Joédson Alves/ EFE
Joédson Alves/ EFE

Investigado pela PF, Salles pede demissão do Ministério do Meio Ambiente

Ministro deixa o cargo após ser alvo de operação que apura esquema ilegal de exportação de madeira; sucessor na pasta é ligado a ruralistas

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 17h21
Atualizado 24 de junho de 2021 | 10h43

BRASÍLIA – Depois de dois anos e meio no cargo, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou nesta quarta-feira, 23, o comando da pasta. Ele não resistiu ao desgaste provocado pelas suspeitas de envolvimento num esquema ilegal de retirada e venda de madeira. A saída do ministro foi anunciada ontem no Diário Oficial da União. Salles será substituído pelo atual secretário da Amazônia e Serviços Ambientais, Joaquim Álvaro Pereira Leite.

Havia também dentro do governo a expectativa que novas investigações contra Salles pudessem ser autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal, ampliando a crise envolvendo um representante do primeiro escalão do presidente Jair Bolsonaro. O ministro do STF Alexandre de Moraes autorizou o envio do celular de Salles aos Estados Unidos para ser desbloqueado pela agência US Fish and Wildlife Sevice.

A situação de Salles se tornou insustentável por causa dos inquéritos. Apesar da ligação política muito forte com Bolsonaro, ele reconheceu que o desgaste de sua permanência no cargo era irreversível em anúncio no Palácio do Planalto, e justificou sua saída como uma forma de tentar “serenar” a área ambiental. “Eu entendo que o Brasil, ao longo desse ano e no ano que vem, na inserção internacional, e também na agenda nacional, precisa ter uma união muito forte de interesses, de anseios e de esforços. E para que isso se faça da maneira mais serena possível, eu apresentei ao senhor presidente o meu pedido de exoneração que foi atendido.”

Ele disse também que sob sua gestão à área ambiental “avançou” e repetiu o tradicional tom crítico à oposição, afirmando que “Bolsonaro, de forma democrática, colocou uma mudança em relação aquela orientação que a esquerda vinha fazendo no Brasil nos últimos 20 anos”. 

Salles fez alusão à repercussão de sua fala em defesa de “passar a boiada”, quando defendeu, em reunião ministerial que acabou vindo a público, a aprovação discreta no Congresso de medidas que flexibilizassem pontos que considerava ruins na legislação ambiental. O agravamento da crise fez com que Bolsonaro concordasse com a demissão. Na terça-feira, o presidente chegou a fazer elogio público ao agora ex-ministro. 

A saída de Salles representa a queda de um dos raros remanescentes dos chamados ministros ideológicos. Já tinham sido trocados por Bolsonaro nomes como Abraham Weintraub (Educação) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), entre outros. A proximidade de Salles com o presidente vinha garantindo sua permanência. Mas, diante do avanço das investigações, essa blindagem política ruiu.

Salles é alvo de inquérito, autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), suspeito de atrapalhar investigações sobre apreensão de madeira. Ele nega ter cometido irregularidades. Nos últimos dias, porém, o ministro já havia reduzido radicalmente sua participação em agendas públicas do ministério. Uma rara exceção de exposição foi a participação ao lado de Bolsonaro do ato de apoio ao presidente, em São Paulo, reunindo motociclistas.

A crise se tornou incontornável depois que, no mês passado, ele foi alvo da Operação Akuanduba, da Policia Federal. A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A investigação apura suspeita de envolvimento de Salles num esquema de corrupção envolvendo exportação ilegal de madeira. Para justificar a autorização da operação, Moraes citou que um relatório de inteligência financeira indicava “movimentação extremamente atípica” de R$ 14,1 milhões relacionado ao escritório do qual Salles é sócio em São Paulo. Essas operações teriam durado de 2012 até metade de 2020. 

Além da investigação em endereços ligados à Salles, também foram pedidas a quebra de seus sigilos fiscal e bancário. Na ocasião, o agora ex-ministro não entregou seu celular para a Polícia Federal, alegando que não estava com ele. Isso aconteceu apenas vários devias depois da operação.

Salles também se desgastou com a substituição do superintendente regional do Amazonas, delegado Alexandre Saraiva. Ele tinha enviado ao Supremo uma notícia-crime contra Salles por suposta obstrução de investigação de uma apreensão de madeira ilegal na divisa do Amazonas com o Pará. 

Saraiva foi irônico ao comentar nas suas redes sociais a demissão de Salles. “E eu continuo delegado da Polícia Federal”, escreveu. Em seguida, postou: “Eu avisei que não ia passar boiada”.

Novo ministro foi conselheiro da SRB

O novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Álvaro Pereira Leite, foi indicado para o cargo pelo próprio Ricardo Salles. Seu perfil gerou críticas dos ambientalistas. Ex-secretário da Amazônia e de Serviços Ambientais no Ministério, Leite é ligado aos ruralistas. Por 23 anos, foi conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB), entidade que apoiou Salles para o cargo, mas que ficou rachada diante da atuação do ministro. 

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Sérgio Souza (MDB-PR) elogiou a indicação de Leite. 

“Considero positivo para o meio ambiente e para a produção de alimentos. Ele é responsável pelo programa Floresta+ e demonstra um perfil de preocupação com a preservação.”

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