Vídeo enganoso espalha compilado de alegações já desmentidas sobre fraude nas urnas eletrônicas

Vídeo enganoso espalha compilado de alegações já desmentidas sobre fraude nas urnas eletrônicas

Postagem que viralizou no Facebook traz gravações editadas e fora de contexto para acusar fraude no sistema eleitoral

Victor Pinheiro

18 de agosto de 2021 | 19h08

Viralizou nas redes sociais um vídeo enganoso que mostra um compilado de acusações de fraude nas urnas eletrônicas, já rebatidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A postagem no Facebook traz trechos de outras gravações fora de contexto para sugerir que as urnas registraram voto nulo quando eleitores digitavam o número do presidente Jair Bolsonaro, o que não é verdade. Na realidade, nas eleições 2018, diversos eleitores erraram ao inserir o número do candidato no campo de votação para o cargo de governador. 

O vídeo enganoso ainda apela para uma edição grosseira de um discurso do presidente da corte eleitoral, o ministro Luís Roberto Barroso, para sugerir a insegurança do sistema eletrônico. No clipe editado, o magistrado parece dizer que “há risco de fraude no sistema eleitoral brasileiro” — mas a gravação foi cortada para retirar o “não” do início da frase.

Outra acusação sem fundamento contida no vídeo é a de que documentos eleitorais foram descartados em Goiânia nas eleições de 2014. Contudo, segundo autoridades eleitorais, o incidente não prejudicou a apuração dos resultados.

É importante ressaltar que em 25 anos de uso do voto eletrônico, nunca foi comprovada fraude ou invasão às urnas eletrônicas. Ainda assim, o conteúdo, cuja legenda afirma que as urnas são “fraudadas”, ultrapassou a marca de 45 mil compartilhamentos no Facebook e acumula mais de 195 mil visualizações. Confira abaixo a checagem das principais alegações expostas no vídeo.

Discurso de Barroso foi editado

O conteúdo enganoso apela para uma edição grosseira de um discurso de Barroso durante as eleições municipais 2020. A edição omite a palavra “não” na fala do magistrado com o intuito de sugerir que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teria admitido que há risco de fraude no sistema eleitoral brasileiro.

A gravação original, publicada no canal no YouTube da CNN Brasil, deixa clara a manipulação no minuto 3:24 da reportagem. Barroso comentava o atraso da divulgação dos resultados do 1º turno. O problema foi atribuído a mudanças e entraves técnicos no sistema de totalização da corte, como informou o Estadão na época. O ministro, na verdade, ressalta que o episódio não afetou a integridade das eleições. 

“Os resultados tiveram absoluta integridade e fidedignidade. Tudo auditável. Não há riscos de fraude no sistema eleitoral brasileiro”, pontuou Barroso. 

Eleitor digitou 17 em votação para outro cargo

A denúncia seguinte mostra o trecho de um vídeo em que um eleitor acusa uma suposta falha na urna ao tentar votar no presidente Jair Bolsonaro. Ele diz à mesária ter inserido o número 17, mas, em vez de mostrar a foto do candidato, a urna indicou voto nulo. Ao contrário do que sugere o vídeo enganoso, o episódio não passa de uma confusão do próprio eleitor com a ordem de votação. 

O Estadão Verifica identificou, no YouTube, um vídeo com mais de 2 minutos que retrata a votação do mesmo senhor, com mais detalhes. É possível perceber que, antes do homem apontar as supostas irregularidades na urna, o vídeo registra o sinal sonoro de confirmação de apenas quatro votos (0:39) (0:49) (0:55) (1:00). 

Naquelas eleições, eleitores deveriam registrar o total de seis votos, na seguinte ordem: deputado estadual, deputado federal, senador, senador, governador e presidente. Isso indica que o homem inseriu o código 17 ainda no campo de opção para governador. O vídeo mostra, no minuto 2:00, um fiscal da seção eleitoral com um colete do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), o que indica o Estado em que ocorreu o episódio. 

O número 17 não correspondia a nenhum dos candidatos a governador do Estado do Rio de Janeiro nas eleições 2018, como mostra o site do TSE. Quando eleitores inserem um número inexistente para um cargo, a urna retorna um voto nulo. Ao final do vídeo, o homem completa os dois votos restantes e admite que inseriu o código na votação para outro cargo.

Como mostrou o Comprova, nos dias das eleições circularam boatos de fraude semelhantes decorrentes do erro de eleitores. Ainda assim, o presidente Jair Bolsonaro citou esses episódios para espalhar acusações infundadas contra o sistema eletrônico durante uma transmissão ao vivo realizada em julho. 

TSE desmentiu autopreenchimento de urnas com número de Haddad

O conteúdo enganoso analisado ainda mostra relatos de uma falha em que eleitores digitavam somente o número um e as urnas eletrônicas supostamente autocompletavam o voto com o código do candidato à Presidência Fernando Haddad (PT). O boato se espalhou nas redes sociais a partir de um vídeo editado que foi alvo de perícia de técnicos da Justiça Eleitoral. 

A perícia do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) apontou que duas pessoas pressionaram as teclas um e três simultaneamente. Em vídeo divulgado pela corte, um técnico da instituição ressalta que a gravação omite o botão de número três das filmagens no momento do voto e indica que um software identificou dois sons de cliques distintos pouco antes da urna apresentar a foto de Haddad.  

Documentos eleitorais extraviados em Goiânia não prejudicaram eleição

O boato ainda apresenta dois trechos de um outro vídeo em que moradores de Goiânia encontraram documentos eleitorais em um terreno após o primeiro turno das eleições de 2014. Em nota divulgada na época, o TRE de Goiás esclareceu que um malote da seção eleitoral nº 468 foi extraviado durante transporte, mas negou que o incidente tenha causado algum prejuízo à apuração dos votos ou à integridade das eleições. 

O episódio foi tema de reportagens dos portais de notícias G1 e R7. As matérias jornalísticas relatam que entre os documentos extraviados constavam cadernos de mesários, boletins de urna e até um pendrive com cópias dos dados registrados na urna. Segundo a corte, o ocorrido não causou danos à apuração dos votos, “uma vez que os dados da votação da respectiva seção foram recuperados diretamente da urna eletrônica, que sempre esteve sob a guarda do Tribunal.”. 

Uma verificação da Agência Lupa mostra que os resultados daquela seção estão disponíveis no repositório de dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

 

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