Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro vê ‘luta pelo poder’, rebate Maia e diz que isolar o presidente seria golpe

Presidente também reclamou de Alcolumbre e Doria, disse que está há 15 meses 'levando pancada' e que agora vai começar a revidar

Vera Rosa, Daniel Weterman, Julia Lindner, Emilly Behnke e Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2020 | 11h32
Atualizado 16 de março de 2020 | 22h26

BRASÍLIA – Em novo capítulo da crise institucional, o presidente Jair Bolsonaro acusou nesta segunda-feira, 16, o Congresso de usar o avanço do coronavírus para uma “luta pelo poder”, chamou comandantes de Poderes de “esses caras” e insinuou haver uma articulação por seu impeachment ao dizer que “seria um golpe isolar chefe do Executivo por interesses não republicanos”.

O confronto público – um dia após Bolsonaro ignorar recomendação do próprio governo e participar de ato contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal – fez com que dirigentes do Legislativo e do Judiciário interpretassem suas atitudes como sinais de uma escalada autoritária.

A estratégia, no entanto, não é partir para o ataque, mas, sim, mostrar serviço para enfrentar a pandemia do coronavírus e apresentar projetos que possam tirar o País da recessão econômica. As reuniões que ocorreram ao longo do dia desta segunda-feira foram, oficialmente, para tratar apenas do combate à doença, mas, nos bastidores, ultrapassaram essa fronteira.

Na avaliação da cúpula do Congresso e do Supremo, Bolsonaro estica a corda porque tenta transferir responsabilidades pelo prolongamento da crise, adota o discurso de que não o deixam governar e se isola cada vez mais no Palácio do Planalto.

Enquanto o presidente contraria a orientação para evitar aglomerações e parece distante de decisões relevantes do seu próprio governo, os ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, recorrem a estratégias para amenizar o impacto dos problemas provocados não apenas pelo coronovírus, mas por uma série de declarações polêmicas de Bolsonaro. Até agora, o presidente do Supremo, Dias Toffoli, atuou como uma espécie de “bombeiro” e tentou reconstruir pontes com o Planalto. Em conversas reservadas, porém, ele tem dito que essa atitude belicosa começa a passar dos limites.

Toffoli chamou nesta segunda-feira, por exemplo, uma reunião com Maia, Alcolumbre, Mandetta, o ministro do STF Luiz Fux – que será seu sucessor no comando da Corte a partir de setembro –, os presidentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Rosa Weber, e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, além do procurador-geral da República, Augusto Auras, e do advogado-geral da União, André Mendonça.

Na prática, os chefes dos Poderes querem mostrar que não ficarão de braços cruzados diante do que classificam como atitudes até mesmo “irresponsáveis” por parte de Bolsonaro, como a de estimular manifestações em defesa de seu governo e contra o Congresso e o Judiciário, cumprimentar simpatizantes e tirar selfies com muitos deles em um momento de avanço do coronavírus. Bolsonaro está sendo monitorado pela equipe médica e, para evitar risco de contágio, passará por novo exame hoje – o primeiro teste detectou que ele não foi contaminado durante recente viagem aos Estados Unidos.

“Eu não vou viver preso no Palácio da Alvorada, por mais cinco dias, com problemas grandes para serem resolvidos no Brasil”, disse o presidente, em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da Rádio Bandeirantes. “Se afundar a economia, acaba o meu governo, acaba qualquer governo. É uma luta pelo poder. Estou há 15 meses calado, apanhando, agora vou falar. Está em jogo uma disputa política por parte desses caras (Maia e Alcolumbre)”, completou.

Bolsonaro afirmou que Maia dirigiu a ele um “ataque frontal” ao chamá-lo de irresponsável. “Nunca o tratei dessa maneira. É um jogo. Desgastar, desgastar, desgastar. Tem gente que está em campanha até hoje para 2022 dando pancada em mim o tempo todo”, insistiu o presidente, que sonha com a reeleição.”

Maia, por sua vez, afirmou que Bolsonaro precisa “assumir” a Presidência porque é o “piloto” do avião. “O que nós precisamos, em prol da sociedade brasileira, é esquecer nossas diferenças políticas, as nossas divergências, e olhar o problema do povo”, declarou o deputado.

O presidente causou perplexidade ao decidir não participar, nesta segunda-feira, de uma videoconferência em que chefes de Estado da América do Sul discutiram medidas conjuntas para o enfrentamento da pandemia do coronavírus. Coube ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, representar o Brasil. Araújo também cumpre período de isolamento por ter participado da comitiva de Bolsonaro aos EUA. Para o presidente, no entanto, há uma “histeria” em torno do coronavírus. 

Bolsonaro fará novo exame para coronavírus

Na entrevista ao apresentador José Luiz Datena, Bolsonaro afirmou que fará um novo exame para coronavírus nesta terça-feira, 17. Conforme antecipou o Estado, o chefe do Planalto terá de fazer um novo teste e a orientação era ficar em isolamento até lá. Na entrevista, o presidente declarou estar se sentindo “muitíssimo bem.”

Para Bolsonaro, Ramos foi colocado contra a ‘parede’ pelo Congresso

Bolsonaro disse que o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) foi colocado contra a “parede”pelo Congresso nas negociações sobre o Orçamento. Ramos participou de conversas para envio de projetos de lei que garantem ao Congresso o controle sobre uma fatia de R$ 15 bilhões neste ano, período de eleições municipais. Bolsonaro se manifestou contra a tentativa de entregar aos parlamentares a definição sobre a destinação desse dinheiro.

Os projetos estão pautados em sessão do Congresso nesta terça-feira, 17. Bolsonaro negou que haja um acordo para aprovação das propostas. De acordo com ele, o defeito do ministro Ramos, que conversou com lideranças da Câmara e do Senado sobre o tema, é ser “bastante inexperiente ainda”. 

“O pessoal te bota na parede, botou o Ramos na parede para conversar (sobre) projetos para andar lá, compromissos futuros. Talvez o Ramos tenha se perdido um pouco pela sua imaturidade, inocência e honestidade”, disse Bolsonaro na entrevista. 

Medida provisória editada no sábado, 14, transfere R$ 5 bilhões que seriam controlados pelo Congresso para o guarda-chuva do Executivo em ações de combate ao novo coronavírus. Bolsonaro manifestou interesse em recuperar os R$ 10 bilhões restantes indicados como emendas do relator do Orçamento.

“Se afundar a economia, acaba o meu governo, acaba qualquer governo. É uma luta de poder. Há por parte de alguns, não estou dizendo todos, irresponsabilidade nisso aí.”

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