Branco a Figueiredo”.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é impreciso. Em reportagem publicada em dezembro de 2018, o Estadão mostrou que Bolsonaro começou o governo com mais militares ocupando ministérios do que Castelo Branco, em 1964: sete a cinco, em números absolutos. No entanto, ele não superou os demais presidentes da ditadura: empatou com Emílio Garrastazu Médici, com sete, e ficou numericamente abaixo das gestões de Ernesto Geisel, com 10; e Artur da Costa e Silva e João Baptista Figueiredo, ambos com nove.

Em termos proporcionais, como afirma Bolsonaro em seu discurso, o atual governo também superou Castelo Branco, mas não os outros. No começo do mandato, 31,8% das pastas eram ocupadas por ministros de formação militar, contra 31,2% de Castelo Branco, 38,9% de Médici, 45% de Figueiredo, e 50% de Geisel e Costa e Silva. Esse cálculo considera a participação dos militares em relação ao número total de cargos disponíveis.

Bolsonaro supera os presidentes da ditadura em presença de militares no alto escalão do governo apenas quando se analisa o cenário a partir das reformas ocorridas desde a redemocratização. Na época da ditadura, por exemplo, não existia o Ministério da Defesa, e sim os ministérios do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, separadamente. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) é outra pasta que hoje agrupa ministérios do passado.

De acordo com o levantamento, se a configuração ministerial atual fosse aplicada aos governos do passado, somente o de Costa e Silva teria o mesmo número de militares que Bolsonaro. E, se Bolsonaro tivesse os mesmos ministérios militares, seu governo teria 10 ministros militares, mais do que qualquer um na história.

Atualmente, os militares que compõem a equipe ministerial de Bolsonaro são Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Walter Braga Netto (Defesa) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência).

Além dos ministros, considerando funções de menor hierarquia na administração pública, o governo Bolsonaro também dobrou a presença de militares em cargos civis, segundo análise do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgada em junho de 2020. Houve ainda uma militarização nas empresas estatais federais: existem 10 vezes mais militares no comando do que na gestão de Michel Temer (MDB), segundo dados obtidos em março deste ano pelo jornal Folha de S. Paulo, por meio da Lei de Acesso a Informação.

O que Bolsonaro disse: gás natural no Reino Unido sofreu reajuste de 300%; combustíveis aumentaram 40% nos EUA.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdadeiro. Uma crise de abastecimento de gás natural provocou aumento acentuado no preço do produto na Europa.

De acordo com informações da Bloomberg, após registrar baixas históricas em 2020, no contexto da pandemia do novo coronavírus, o valor do gás natural no mercado europeu acumulou alta de 500% nos últimos doze meses. No Reino Unido, o preço quadruplicou e pode subir ainda mais devido à alta demanda prevista para o inverno, aponta uma reportagem do jornal britânico The Guardian

Já uma matéria da BBC aponta que o valor da gasolina nos Estados Unidos registrou alta de 41% entre julho de 2020 e julho de 2021. Assim como o gás natural, o preço do combustível sofreu uma forte queda no início da pandemia, mas voltou a subir acompanhado do preço global do petróleo, diante da retomada de atividades econômicas com a flexibilização de medidas restritivas e vacinação em massa contra covid. 

O que Bolsonaro disse: que a Petrobras perdeu dezenas de bilhões de reais quando ele mudou o presidente da empresa.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdade. Em fevereiro, o presidente anunciou que tiraria o executivo Roberto Castello Branco para colocar em seu lugar o general da reserva Joaquim Silva e Luna. O motivo da troca seria um anúncio de aumento no valor da gasolina e que seguia a política de preços da Petrobras.

Com medo de intervencionismo do Executivo na petroleira, as ações da Petrobras, do Banco do Brasil e da Eletrobras, as três maiores estatais do País, perderam R$ 113,2 bilhões no valor de suas ações. Só a Petrobras perdeu R$ 99,6 bilhões.

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