Planalto faz dossiê contra Miranda, que já postou mensagem de ‘tiro, porrada e bomba’ na Câmara

Mensagem com hit de Valesca Popozuda foi publicada em 2020, na época da disputa pela Comissão Mista de Orçamento; deputado disse que se tratava de ‘brincadeira’

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 15h05

Caro leitor,

O Palácio do Planalto está fazendo um dossiê sobre o deputado Luis Miranda (DEM-DF) e seu irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Fernandes, os dois homens que agora ameaçam “explodir” a República ao denunciar um esquema de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin. Antes aliado do governo, o deputado que andava de moto com o presidente fez acusações que levaram o inquilino do Planalto para o centro da investigação da CPI da Covid num momento em que crescem os gritos de “Fora Bolsonaro”.

Além de escarafunchar processos contra o deputado, que já foi acusado de estelionato, a Casa Civil e a Secretaria Geral da Presidência também levantam o seu “histórico” parlamentar, com a ajuda do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL). Em 6 de outubro do ano passado, por exemplo, Miranda publicou no Instagram uma mensagem que causou confusão e serviu como argumento para adiar, mais uma vez, a instalação da Comissão Mista de Orçamento (CMO).

“Hoje o pau quebra, mas os corruptos não levam! Quando não tem acordo na democracia, o assunto se resolve no voto, não com emendas, cargos e corrupção! Será tiro, porrada e bomba! Estou chegando...”, dizia a postagem postada no stories da rede social.

Naquele dia, Miranda registrou presença na Câmara às 8h29. À época, ele apoiava a candidatura do deputado Elmar Nascimento (DEM-BA) para a presidência da CMO contra o Centrão de Lira, que respaldava Flávia Arruda (PL), hoje ministra da Secretaria de Governo. A queda de braço tinha como pano de fundo a disputa entre Lira e o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia – à  época no DEM – pelo comando da Casa.

Desafeto de Lira, Miranda disse depois que havia feito apenas uma “brincadeira”, pois “tiro, porrada e bomba” é uma expressão popular contida na música “Beijinho no Ombro”, de Valesca Popuzuda. Na prática, nenhuma bomba estourou nem houve soco, sopapo e bofetão, mas o fato é que a sessão de instalação da CMO teve de ser remarcada.

De lá para cá, as peças do jogo se inverteram. Adversários viraram aliados, como é o caso de Lira e Elmar, e Maia foi expulso do DEM. Com pretensão de ser o relator da reforma tributária, Miranda também se aproximou de Lira, mas agora se tornou o inimigo número 1 de Bolsonaro.

O presidente diz que a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) vão investigar Miranda e o servidor Luis Ricardo, chefe de importação do Departamento de Logística do Ministério da Saúde e autor de denúncias de irregularidades na compra da Covaxin. Mas não é só: o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, hoje na Secretaria de Assuntos Estratégicos, foi acionado para auxiliar na busca de “podres” do deputado do DEM e do servidor, que é concursado. Após conversar com Pazuello, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, afirmou haver indícios de que a dupla adulterou documentos.

No figurino de candidato à reeleição, Bolsonaro tentou mostrar que não está acuado e de novo não usou máscara. “Para a tristeza de alguns poucos, o governo está completando dois anos e meio sem uma acusação sequer de corrupção”, discursou o presidente nesta quinta-feira, 24, ao participar de cerimônia em Jucurutu, no interior do Rio Grande do Norte, como se não houvesse qualquer crise. “Não adianta inventar vacina, porque não recebemos uma dose sequer dessa aí que entrou na ordem do dia da imprensa ontem”, emendou ele, numa referência à Covaxin.

Um outdoor com a inscrição “Cemitérios cheios. Geladeiras vazias” e o aviso “Pau dos Ferros é Fora Bolsonaro” chegou a ser instalado no trajeto da comitiva do presidente, mas foi retirado por ordem do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

“O Brasil vai conhecer a verdade. Não teve nenhuma compra da vacina porque meu irmão e eu não deixamos acontecer. Nós não somos os bandidos dessa história”, disse o deputado Miranda, que acompanhará o irmão nesta sexta-feira, 25, em depoimento à CPI da Covid.

Em áudio postado nas redes sociais, Miranda afirmou não ter medo de ameaças nem de chantagens. “Todos os documentos serão entregues à CPI, comprovando que o contrato (de compra da Covaxin) estava em nome de uma empresa e a ‘invoice’ de pagamento (termo usado para se referir à fatura), em nome de outra”, destacou o parlamentar, ao negar todas as acusações  dizer ser vítima de “armação”. “Vocês estão se metendo com as pessoas erradas”.

Desde o início do ano, as negociações envolvendo a compra da vacina indiana contra covid-19, produzida pelo laboratório Bharat Biotech, são cercadas de suspeitas. Além do preço alto, como mostrou o Estadão, a Covaxin foi alvo de polêmica até mesmo em seu país de origem.

Os resultados finais dos testes da fase 3 da Covaxin – a última etapa do estudo de eficácia – foram enviados ao órgão controlador daquele país (a Anvisa de lá) somente nesta segunda-feira, 21, quando a vacina já era aplicada em larga escala.

Além disso, a imprensa internacional publicou reportagens relatando que muitos indianos da cidade de Bhopal participaram do teste sem ter conhecimento disso, pois achavam estar tomando a vacina. O laboratório nega. Foi em Bhopal que, em dezembro de 1984, toneladas de um gás venenoso da Union Carbide mataram cerca de 2 mil pessoas e deixaram milhares com lesões permanentes.

E, por falar em meio ambiente, impossível deixar de registrar que o ministro Ricardo Salles – desgastado por suspeitas de envolvimento num esquema ilegal de retirada e venda de madeira – pediu demissão no mesmo dia em que a crise política se agravou no Brasil. Seria apenas coincidência ou uma tentativa do Planalto de desviar os holofotes das denúncias contra Bolsonaro? Enquanto isso, a boiada vai passando...

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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