PF cobrou Odebrecht por falta de arquivos do ‘sistema da propina’ da empresa

PF cobrou Odebrecht por falta de arquivos do ‘sistema da propina’ da empresa

Após solicitação, empreiteira entregou um pendrive contendo 87.866 arquivos ativos; perícia no material foi determinada por Moro a pedido da defesa de Lula

Breno Pires, de Brasília

27 Fevereiro 2018 | 05h00

Sede da Odebrecht em São Paulo. Foto: JF Diorio/Estadão

A perícia realizada pela Polícia Federal nos sistemas de comunicação e contabilidade da Odebrecht no curso de ação penal contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permitiu a descoberta de que a empresa não havia entregado todas as evidências que existiam em seus servidores. A informação consta do laudo de mais de 300 páginas elaborado pelos peritos criminais federais divulgado pela PF na semana passada.

Os peritos questionaram a Odebrecht no dia 7 de fevereiro sobre a ausência de uma mídia que havia sido listada pela Forensic Risk Alliance (FRA), empresa baseada em Londres que realizou a cópia de dados dos servidores físicos da Odebrecht instalados na Europa. Um dia após a PF solicitar à Odebrecht esse material, a empresa encaminhou um pendrive contendo os arquivos relacionados pela FRA.

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O pendrive que faltava continha um total de 87.866 arquivos ativos. São 6151 documentos, 86 planilhas, 107 e-mails, 63 bases de dados, 3.443 arquivos multimídia (áudios, imagens e vídeos), 13.689 programas e outros 64.327 arquivos. Além disso, há 77.386 arquivos apagados que, no entanto, podem ser recuperados. O total de dados é de 13 gigabytes.

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A perícia foi determinada pelo juiz Sérgio Moro a pedido da defesa de Lula, na ação penal que investiga se o ex-presidente recebeu propina da Odebrecht na forma de um terreno para o Instituto Lula e de um apartamento em São Bernardo do Campo em troca de contratos da Petrobrás.

Os peritos fizeram uma análise sobre esse material adicional encaminhado pela Odebrecht, mas não identificaram conteúdos significativos para o caso concreto que motivou a perícia. Isso não significa que não haja conteúdos relevantes para outras investigações. Uma nova análise do material poderá ser feita se houver alguma solicitação das autoridades de investigação (Ministério Público Federal ou PF), que teria de passar pela Justiça.

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À Polícia Federal, a Odebrecht entregou, junto com o pendrive, “um documento explicando que tal evidência foi recuperada pela FRA após o fornecimento da senha de acesso por um funcionário da Odebrecht”, segundo o laudo pericial.

A Odebrecht relatou à PF que não havia recebido da FRA a mídia em questão. E disse que havia solicitado em dezembro um esclarecimento da FRA, que não respondeu na época.

Questionada pela reportagem sobre a não entrega do pendrive, a Odebrecht manifestou-se por nota, sem mencionar o episódio.

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“A Odebrecht vem cumprindo rigorosamente as obrigações estabelecidas nas cláusulas do acordo firmado com o Ministério Público Federal, que preveem a colaboração continuada da empresa com a Justiça, inclusive com a apresentação de ‘documentos, informações e outros materiais relevantes e suplementares descobertos após a celebração deste acordo’. No caso em questão, a perícia da Polícia Federal determinou que 99,96% dos arquivos examinados estão íntegros e são autênticos. A empresa está oferecendo todo apoio ao trabalho de perícia, de modo a esclarecer eventuais dúvidas”, afirma o comunicado da empreiteira.

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O laudo pericial possibilitou o mapeamento mais amplo até agora da base de dados dos sistemas de armazenamento de informações da Odebrecht. Com 13 gigabytes, o pendrive é uma fração do total de 54 terabytes do conjunto de mídias entregues pela Odebrecht ao Ministério Público Federal e disponibilizadas à Polícia Federal por decisão do juiz Sérgio Moro.

O presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), Marcos Camargo, disse ter conhecimento de que existem outras solicitações de laudos periciais nos sistemas da Odebrecht para a apuração de crimes investigados em outros processos.

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Ao se referir ao conjunto de dados que podem ser examinados, o presidente da APCF afirmou que se está diante de uma “caixa de Pandora”. A expressão remete a um artefato descrito na mitologia grega como o recipiente de todos os males do mundo.

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Para Camargo, a identificação destes arquivos é um exemplo da necessidade de realização de perícia em um mais investigações. Ele lembrou que o Ministério Público Federal não havia pedido a perícia nos sistemas da Odebrecht.