Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Artigo: O medo da morte aproxima os polos

Polarização política no País encontra limite na preocupação das pessoas com a saúde de seus parentes

Carlos Pereira, Amanda Medeiros e Frederico Bertholini*, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 14h50

Uma das características mais marcantes nos últimos anos, tanto nas democracias jovens como nas maduras, tem sido a crescente polarização política. A sensação é a de que o mundo se dividiu em polos extremos. Por um lado, esses extremos advogam a exclusão do seu oponente, mas, paradoxalmente, se autorreforçam como condição básica de sobrevivência mútua. 

Especificamente no Brasil, uma nova polarização tomou conta do País durante as eleições de 2018. Um dos polos foi ocupado pelo petismo, ancorado na imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representando a política tradicional. No outro extremo, o bolsonarismo, que a partir do antipetismo ofertou uma plataforma anti-establishment. 

Será que um choque exógeno de grande magnitude, como a covid-19, é capaz de alterar os termos da polarização política no Brasil, aproximando segmento expressivo de eleitores que outrora estavam em polos opostos? Uma resposta positiva a essa pergunta seria evidência de que a polarização é um fenômeno dinâmico e que seus eixos estruturadores mudaram com a pandemia. 

Para investigar o fenômeno, realizamos, com o apoio do Estado, entre os dias 28 de março e 4 de abril, uma pesquisa de opinião. Os dados foram coletados aproximadamente cinco semanas após a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil. O questionário foi divulgado nas redes sociais, em especial pelo WhatsApp. 

Participaram da pesquisa respondentes de todos os Estados, com maior concentração em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com as porcentagens de 44%, 7% e 6%, respectivamente. A amostra total foi de 7.848 respostas válidas, das quais 50,2% são do sexo feminino e 49,8%, do masculino. Perfil de renda: 13% até 3 salários mínimos; 15% de 3 a 5 salários mínimos; 23% de 5 a 10 salários mínimos; 36% mais de 10 salários mínimos; e 13% preferiram não responder. Representação etária: 5% entre 18 e 24 anos; 16% entre 25-34 anos; 20% entre as faixas de 35-44 e 45-55 anos; 27% com idade entre 55 e 65 anos e; 10% acima de 65 anos.

Nosso primeiro passo analítico foi investigar o impacto político da pandemia, particularmente examinando como a preferência político-ideológica dos respondentes interfere na avaliação da atuação do presidente Jair Bolsonaro e dos governadores durante a pandemia. Como pode ser observado na Figura 1, enquanto a grande maioria dos respondentes que se autoidentificam como de esquerda, centro-esquerda e centro discorda da atuação de Bolsonaro, os respondentes de centro-direita e direita, supostamente o núcleo principal dos eleitores de Bolsonaro, racharam. Ou seja, uma parcela maior desses eleitores (56%) se manteve fiel ao presidente, mas uma parcela significativa (40%) discordou da sua atuação na pandemia e 5% ficou indiferente. 

A divisão dos eleitores de Bolsonaro ficou ainda mais evidente na avaliação da atuação dos governadores, em que a maioria (60%) concordou com as ações dos governos estaduais, uma parcela menor discordou (35%) e 5% se mostrou indiferente.

É possível argumentar, portanto, que a forma como Bolsonaro (minimização da gravidade e dos riscos de contágio da doença e destaque dos impactos negativos que a política de isolamento potencialmente traz para a economia) e os governadores (priorização das políticas de isolamento social para diminuir o número e a velocidade de contágio) reagiram à pandemia reconfigurou a polarização política anterior ao proporcionar uma migração de parcela considerável dos eleitores do presidente para o polo oposto. 

Esse novo padrão de distribuição de preferências fica ainda mais claro quando cruzamos a posição dos respondentes em relação à política de isolamento social com seus respectivos posicionamentos político-ideológico. A Figura 2 mostra de forma inequívoca que os respondentes de esquerda, centro-esquerda e centro são majoritariamente favoráveis ao isolamento social pelo tempo que for necessário. Entretanto, uma parcela considerável dos eleitores que se autodesignam como de centro-direita e de direita também é favorável a essa política, contrariando a posição e recomendação do presidente de relaxar o isolamento social.

Mais interessante ainda é a conclusão a que chegamos quando analisamos o grau de proximidade dos eleitores de Bolsonaro a pessoas (amigos, parente etc.) que se contaminaram e desenvolveram a covid-19 com graus variados de gravidade. A Figura 3, que só inclui respondentes de centro-direita e direita, mostra de forma clara que quanto maior o “medo da morte”, mais alto é o apoio a política de isolamento social pelo tempo que for necessário. 

Além disso, a Figura 4 mostra que os eleitores de Bolsonaro que mais temem que entes queridos apresentem a doença com gravidade ou que dela venham a falecer deixam de apoiar o presidente e passam a concordar com os governadores. 

De uma forma bastante esquemática, é possível identificar dois grupos de apoiadores de Bolsonaro: os ideológicos e os pragmáticos. O primeiro grupo é orgânico e apoia o governo porque acredita e aposta no projeto político de Bolsonaro. Para que se mantenha coeso, ofertando apoio social básico e seguro, esse grupo necessita ser alimentado constantemente com agendas populistas contra as elites e polarizadas. Já o segundo grupo apoia o presidente na medida em que o governo tenha capacidade de ofertar o que de fato lhes interessa: estabilidade macroeconômica, combate à corrupção e contenção do petismo. 

A porção pragmática do eleitorado de Bolsonaro já estava se desgarrando por uma série de ações e atitudes belicosas do presidente, que não se encaixava bem no que esse segmento do eleitorado desejava. A pandemia tornou mais evidentes as diferenças, na medida em que tais eleitores identificaram o presidente como irresponsável por defender uma estratégia que coloca em risco a saúde e a vida das pessoas.

O erro de cálculo de Bolsonaro, portanto, pode ter sido não perceber que a sua estratégia de presidencialismo plebiscitário polarizado tem limites claros quando o que está em jogo é a vida das pessoas. As pessoas têm um medo intrínseco da morte. Ou seja, enquanto Bolsonaro “esticava a corda” da polarização política em assuntos relacionados, por exemplo, a meio ambiente, gênero, minorias, política externa, educação e cultura, os seus eleitores de centro-direita e direita estavam dispostos a continuar a apoiá-lo, ainda que por razões pragmáticas. 

Entretanto, quando Bolsonaro foi para o extremo, se posicionando contra a política de isolamento social, com o objetivo de mitigar as suas consequências econômicas, os respondentes interpretaram que tal posicionamento oferecia riscos às suas próprias vidas e a de entes queridos. 

Ainda é cedo para saber se essa quebra é temporária ou definitiva. Mas a lição que fica é que a vida é inegociável para a grande maioria das pessoas, incluindo uma parcela considerável dos próprios eleitores de Bolsonaro. A vida das pessoas não comporta polarização e quem brinca com a morte corre o risco de morrer politicamente sozinho.

*CARLOS PEREIRA, PROFESSOR TITULAR, FGV EBAPE, RIO DE JANEIRO

AMANDA MEDEIROS, PROFESSORA, FGV EBAPE, RIO DE JANEIRO

FREDERICO BERTHOLINI, PROFESSOR ASSISTENTE, DEP. CIÊNCIA POLÍTICA, UNB


 

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