Símbolo da luta antirracista, igreja de Curitiba é palco de protesto pela morte de Moïse e arquidiocese diz que houve ‘profanação injuriosa’

Símbolo da luta antirracista, igreja de Curitiba é palco de protesto pela morte de Moïse e arquidiocese diz que houve ‘profanação injuriosa’

Vereador Renato Freitas (PT), que participou da manifestação, afirma que grupo entrou após missa e se manifestou 'ordeira e pacificamente'

Rayssa Motta

07 de fevereiro de 2022 | 15h45

Manifestantes em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, em Curitiba. Foto: Reprodução/Instagram

Um protesto organizado em Curitiba contra os assassinatos do congolês Moïse Kabagambe, espancado até a morte por cobrar pagamentos atrasados, e do estoquista de supermercado Durval Teófilo Filho, alvejado pelo vizinho militar que o confundiu com um ladrão, terminou em confusão no último sábado, 5, quando o grupo de manifestantes entrou na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, no centro histórico, após celebração de uma missa.

O vereador Renato Freitas (PT), uma das lideranças políticas presentes no protesto, usou as redes sociais para se manifestar sobre o episódio após um vídeo que mostra a presença dos manifestantes na igreja viralizar nas redes sociais (assista abaixo). De acordo com o petista, quando o grupo decidiu entrar, os fiéis já tinham ido embora.

“É uma igreja que foi construída em 1737, justamente porque os negros, nossos ancestrais, não podiam frequentar outras igrejas que eram frequentadas por brancos e tiveram que fazer uma igreja apenas para si. Então essa igreja tem um valor simbólico enorme pra gente. Por isso a gente entrou e reivindicou a valorização da vida”, afirmou o vereador em seu perfil do Instagram.

Nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro (PL) chamou os manifestantes de ‘marginais’ que ‘não respeitam a casa de Deus’ e disse que acionou o Ministério da Justiça e o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos para acompanharem o caso. “De modo a garantir que os responsáveis pela invasão respondam por seus atos e que práticas como essa não ganhem proporções maiores em nosso País”, escreveu Bolsonaro.

O episódio gerou debates na sessão da Câmara Municipal de Curitiba na manhã desta segunda. Os vereadores Osias Moraes (Republicanos) e Ezequias Barros (PMB) criticaram o protesto. Moraes prometeu ‘tomar providências’. “Nós não iremos aceitar esse tipo de ato, principalmente vindo de um vereador desta casa”, afirmou.

Aos colegas, o vereador Renato Freitas disse que o ato foi ‘pacífico’. “Não atrapalhamos nenhuma missa. As imagens e as filmagens mostram que a igreja estava absolutamente vazia. Já se passava das seis da tarde. Entramos e dissemos que nenhum preceito religioso supera o amor e a valorização da vida. Lá dentro, afirmamos isso e saímos ordeira e pacificamente, sem que ninguém tivesse se incomodado e eu desafio qualquer um a provar o contrário”, disse durante a sessão.

Em nota, a Arquidiocese de Curitiba se manifestou sobre o caso e repudiou o que chamou de ‘comportamentos invasivos, desrespeitosos e grotescos’, ‘profanação injuriosa’ e ‘agressividades e ofensas’.

“É verdade que a questão racial no Brasil ainda requer muita reflexão e análises honestas, que promovam políticas públicas com vistas a contemplar a igualdade dos direitos de todos. Mas não é menos verdadeiro que a justiça e a paz nunca serão alcançados com destemperos ou impulsividades desequilibradas”, diz a manifestação.

 

O Estadão conversou na tarde desta segunda com o vereador Renato Freitas. Em sua avaliação, ‘faltou empatia’ com a manifestação e com a causa defendida pelo grupo. Leia a entrevista:

ESTADÃO: Houve algum conflito com padre?

Renato Freitas: O padre não teve empatia. Ele foi reclamar da realização da manifestação. Ele não entendeu o sentido de se fazer uma manifestação pelas vidas negras, e essa é a grande contradição, na frente de uma igreja que para nós é simbolicamente representativa, porque é a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Uma igreja feita por mãos pretas para que as pessoas pretas pudessem professar sua fé católica, já que na época a população negra não podia entrar em nenhuma das duas outras igrejas que existiam no centro de Curitiba. Há toda uma bagagem histórica. É um lugar que traz essa memória de resistência e de persistência da população negra que é inviabilizada em Curitiba.

ESTADÃO: Por que decidiram entrar na igreja?

Renato Freitas: O padre estava lá fora. Ele e mais uma pessoa, acho. Aí começaram a entrar em debate, questionando o que estávamos fazendo ali, que era barulhento. Foi essa falta de empatia do padre com a causa negra que de alguma forma gerou os microconflitos, as discussões. A gente achou que, para interromper aquelas discussões, o melhor seria entrar na igreja e fazer uma fala lá dentro em nome da valorização da vida. Para que todos ouçam e entendam as nossas reivindicações, sobretudo naquele espaço. É muito contraditório: a gente construiu um espaço que, no final das contas, é gerido por um padre branco, de olhos azuis, descendente de europeus, que o ocupa sem a consciência do que aquilo de fato representa. A porta já estava aberta, como manda o manual da igreja, não tinha nenhum rito acontecendo, o padre inclusive ficou ao nosso lado.

ESTADÃO: Vocês chegaram a conversar com os responsáveis pela igreja após o episódio?

Renato Freitas: Nós conversamos hoje, em reunião com o pessoal que administra a igreja, os diáconos e o grupo que auxilia o padre, e combinamos de realizar uma atividade junto à população em situação de rua no próximo sábado, para estreitar os laços, evitar conflitos e ampliar o diálogo.

COM A PALAVRA, A ARQUIDIOCESE DE CURITIBA

No dia 05 de fevereiro, em torno das 17.00hs, um grupo apresentou-se junto à porta da Igreja do Rosário, para protestar contra a violência havida no estado do Rio de Janeiro, cujo desdobramento final foi a morte de um cidadão congolês e, em outro caso, a morte de um brasileiro afrodescendente. Era no mesmo horário da celebração da Missa. Solicitados a não tumultuar o momento litúrgico, lideranças do grupo instaram a comportamentos invasivos, desrespeitosos e grotescos.

É verdade que a questão racial no Brasil ainda requer muita reflexão e análises honestas, que promovam políticas públicas com vistas a contemplar a igualdade dos direitos de todos. Mas não é menos verdadeiro que a justiça e a paz nunca serão alcançados com destemperos ou impulsividades desequilibradas.

Desde a sua primeira inauguração, em 1737, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos sempre foi um lugar de veneração e de celebração da fé. Foram os escravos a edificá-la. Hoje, muitos afrodescendentes, a visitam. E o fazem em grupos ou individualmente. Sempre primaram pelo profundo respeito, até mesmo quando não católicos.

Infelizmente, o que houve no último sábado foram agressividades e ofensas. É fácil ver quem as estimulou.

A posição da Arquidiocese de Curitiba é de repúdio ante a profanação injuriosa. Também a Lei e a livre cidadania foram agredidas. Por outro lado, não se quer “politizar”, “partidarizar” ou exacerbar as reações. Os confrontos não são pacificadores. O que se quer agora é salvaguardar a dignidade da maravilhosa, e também dolorosa, história daquele Templo.

Dom José Antonio Peruzzo

Arcebispo

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