Vídeo manipula reportagem do Cidade Alerta em Sergipe para acusar PT de intolerância religiosa

Vídeo manipula reportagem do Cidade Alerta em Sergipe para acusar PT de intolerância religiosa

Áudio sobre ‘atacar igrejas’ foi inserido para adulterar programa da TV Atalaia exibido em 2016; voz é falsamente atribuída a Paulo Ferreira, ex-tesoureiro do partido

Samuel Lima

22 de fevereiro de 2022 | 08h37

Atualização (12/5/2022):análise do projeto Comprovasobre o mesmo conteúdo constatou que a reportagem original do Cidade Alerta Sergipe, utilizada na montagem que circula nas redes sociais, era diferente do material citado antes pelo Estadão Verifica. A correção não altera a conclusão da checagem.

Não é verdade que o programa Cidade Alerta de Sergipe tenha divulgado áudio de um membro do PT defendendo que a esquerda precisa “atacar”, “denunciar” e “não deixar abrir” as igrejas porque os fiéis estariam apoiando o presidente Jair Bolsonaro (PL). Vídeo que circula nas redes sociais manipula uma reportagem exibida em agosto de 2016 sobre a revolta de um detento não identificado com o assassinato de uma mulher.

Além disso, para acusar o partido de intolerância religiosa, a peça de desinformação usa uma foto do ex-tesoureiro do PT Paulo Ferreira como se fosse o autor da gravação. O Estadão Verifica comparou a voz do áudio com uma entrevista de Ferreira e constatou que também se trata de uma mentira. A origem do áudio, no entanto, é desconhecida.

A postagem falsa circula desde março de 2021 no Facebook, mas voltou a se espalhar entre simpatizantes de Bolsonaro desde que o presidente criticou um grupo de manifestantes que adentrou uma igreja de Curitiba durante um protesto contra a morte da população negra no Brasil. Um vereador do PT era um dos líderes do ato.

Reportagem original

Por meio de uma pesquisa reversa de imagens no Google Lens, o projeto Comprova chegou ao conteúdo original. A reportagem foi exibida pelo programa Cidade Alerta, da TV Atalaia, afiliada da TV Record no Sergipe, em 24 de agosto de 2016.

Quem apresentava o programa ainda era Gilmar Carvalho, deputado estadual pelo PSC. Ele deixou a função em julho de 2019. Ele anuncia que mostraria um áudio de um presidiário não identificado que se revoltou com o assassinato de uma mulher durante um roubo de celular em Aracaju. As roupas, a fala e os movimentos do apresentador são os mesmos, o que atesta que houve edição e manipulação do material original.

O conteúdo adulterado utiliza apenas o começo do vídeo divulgado pela TV Atalaia, e um corte leva a uma tela com o padrão gráfico da emissora para a exibição de áudios. Neste momento, o áudio original é substituído por outra gravação, acompanhada de uma foto de Paulo Ferreira no campo superior esquerdo.

Áudio não é de Paulo Ferreira

No vídeo manipulado, um homem que supostamente apoia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cita uma série de organizações evangélicas e defende que militantes de esquerda deveriam “atacar as igrejas e botar pra cima” porque os fiéis estariam com o presidente Jair Bolsonaro. 

“Se ver igreja aberta, tem que correr lá e denunciar”, diz em outro momento, aparentemente em referência a decretos de quarentena que impediram a abertura de templos como forma de reduzir o risco de contágio na pandemia de covid-19. Essas medidas foram criticadas por lideranças religiosas. “A força do presidente é esse povo aí, então nós, que somos de esquerda, vamos ter que acelerar, não vamos perdoar, não.”

A foto usada para associar o relato com um membro do PT é do ex-tesoureiro Paulo Ferreira e aparece em uma reportagem do Estadão, publicada em junho de 2016. A imagem foi registrada por Sérgio Castro, da Agência Estado.

Na época, Paulo Ferreira havia sido preso em na Operação Custo Brasil, da força-tarefa da Lava Jato, por suspeitas de envolvimento em esquema de fraude com empréstimos consignados no âmbito do Ministério do Planejamento. Condenado pelo ex-juiz Sergio Moro em uma outra ação, que investigava suposta fraude na licitação de um Centro de Pesquisas da Petrobrás (Operação Abismo), o petista acabou absolvido das acusações pelo TRF-4.

O Estadão Verifica não conseguiu determinar a autoria do áudio inserido pela peça de desinformação, mas é fato que não se trata de Paulo Ferreira. Basta comparar a voz que aparece no vídeo com a do ex-dirigente do PT.

Este é um trecho do áudio que aparece no post falso: 

Já este faz parte de uma entrevista de Paulo Ferreira para a Rádio Gaúcha, em 2017, disponível no SoundCloud:

Em um post no Facebook de março do ano passado, o Núcleo de Evangélicos e Evangélicas do PT também contestou a veracidade do conteúdo. O grupo alega que “em toda a história do PT o que se viu foi respeito a todas as religiões e minorias da sociedade”.

Contexto

O boato circula na internet desde, pelo menos, março de 2021, quando foi desmentido pelo site Boatos.org. Apesar de antigo, ganhou novo impulso entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro por conta de um episódio recente que envolveu a entrada de manifestantes em uma igreja católica de Curitiba.

Em 5 de fevereiro, o movimento Núcleo Periférico organizou uma manifestação no Largo da Ordem, em frente à Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito de Curitiba, cuja edificação original foi construída por escravos no século 18. O ato pedia justiça pela morte do congolês Moïse Kabagambe, espancado em um quiosque na orla do Rio de Janeiro após cobrar uma dívida trabalhista.

O padre Luiz Hass, de 74 anos, conduzia uma missa na igreja e reclamou que o barulho atrapalhava a celebração. Ele afirma ter interrompido a missa por esse motivo. Depois que os fiéis deixaram o local, os manifestantes entraram na igreja para estender faixas e fazer discursos. Entre eles, estava o vereador Renato Freitas, do PT. 

Apesar de o ato ter sido pacífico, segundo relatado ao G1, o pároco ficou incomodado com o ocorrido. “Uma situação insuportável, barulho muito grande, pedimos que baixassem o som lá fora, saíssem da escadaria. Mas começaram a dizer que era igreja dos negros. Suspendi a missa, porque não tinha como, não era horário para fazer o protesto”, disse. 

A Arquidiocese de Curitiba alegou em nota que “lideranças do grupo instaram a comportamentos invasivos, desrespeitosos e grotescos” e que houve “profanação injuriosa” e “agressividade e ofensas”. 

O caso então foi abraçado politicamente por figuras como o presidente Jair Bolsonaro, que chamou o grupo de manifestantes de “marginais” e acionou ministérios para apurar os fatos. Nas redes sociais, críticos passaram a acusar o PT de intolerância religiosa, o que é contestado pelo diretório regional do partido no Paraná. O vereador teve quatro processos de cassação abertos na Câmara Municipal por quebra de decoro.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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