Reprodução/Youtube FGV
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Pandemia criou novos eixos de polarização na política nacional, dizem analistas

Especialistas de política e economia debatem os impactos da covid-19 em webinar da FGV

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 16h29

O medo da morte em meio à pandemia do novo coronavírus fez emergir novos eixos de polarização para além do embate entre esquerda e direita no Brasil. Esta é a constatação de especialistas em política e economistas que participaram de webinar da Fundação Getúlio Vargas sobre os impactos da covid-19.

O cientista político Carlos Pereira, colunista do Estado, citou um estudo em que a FGV identificou que o apoio à necessidade de isolamento uniu a esquerda e o centro do espectro político. À direita, o grupo se divide de maneira equilibrada entre os que defendem que não há necessidade de isolar a população e os que discordam desta medida recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Esse cenário de união da esquerda com o centro e de divisão da direita também acontece em relação à avaliação do presidente e dos governadores sobre o combate à pandemia”, disse o cientista político no painel mediado pelo editor do Estadão Dados e do Estadão Verifica, Daniel Bramatti.  Com o apoio do Estado, os dados da pesquisa da FGV foram coletados entre os dias 28 de março e 4 de abril em pesquisa de opinião. O questionário foi divulgado nas redes sociais, em especial pelo WhatsApp. A amostra total foi de 7.848 respostas.

O medo da morte, porém, aparece como fator determinante para uma tendência da mudança na opinião a respeito do isolamento. Entre as pessoas que se identificam com a direita e centro-direita, de acordo com Pereira, o isolamento passa a ter maior apoio entre aqueles que conhecem pessoas que morreram ou estão em situação grave por causa da doença. “O medo da morte relativiza outras dimensões”, disse Pereira. 

Para o cientista político Marcus André Melo, a pandemia causou um “deslocamento de placas tectônicas de política”. Em sua avaliação, o presidente Jair Bolsonaro sai perdendo ao apostar no “saúde x economia”, contrariar orientações das autoridades sanitárias e defender o fim do isolamento para que a economia do País “não pare”.

Uma das explicações para a estratégia do presidente, de acordo com Marcus Melo, é retomar o protagonismo no debate público. “A ascensão de Bolsonaro tem a ver com guerras culturais, agenda comportamental, corrupção, reformas fiscais e de mercado. Mas tudo isso desapareceu com a pandemia, perdeu a importância. A agenda pública está monotemática. Ao introduzir essa ‘clivagem’ entre saúde e economia, Bolsonaro recupera um pouco a atenção, mas perde a aposta.”

A economista Mônica de Bolle, também colunista do Estado, criticou o discurso que opõe saúde e economia. “A pandemia tem consequências e elas se dão independentemente do que se pensa em relação ao isolamento e medidas sanitárias. Esse debate fica mais evidentemente equivocado quando se coloca em jogo o medo da morte. O que faz a economia parar é o medo da morte, não a quarentena.”

O sociólogo Sérgio Abranches aponta que o apoio da população aos governos, neste momento de pandemia, está diretamente relacionado à forma como a situação se agrava no País. “Há uma relação clara entre má governança, aumento do agravamento da pandemia com o abandono do apoio da sociedade. Bolsonaro só perdeu. E continua apostando que a economia vai superar o medo da morte. E não vai.”

Para o jornalista Pedro Doria, também colunista do Estado, a desinformação tem sido arma política para disseminar informações que contrariam a ciência. Ele atribuiu esta estratégia à direita que Bolsonaro representa. “Há uma máquina de desinformação política através da internet. Uma das características dessa direita que Bolsonaro representa é o anticientificismo”, disse.

Assista ao webinar na íntegra

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