‘O Janot sabe tudo. A turma já falou para o Janot’, disse Joesley

Dono da JBS disse a executivo que procurador-geral da República sabia de tratativas sobre delação, antes do início formal das negociações, e diz 'somos a jóia da coroa deles'

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

05 Setembro 2017 | 18h35

Rodrigo Janot. Foto: André Dusek/Estadão

“O Janot sabe tudo. A turma já falou para o Janot.” Em um dos trechos da conversa entre Joesley Batista e seu lobista Ricardo Saud, o dono da J&F sugere que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sabia sobre a delação premiada do grupo. A suposta data da gravação é 17 de março, quando oficialmente as tratativas da PGR com a J&F não tinham iniciado – o que teria ocorrido no dia 27 de março.

Nesta segunda-feira, 4, Janot abriu procedimento para revisão do acordo de delação premiada dos sete delatores da J&F, após a descoberta da gravação DE 4 horas que sugere que o ex-procurador da República Marcelo Miller, que integrava a equipe de confiança do PGR teria atuado de forma irregular em favor da empresa, para o acordo.

“Ricardo, nós somos a jóia da coroa deles”, diz Joesley em outro trecho. “O Marcelo já descobriu e já falou com o Janot: ‘Ô Janot, nós temos o pessoa que vai dar todas as provas que nós precisamos e ele já entendeu isso”, afirma Joesley.

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“O Janot tá sabendo. Aí o Janot, espertão, que que o Janot falou? Bota pra fuder. Bota pra fuder. Põe pressão neles, para eles entregarem tudo, mas não mexe com eles. Não vamo fudê, dá pânico neles, mas não mexe com eles.”

Nesse trecho do diálogo, Saud insisti em saber se Janot sabia por meio de “Marcelo”. Joesley diz: “Vamo lá. Vamo dar um passo atrás. Na minha cabeça, o Marcelo é do MPF, ponto. O Marcelo tem linha direta com o Janot. Quando eu falo Janot, é Janot, Pellela… tudo a mesma coisa.”

Na sequência do diálogo, o dono do Grupo J&F – que agora pode perder os benefícios da delação – diz que não falou com Janot. “É um amigo em comum.” Segundo eles, o procurador-geral da República iria trabalhar com Miller no escritório de advocacia para onde ele foi: o Trench, Rossi e Watanabe. O escritório fez o acordo de leniência da empresa.

Marcelo Paranhos de Oliveira Miller. Foto: Alex Lanza / MPMG

Miller está sob suspeita da instituição que serviu até deixar a carreira para se dedicar à advocacia e à JBS. Nesta segunda-feira, 5, o procurador-geral da República anunciou a abertura de investigação sobre a conduta do ex-colega.

Janot disse que ‘não tem coragem, mas medo de errar’.

“Eu não tenho coragem alguma, na verdade o que eu tenho é medo e o medo nos faz alerta”, declarou Janot, nesta terça-feira, 5.

Janot disse nesta terça que viveu seus ‘dias mais tensos e dos maiores desafios desse período’.

“Alguém disse para mim ‘você realmente é um homem de muita coragem’. Aí eu parei e pensei, será que eu sou um cara de coragem mesmo? Tive a conclusão que eu não tenho coragem alguma. Na verdade, o que eu tenho é medo e o medo nos faz alerta.”

“E medo de quê? Medo de errar muito e medo de decepcionar minha instituição. Todas as questões eu enfrentei muito mais por medo de errar, medo de me omitir, medo de decepcionar a minha instituição, do que por coragem de enfrentar esses enormes desafios.”

COM A PALAVRA, MARCELO MILLER

O ex-procurador da República Marcello Miller informou nesta terça-feira, 5, em nota enviada por sua assessoria, que ‘não cometeu qualquer crime ou ato de improbidade administrativa’. Miller disse que ‘está à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos’.