Gabriela Biló / Estadão
Gabriela Biló / Estadão

Socorro a Estados provoca rompimento de Maia e Guedes

Votação de projeto emergencial acaba com relação entre presidente da Câmara e ministro da Economia

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2020 | 05h00

BRASÍLIA – A votação do projeto de socorro emergencial do governo a Estados e municípios rompeu a relação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com o ministro da Economia, Paulo Guedes. Os dois não têm mais contato, como revelou o próprio presidente Jair Bolsonaro em entrevista após a demissão de Luiz Henrique Mandetta do cargo de ministro da Saúde.

Guedes está convencido que Maia trabalha para “explodir” as finanças de Bolsonaro e inviabilizar uma recuperação econômica do País numa articulação com os dois principais adversários do presidente: os governadores João Doria (São Paulo) e Wilson Witzel (Rio de Janeiro).

A auxiliares e amigos, Guedes tem repetido nas últimas semanas que o governo não vai financiar o que chama de “farra eleitoral” com disfarce de combate à covid-19.  O ministro compartilha da visão do presidente, que, em entrevista à CNN, acusou Maia de querer dar um golpe político no governo ao colocar os governadores contra Bolsonaro e posar de “primeiro-ministro”.Como pano de fundo da guerra estão as disputas eleitorais deste ano e, mais à frente, a corrida pela Presidência em 2022.

O presidente da Câmara considera que os R$ 40 bilhões oferecidos aos governadores e prefeitos é muito pouco diante do tamanho do problema e que o Palácio do Planalto age para prejudicar a ação dos seus dois principais adversários, justamente nos Estados com mais vítimas. A oferta do governo, segundo Maia, contemplaria apenas R$ 22 bilhões que poderaim ser usados livremente pelos governos regionais.

Para Maia, o governo estimula desavenças da Câmara com o Senado. Ele reclama que Guedes não fez a mesma gritaria com projeto dos senadores para criar um novo programa para trabalhadores com carteira assinada, que ampliaria os gastos em R$ 114 bilhões. Em nova votação na Câmara, os deputados, em negociação com a própria equipe do  ministro, retiraram esse trecho do projeto e focaram na ampliação do auxílio emergencial

Numa das últimas mensagens trocadas com Maia, o ministro mandou uma mensagem pelo celular acompanhada de artigo dos economistas Marcos Lisboa e Marcos Mendes alertando para o problema que a proposta de ajuda aos Estados poderia gerar. A resposta do outro lado: “Está tudo tranquilo. Eu vou aprovar”. Guedes disse que não havia acordo. “Daqui não passo”, declarou o ministro da Economia, que vem chamando o projeto da Câmara de “arrombamento geral da República”. 

O projeto foi aprovado na Câmara apesar de o governo articular o apoio aos líderes dos partidos do chamado Centrão e apresentar números que mostravam um impacto de R$ 220 bilhões da ajuda. Maia desidratou o projeto depois que o Ministério da Economia mostrou que o seu Estado, o Rio, seria contemplado com R$ 45 bilhões – R$ 15,1 bilhões em perdão de dívida. No Senado ainda não houve acordo para votação nesta semana. Em carta, 25 governadores pediram aos senadores mantenham integralmente o projeto.

Desgaste começou por controle de R$ 30 bilhões

Embora a gota d´água da discórdia tenha sido a decisão de Maia de colocar em votação o projeto com um custo considerado alto demais para a equipe econômica, o desgaste já vinha de antes: da disputa pelo controle de R$ 30 bilhões do Orçamento, previstos nas chamadas emendas de relator, que levou a embate duro com o Congresso antes da pandemia.

Enquanto o governo aposta no esvaziamento do poder de Maia junto aos líderes do Centrão com a aproximação do fim do seu mandato, o presidente da Câmara está certo que Bolsonaro será rendido pelos fatos e terá que socorrer os Estados com muito mais dinheiro diante do avanço do coronavírus no Brasil.

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