Capítulo 33

Para generais, Weintraub é o ministro da ‘falta de educação’

Ataque a Deodoro da Fonseca no dia da República é mal visto por militares

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 10h15

Caro leitor,

No dia da República, o ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub, resolveu achincalhar o marechal Deodoro da Fonseca, chamando-o de traidor, e escolheu a data cívica para comparar o oficial ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, condenado pela Lava Jato.

Dado o ódio que dedica ao ex-presidente, podemos imaginar o tamanho da ofensa que o ministro queria dirigir ao marechal que proclamou a República há 130 anos.

Weintraub se candidata assim ao cargo de Olavo de Carvalho da Esplanada, pelo agravo aos militares e às tradições do Exército brasileiro. A ofensa não recai só sobre o velho marechal. Os cadetes que entram nas Agulhas Negras logo se familiarizam com a imagem de Deodoro no dia 15 de Novembro de 1889.

“Nunca vi nada igual”, disse sobre o ataque um general que passou pelo Comando Militar do Planalto e pelo Comando Militar do Sudeste. “Faltam educação e civismo ao ministro da Educação”, afirmou. “E respeito às Forças Armadas”, completou um coronel.

Dias antes, o general Edson Pujol, comandante do Exército, dera uma lição em texto publicado pelo 'Estado' sobre o papel do Exército na Proclamação da República. Disse Pujol sobre o republicanismo e os militares:

“Tal posicionamento refletia a adesão à causa republicana de parcela da oficialidade, em grande parte jovens influenciados pelas ideias positivistas de Augusto Comte, professadas pelo tenente-coronel Benjamin Constant e difundidas em sua cátedra na Escola Militar da Praia Vermelha. Com a criação do Clube Militar, em 1887, sob a liderança do marechal Deodoro e do próprio Benjamin Constant, fortaleceu-se a participação do Exército na mudança do regime.”

O dançarino Weintraub tem o direito de ser monarquista. Dentro e fora do governo. Mas, dentro dele, deve saber que é um ministro e não devia ofender a memória de Deodoro. Weintraub desrespeita não só o marechal. Também ataca os valores republicanos ao chamar a Proclamação de “infâmia”.

A República é o governo das leis, contra os privilégios, em busca do bem comum. O ministro se compraz com suas convicções. Esquece da escravidão, do Conselho de Estado, do Senado vitalício, do governo irresponsável... O problema é que os fatos criam aporias insuperáveis às visões desconectadas do real. Sobra-lhe um discurso vazio, sem a ossatura da realidade.

O agravo ao marechal esquece ainda que ele foi um herói da Guerra do Paraguai, de combates como Tuiuti, Humaitá, Curupaiti e outros. Ele transforma a honra do militar em artigo para memes lacradores nas redes sociais. Nada mais vulgar.

O ministro age dentro da lógica da milícia virtual que o bolsonarismo mantém na internet, que se diverte ao enxovalhar a honra e ameaçar a família dos que se lhe opõem. Que o digam a deputada federal Joice Hasselmann e o ex-ministro Gustavo Bebianno.

O bolsonarismo cria as próprias crises que põem em risco o governo, como salientou, recentemente, o general Paulo Chagas. Como resposta ao ministro, Deodoro poderia repetir o que disse em entrevista dois meses antes de dar cabo ao regime monárquico: “Se tivesse de ir ao céu, São Pedro servir-me-ia de vaqueano; se tivesse de ir ao inferno, pediria a qualquer político que me guiasse.”

O leitor viu aqui que o general Pujol explicou o sentido da participação do Exército na República. “Transcorridos 130 anos de experiência republicana, os integrantes do Exército de hoje encontram-se empenhados em um processo de transformação com vistas à obtenção de novas capacidades para o cumprimento de renovadas missões. Mas mantêm o compromisso legado pelas gerações passadas, calcando no culto à liberdade e à democracia e no amor à Pátria, o que confere ao Exército os mais altos índices de credibilidade junto à Nação brasileira.”

Weintraub, o ministro da falta de educação - nas palavras de outro general -, não se desculpará pela ofensa a Deodoro. Ele conta com o silêncio do capitão Jair Bolsonaro diante do agravo lançado ao marechal. São circunstâncias como essa que demonstram o quanto os valores militares e da República são importantes para o presidente e para seu governo.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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