Automedicação em casos de covid-19 é perigosa; não siga receitas de redes sociais
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Automedicação em casos de covid-19 é perigosa; não siga receitas de redes sociais

Medicamentos que aparecem em publicação no Facebook não possuem evidência científica de sua eficácia

Pedro Prata

05 de junho de 2020 | 18h50

Uma publicação no Facebook informa a suposta prescrição de três medicamentos para tratar a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O post traz a recomendação sobre a azitromicina e a ivermectina, medicamentos que apresentaram resultado positivo em laboratório mas que ainda não têm eficácia em humanos comprovada. As duas já foram objeto de boatos anteriormente checados pelo Estadão Verifica e ainda não possuem comprovação científica. A foto também traz a imagem do expectorante acetilcisteína.

Muitas drogas apresentam bons resultados nos testes feitos em laboratório, mas não se mostram eficazes no corpo humano, diz Guilherme Spaziani, infectologista do Instituto Emílio Ribas. “Uma coisa é (o resultado) in vitro– isto é, em laboratório. Outra coisa é a pessoa tomar o remédio na prática, o remédio ser absorvido pelo corpo e fazer a ação de curar a doença.”

A ivermectina é um medicamento utilizado para tratar infestações de parasitas como piolho e sarna. Como o Estadão Verifica já mostrou, o fármaco entrou no panorama da pandemia depois que uma pesquisa da universidade de Monash, na Austrália, identificou que uma dose do medicamento reduziu em até 100% a presença do novo coronavírus em uma cultura de células. No entanto, o grupo de pesquisadores ressalta que o remédio não pode ser usado para tratar a covid-19 até que sejam concluídos testes clínicos para se comprovar a sua eficiência em dosagens seguras para os seres humanos. “O potencial uso de ivermectina para tratamento do coronavírus permanece não provado e depende de testes clínicos para avançar”, disse a universidade.

Muitas drogas possuem apresentam bons resultados nos testes feitos em laboratório, mas não se mostram eficazes no corpo humano, diz o infectologista Guilherme Spaziani. Foto: Reprodução

Por sua vez, a azitromicina é um antibiótico — isto é, medicamento utilizado para combater infecções causadas por bactérias. A medicação foi combinada ao antimalárico cloroquina e hidroxicloroquina em estudos laboratoriais. Em maio, as sociedades brasileiras de Infectologia, Medicina Intensiva e Pneumologia e Tisiologia publicaram diretrizes para o tratamento farmacológico no qual foram contra a recomendação do uso de rotina destes medicamentos pela baixa evidência que apresentaram no tratamento da covid-19.

O expectorante acetilcisteína ajuda a eliminar secreções acumuladas no pulmão. É, portanto, um medicamento para combater um dos sintomas da covid-19, mas não cura a doença.

Publicações em redes sociais que compartilham informações sem comprovação científica sobre tratamentos podem levar à falta de medicamentos nas farmácias. Pesquisa do Conselho Federal de Farmácia constatou aumento de até 180% na venda de produtos sem qualquer eficácia comprovada na luta contra a covid-19.

Em março, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tornou controlados remédios à base de cloroquina e hidroxicloroquina. Isso quer dizer que os medicamentos passaram a ser adquiridos com controle especial. O órgão federal tomou a decisão após o remédio — utilizado para tratar malária e doenças reumáticas — faltar nas prateleiras das farmácias.

“Os remédios são drogas. Eles podem ter tanto a ação para curar doença como a ação de um veneno”, ressalta Spaziani. O infectologista alerta para os riscos de se misturar remédios e somar os seus efeitos colaterais. “A automedicação é perigosa porque a pessoa que não estudou medicina não tem capacidade de distinguir quando a droga está fazendo mal e o que fazer para evitar os efeitos colaterais.”

Ainda não há cura para a covid-19

No momento, a melhor forma de se prevenir é lavar as mãos com água e sabão e evitar contato próximo com pessoas resfriadas. Evite tocar no rosto. Importante cobrir o nariz e a boca com o braço ao espirrar. E se estiver doente, o melhor é ficar em casa. Evite sempre aglomerações.

Muitas pesquisas ao redor do mundo procuram um tratamento eficaz para combater a pandemia da covid-19. Mas até o momento não há medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo novo coronavírus. O Ministério da Saúde mantém um site atualizado com as informações mais recentes e confiáveis sobre a doença. Clique aqui.

O Estadão Verifica já checou boatos com receitas caseiras que de nada adiantam e podem até fazer mal — como tomar limão com bicarbonato. Outros perfis nas redes sociais são mais criativos e procuram a cura na mistura de jambu, alho e limão, mas tampouco a encontrarão dessa forma.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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