Depoimento na Polícia Federal não liga Jean Wyllys a Adélio Bispo
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Depoimento na Polícia Federal não liga Jean Wyllys a Adélio Bispo

Autor da facada no presidente volta a ser tema de boatos nesta semana, após vídeo no YouTube com testemunha do caso

Tiago Aguiar

30 de abril de 2020 | 11h16

Não há evidências de que o ex-deputado federal Jean Wyllys tenha ligações com o autor da facada no presidente Jair Bolsonaro, Adélio Bispo de Oliveira. O boato passou a circular nas redes sociais esta semana após o ativista Luciano Carvalho de Sá afirmar, em um vídeo publicado no último domingo, 26, já ter conversado com Adélio. Logo após Luciano sugerir, sem provas, a conexão entre Wyllys e Bispo, o ativista não manteve a versão em depoimento à Polícia Federal (PF).

Luciano Carvalho de Sá, conhecido como Luciano Mergulhador, alegou em transmissão ao vivo no canal “Oswaldo Eustáquio” no último domingo que aparece em foto com Adélio de maio de 2018, tirada em um ato contra o ex-presidente Michel Temer. A imagem estava publicada na página do Facebook de Adelio. Na transmissão, no domingo, 26, Luciano também diz que conversou diretamente com Adélio na ocasião, e que Bispo teria elogiado Wyllys. O ativista ainda sugere que houve uma visita de Adélio à Jean na Câmara dos Deputados.

Adélio Bispo é escoltado por agentes da Polícia Federal no aeroporto Francisco Álvares de Assis, em Juiz de Fora (MG). Foto: Ricardo Moraes/REUTERS (08/09/2018)

“Ele comentou comigo, cara, que simplesmente nem todos os políticos são inúteis. Tá, mas quem seria um bom político, né, que ele poderia apresentar. E ele disse: ‘Lá no Congresso Nacional, no anexo 4, tem um deputado federal que simplesmente seria um bom político’”, disse.

Adelio foi filiado ao PSOL, partido de Wyllys, entre 2007 e 2014 e esteve na Câmara dos Deputados em 2013, mas não é possível afirmar que ele visitou ou foi ao gabinete de algum dos deputados do PSOL da época. O boato, que persiste até hoje, foi verificado pelo Projeto Comprova em setembro de 2018.

Nesta segunda-feira, 27, Luciano foi interrogado pelo delegado Reginaldo Donizetti Gallan Batista, da Superintendência Regional da PF em Santa Catarina. No depoimento, Luciano apenas confirma que estava na foto. No entanto, ao narrar menções a Wyllys, diz apenas que ouviu “alguém” citar deputados de esquerda, como Wyllys, e não especifica que essa pessoa é Adélio.

O blog Fausto Macedo, do Estado, teve acesso ao depoimento na íntegra, que em nenhum momento a alegação dita na transmissão é repetida.

Documento

No entanto, desde domingo, alguns sites divulgam a versão, sem provas, da narração de Luciano para o canal no YouTube. O boato ganhou força com publicações do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Ao final da segunda-feira, 27, o senador Marcos do Val (Podemos-ES) anunciou que fez um requerimento no Senado convocando Jean para prestar esclarecimentos sobre o caso, em um texto com informações falsas. O presidente Bolsonaro, em publicação no Twitter, comemorou a notícia com um emoji de um polegar para cima.

Na terça-feira, 28, o PSOL protocolou na Justiça uma queixa-crime contra Carlos Bolsonaro por conta do tweet acima. No mesmo dia, Jean Wyllys se pronunciou sobre o caso, alegando que o boato foi criado para desqualificar as denúncias feitas pelo ex-ministro Sérgio Moro na última sexta-feira.

Em janeiro do ano passado, após Wyllys desistir do mandato e sair do país por conta de ameaças contra sua vida, boatos conspiratórios ligando o político a Adélio também circularam e foram checados pelo Estadão Verifica.

Reabertura de investigações na Polícia Federal

Na terça-feira, 28, o presidente anunciou que as investigações envolvendo o caso Adélio Bispo serão reabertas. Quando Bolsonaro, então candidato a presidente, foi alvo de um atentado em setembro de 2018 durante uma agenda de campanha na cidade mineira de Juiz de Fora, o agressor foi preso em flagrante e no mesmo dia a PF abriu inquérito para investigar o caso.

Ainda no fim de setembro de 2018, a investigação concluiu que o autor da facada agiu sozinho. A curta duração do procedimento inicial se deve ao fato de se tratar de uma apuração com prisão em flagrante. Um segundo inquérito foi instaurado para apurar eventual participação de terceiros no atentado, seja como mandante, instigador, financiador, ou outra pessoa que possa ter contribuído de alguma forma para a prática do crime.

Nesta quarta-feira, 29, o delegado da Polícia Federal Rodrigo Teixeira, ex-superintendente da corporação em Minas Gerais, avaliou que foi exonerado do cargo, em fevereiro do ano passado, por contrariar o desejo do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos na condução da investigação. Ele acredita que o clã Bolsonaro demonstrava interesse de que a apuração chegasse à conclusão de que Adélio tinha sido financiado por partidos políticos ou uma organização criminosa.

A 3ª Vara da Justiça Federal em Juiz de Fora já considerou Adélio inimputável por sofrer de distúrbios mentais. Bolsonaro não recorreu da decisão, publicada em julho de 2019. Adélio, diagnosticado com transtorno delirante persistente, cumpre internação no Hospital Psiquiátrico de Custódia Jorge Vaz, em Barbacena (MG).

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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