Militares tentam minimizar gravidade do ato do presidente

Presença de Bolsonaro em manifestação antidemocrática não pode ser ignorada

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 11h28

Caro leitor,

Eugène Ionesco se divertiria em Brasília no domingo. A figura de Jair Bolsonaro entre "seu povo" em frente ao quartel do comando do Exército talvez lembrasse ao dramaturgo um de seus personagens, o rei Bérenger, aquele que se recusa a morrer na peça Le roi se meurt (A agonia do rei). Assim como na obra do franco-romeno, paulatinamente, as condições fundamentais para a garantia da estabilidade do governo vão se retirando do entorno do presidente. Na peça de Ionesco, o rei de 400 anos contesta seu médico que lhe prediz a morte em breve e chega mesmo o momento em que nem mesmo os soldados lhe obedecem. Mas como o rei se nega a morrer e se revolta contra o destino, são os objetos do cenário que se retiram lentamente para levá-lo à resignação.

Bolsonaro rumou no domingo, dia 19, ao setor militar em Brasília para se encontrar com o seu povo. Trata-se de umas poucas centenas de radicais, muitos dos quais parentes de policiais e de militares que acompanham o presidente desde a época dos panelaços em frente aos quartéis de Brasília nos anos 1990. Lá, improvisadamente, discursou para a turba que pedia um golpe de Estado, para que o presidente se livrasse da Constituição de 1988, aquela que foi feita quando o general Leônidas Pires Gonçalves era o ministro do Exército, o mesmo Leônidas que submetera o presidente ao conselho de honra que condenou o capitão Bolsonaro - depois absolvido pelo Superior Tribunal Militar.

Diante da cena, rapidamente oficiais do Exército começaram a reagir à presença do presidente em manifestação que pedia a nomeação de Bolsonaro como ditador. Alguns generais, conforme o leitor viu aqui, apesar de reprovarem a presença do presidente no ato, quiseram lembrar que o mandatário não ameaçou ninguém em seu discurso e até falou em defesa da democracia. Não passou pela cabeça dos generais que não se defende a democracia em um ato em que se pede a instauração de uma ditadura assim como parece sem sentido ir ao treino do Palmeiras para torcer pelo Corinthians. A democracia não permite essa inconsciência e muito menos a leniência com a irresponsabilidade.

E isso tudo em meio à maior crise sanitária do século, que, para muitos generais, deveria levar à união nacional, tudo o que Bolsonaro não sabe e não quer fazer.  Um oficial lembrou ao jornalista Roberto Godoy "que é necessário olhar para os fatos". O primeiro é que o comandante do Exército, Edson Pujol, voltou a afirmar no Dia do Exécrito, comemorado no domingo, dia 19, que a pandemia do coronavírus é o maior desafio de sua geração. Depois, que o Exército pôs mais de 25 mil homens nessa luta e, ainda, que quem manda no Exército é que tem a tropa na mão. Esses generais tentam amiúde convencer seus interlocutores no mundo civil de que a Força segue sua vida, defendendo as instituições e não o governo. "Se tivesse respaldo, o presidente faria seu discurso de dentro do Forte Apache", disse um coronel.

No mesmo sentido, um general cobrou que a sociedade olhe para as realizações, para o que é feito e não para o que é dito. Seu raciocínio é que a imprensa estaria por demais contaminada pelo desejo de antagonizar o governo e não estaria prestando atenção aos fatos. Mas a presença do presidente em tal manifestação, emprestando assim ao ato a força e a simbologia da Presidência da República, não é ela em si um fato e não apenas um discurso sem consequência? Por que legitimar uma manifestação que pede uma ditadura com sua presença?

"No passado, outros políticos com discursos mais bem articulados representavam uma ameaça maior à democracia", argumentou um outro general. O julgamento de Bolsonaro entre a maioria dos militares é sempre ao fim e ao cabo submetido ao paralelo com os governos petistas, como se os atos de um um justificassem os do outro. Ou como se erro absolvesse erro. A nenhum desses oficiais passou pela cabeça o que escreveu a pensadora Hannah Arendt, em Responsabilidade e Julgamento: "A escolha do que se julga um 'mal menor' é ainda a escolha simplesmente de um mal".

Diante de um protesto convocado por extremistas de direita em frente à sede do Exército, talvez tenha passado pela cabeça do general Edson Pujol as palavras proferidas por seu antecessor, o general Eduardo Villas Bôas que, em 2016, disse ao Estado que só "malucos" apoiavam a volta do Exército ao poder e que a chance disso era "zero". Em 2018, o mesmo general chamou essa possibilidade de "retrocesso". O silêncio de Pujol seria, segundo os generais, mais uma prova de que o Exército quer distância de confusão. O problema é que a causa da confusão é o próprio presidente e comandante em chefe das Forças Armadas.   

Ionesco poderia ir ao Twitter do general Villas Bôas e verificar que, passadas quase 24 horas da tal manifestação, o ex-comandante não publicou palavra sobre o ato. O general que disse ter aprendido que a "virtude está no centro" parece com seu exemplo querer mostrar que realmente ninguém tutela Bolsonaro. É notável o apoio permanente de Villas Bôas ao governo. Ele simboliza a opção dos demais generais que foram ocupar cargos na Esplanada. Mais do que a ausência de quadros civis para preencher essas funções, o que justifica essa escolha de Bolsonaro é sua opção pela ruptura com o que ele chama de passado.

E, assim, diante dos conflitos do bolsonarismo, o papel pessoal de cada general do governo lembra a dramaticidade das vidas analisadas pelo historiador francês Marc Ferro em sua obra Les individus face aux crises du XXe Siècle (Os indivíduos diante das crises do século 20). Ferro conta que em julho de 1944, em Engins, perto de Grenoble, o engenheiro Marcel N. estava de férias com sua mulher e seus dois filhos, quando foi dado o alerta pelos moradores da região de que os alemães - que haviam substituído as tropas italianas na ocupação da área - se aproximavam. Todos os homens em idade de ser detido e enviado para o serviço de trabalho obrigatório na Alemanha desapareceram da cidade, exceto Marcel.

"Ele disse que estava de férias, que seus papéis estavam em ordem, que não era um terrorista e, portanto, não tinha nada a temer", escreveu Ferro. Quandos os alemães chegaram, examinaram os papéis e o levaram. Sua mulher o procurou em Grenoble. Em vão. Só em 1945, soube que Marcel morrera no campo de trabalho para onde fora conduzido na Alemanha. "Marcel N. acreditava que podia se subtrair à história. A história obstruiu seu caminho. E o apanhou." Ou seja, a ninguém é permitido viver à margem dos fatos.

Se visse a cena do comando do Exército cercado pela gente de Bolsonaro implorando aos militares que rompam seu compromisso com as instituições e com a legalidade para fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, Ionesco pensaria que uma de suas peças estaria sendo encenada ao ar livre, em Brasília. E o dramaturgo lembraria aos generais do governo que ninguém pode marchar fora da história. Nossos atos devem esclarecer os homens e mulheres do futuro para que, como ele mesmo disse, "o que nós fazemos não seja paralelo à vida".  E aqui, mais uma vez, os generais do governo parecem seguir o presidente.

E a prova disso é o próprio Bolsonaro que, após comparecer à manifestação golpista, parece acreditar que basta dizer que a democracia e a liberdade estão acima de tudo para apagar os fatos. Quando estes são por demais evidentes, o inquilino do Planalto demonstra crer que basta virar a chave e vestir a camisa do Corinthians no treino do Palmeiras que dará tudo na mesma. Todos vão acreditar que Bérenger é o rei e assim permanecerá por muito tempo.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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