Capítulo 30

Rede bolsonarista contamina grupos de WhatsApp de militares

Defesa do uso das Forças Armadas para monitorar manifestações populares traz novo desafio para a instituição

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 10h00

Caro leitor,

Um dos grande embates na Constituinte foi o momento em que se definia o papel das Forças Armadas. As entrevistas com oficiais generais feitas pelos pesquisadores Celso Castro e Maria Celina D'Araújo mostram que a solução final foi dada por Afonso Arinos, que sugeriu a inclusão da expressão que vinculava a destinação constitucional das Forças Armadas como mantenedoras de lei da ordem à convocação por um dos poderes constitucionais. Seria preciso a iniciativa de um do Executivo, do Legislativo ou do Judiciário para que as Forças Armadas pudessem garantir a lei a ordem.

Em 30 anos, o uso das Forças Armadas neste tipo de missão multiplicou-se por 3 no País. Do crime organizado a conflitos no campo ou em terras indígenas, de incêndios na Amazônia a derramamento de óleo em praias: tudo virou pretexto para desvirtuar as Forças Armadas de sua função primordial, como se elas fossem o lenitivo para toda deficiência do Estado ou incompetência dos políticos.

É verdade que no governo Bolsonaro os militares ainda não foram usados em operações gigantescas contra o crime organizado, como as que no passado aconteceram no Rio. O presidente parece seguir a própria vontade dos generais de manter a tropa distante da função de polícia. O mandatário, no entanto, parece colocar ao comando das Forças um novo desafio: como manter a prudência e a racionalidade no uso de tal instrumento e evitar o risco de se confundir a defesa das instituições com a defesa do governo.

leitor viu aqui que, em sua viagem no Japão, Jair Bolsonaro disse ter acionado o Ministério da Defesa para deixar as Forças Armadas de sobreaviso em casos de protestos no Brasil semelhantes aos que sacudiram Chile e Equador. "A gente se prepara para usar o artigo 142 da Constituição federal, que é pela manutenção da lei e da ordem, caso eles (integrantes das Forças Armadas) venham a ser convocados por um dos três Poderes", disse.

Especialistas em Forças Armadas, como o cientista político Eliézer Rizzo de Oliveira, alertam que a Constituição de 1988 não previu que o presidente ou o chefe de qualquer um dos Poderes preste contas ao Congresso de ações dos militares em território nacional. Não se imaginava na época em que a Constituição foi feita que um presidente da República pudesse classificar manifestações populares - como as que ocorreram em 2013 - como terroristas, que é como Bolsonaro qualificou os protestos no Chile, conforme o leitor viu aqui no editorial Surtos Autoritários.

A contaminação de parte da oficialidade pelo bolsonarismo é evidente nos grupos de WhatsApp mantidos por militares. Cada turma de academia militar tem o seu. Há ainda os grupos das Armas de cada turma. Há generais e coronéis da ativa e da reserva que desistiram de participar das conversas mantidas nesses ambientes em razão de bobagens ali divulgadas. "Não perco meu tempo com bobagens", disse um deles. Um outro relatou ter sido expulso de um grupo por discordar do bolsonarismo.

Entre as bobagens há uma enorme quantidade de propaganda bolsonarista e até de incentivos ao fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Muitos atuam como radicais messiânicos que pensam que o País precisa ser salvo do "politicamente correto" ou do "marxismo cultural".  Incapazes de conviver com a democracia, flertam com a irresponsabilidade liberticida.  

Não diferem, portanto, os conteúdos divulgados em alguns desses grupos do material virulento patrocinado pelas milícias bolsonaristas que classificam todo aquele que critica o governo de esquerdista ou comunista. Fazem parte desse tropa digital pessoas próximas do presidente e, segundo aliados de ontem, como a deputada federal Joice Hasselmann, até mesmo seus filhos.

O que esses bolsonaristas esquecem é que o Exército não pode ser usado contra o povo, quando o povo - e não uma minoria - decide mostrar sua insatisfação com os governos. Um milhão de chilenos foi às ruas de Santiago - o país tem 16 milhões de habitantes. E o governo de Sebastián Piñera teve de ceder os anéis para conservar os dedos. No começo da crise, o líder chileno flertou com a saída militar. Afirmou que enfrentava uma guerra. Foi desmentido pelos generais. E, no fim, apresentou sua rendição

Tentar transformar as Forças Armadas em defensoras de governo, seria rebaixá-las a um papel que já no Império dividia e exasperava seus líderes. Em 1889, dois meses antes de proclamar a República, as manobras palacianas levaram o marechal Deodoro da Fonseca a deixar o cargo que ocupava em Mato Grosso por considerá-lo indigno de sua patente. Disse então: "Se tivesse de ir ao céu, São Pedro servir-me-ia de vaqueano; se tivesse de ir ao inferno, pediria a qualquer político que me guiasse". Deodoro queria reformar e reorganizar o Exército. Ele sabia que Forças Armadas modernas não se prestam ao papel de guarda pretoriana de imperadores ou de famílias reais.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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