Pela primeira vez, operador admite propina de Cabral

Pela primeira vez, operador admite propina de Cabral

Carlos Miranda afirma ao juiz Marcelo Bretas que recolhia dinheiro a mando do ex-governador

Fábio Grellet / RIO

08 Novembro 2017 | 22h52

Cabral em julho de 2017, após prestar depoimento no Rio. FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Considerado pelo Ministério Público um dos operadores do esquema de corrupção liderado pelo ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) e já condenado em três processos da Operação Lava Jato, Carlos Miranda admitiu pela primeira vez à Justiça nesta quarta-feira, 8, que recolhia dinheiro de propina a mando de Cabral – de quem foi amigo de infância e chegou a ser sócio.

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Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, Miranda afirmou que passou a controlar, por meio de planilhas, contratos firmados pelo governo do Estado a partir de 2007, quando Cabral iniciou sua gestão como governador, até pelo menos 2011, e recolhia das empresas envolvidas em acertos 5% do valor pago pelo governo. Desse valor, segundo Miranda, 70% eram destinado a Cabral e 30% ficavam com o então secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes.


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O processo em que Miranda prestou depoimento nesta quarta-feira refere-se ao esquema que teria sido montado nessa secretaria, sob a liderança de Cabral e Cortes, daí Miranda se referir a empresas do setor de saúde.

Miranda afirmou ao juiz que nunca participou da negociação das propinas, mas que recebia informações sobre os contratos firmados e tinha a função de recolher o dinheiro com as empresas envolvidas no esquema.

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Ele ainda relatou que no fim de 2010 tornou-se alvo de uma investigação – na Operação Castelo de Areia – e recebeu orientação de Cabral para se “expor menos”. Passou então a dividir a função com outro operador, Luiz Carlos Bezerra, que, segundo Miranda, concentrou o recolhimento de propina de 2011 a 2014.

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Miranda disse que se arrepende de ter participado do esquema de corrupção. “A gente não pode voltar no tempo, mas hoje vejo o mal que isso causou, principalmente para mim”, afirmou.

O depoimento do operador ocorreu minutos após Cabral afirmar, também em depoimento a Bretas, que nunca havia cobrado propina – ele admitiu apenas usar para despesas pessoais sobras do dinheiro recolhido por meio de caixa 2 nas campanhas eleitorais.

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Na audiência de Miranda, os advogados de Cabral quiseram perguntar a ele por que não havia admitido esses fatos nos depoimentos anteriores e se havia sido informado pelos advogados sobre “o que vai ganhar” com a confissão. O juiz Marcelo Bretas, no entanto, indeferiu as perguntas, por considerá-las inadequadas.