TABA BENEDICTO / ESTADÃO
TABA BENEDICTO / ESTADÃO

Manifestantes pedem impeachment de Bolsonaro em todas as capitais

Denúncias de corrupção no governo federal envolvendo vacinas contra a covid-19 foram principal tema de atos em 347 cidades

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2021 | 05h00
Atualizado 03 de julho de 2021 | 21h16

Denúncias de corrupção no governo federal envolvendo vacinas contra a covid-19 fizeram manifestantes voltar às ruas neste sábado, 3, e continuarem na pressão pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Atos foram registrados em todas as capitais. Os atos deste sábado receberam o nome de "3JForaBolsonaro". A organização contabilizou atos em 347 municípios no Brasil e em 16 países exterior. 

Nos últimos dois meses, esta é a terceira manifestação organizada por opositores do governo com atos programados em centenas de cidades do País; o primeiro foi em 29 de maio e o segundo, em 19 de junho. Além do impeachment, os manifestantes pedem a retomada do auxílio emergencial de R$ 600 e a vacinação em massa da população. Este é o primeiro ato após o pedido unificado de impeachment, protocolado na Câmara dos Deputados na quarta-feira, 30.

Os atos deste sábado foram organizados por movimentos sociais como MST, MTST, frente Povo Sem Medo, Brasil Popular, Coalizão Negra por Direitos, União Nacional dos Estudantes (UNE), Central de Movimentos Populares (CMP) e Uneafro Brasil. Partidos como PT, PSOL e PCdoB apoiam as manifestações. Desta vez, militantes de direita e de partidos como o PSDB e o Cidadania também aderiram às manifestações.

São Paulo

Em São Paulo, o ato aconteceu na Avenida Paulista e apesar de o distanciamento social ter sido incentivado, houve aglomeração. Pelo menos nove quarteirões foram ocupados pelos manifestantes, que em sua maioria usavam máscaras. A organização diz que 100 mil pessoas estavam no ato. A polícia falou em 5,5 mil. "Não tire a máscara, tire o Bolsonaro", disse um dos militantes no microfone. Os pedidos pelo impeachment de Bolsonaro colocaram também o presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL) como alvo no protesto. Cartazes chamavam o parlamentar de "cúmplice". 

"Viemos hoje aqui, em São Paulo e no Brasil todo, para exigir que o senhor Arthur Lira use a sua caneta e abra o impeachment de Jair Bolsonaro", afirmou em discurso Guilherme Boulos (PSOL). "A voz de milhões de brasileiros vale muito mais do que emendas parlamentares para o Centrão", completou o político, em referência ao orçamento secreto, esquema repasse de verbas extra-orçamentárias revelado pelo Estadão que beneficia principalmente parlamentares do bloco de Lira no Congresso em troca de apoio político.

"Arthur Lira, você não está na presidência da Câmara dos Deputados para fingir que não tem nada acontecendo nas ruas. Tem gente morrendo de fome, gente morrendo por falta de vacina", disse o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT). 

Outro destaque dos discursos das lideranças partidárias foi o pedido por união, independente do partido. A mensagem que começa a ecoar pela Paulista por meio das caixas de som é de que, independentemente de qual o partido, o País precisa se unir em prol da vida, diante das mais de 522 mil mortes pela covid-19. "Toda nossa energia vai ser concentrada na unidade: unir todos aqueles que querem derrotar o Bolsonaro", defendeu o presidente do PSOL, Juliano Medeiros.

Apesar do discurso, houve um confronto entre militantes do PSDB e do PCO.  No final da tarde, quando os manifestantes tucanos caminhavam rumo à Consolação, houve trocas de provocações. Uma briga pontual terminou com uma bandeira do PSDB queimada no chão. O grupo logo se dispersou e não houve feridos.

“Não se pode usar a bandeira brasileira para esconder a corrupção”, comenta Kauê Ferreira, estudante de educação física na USP, em referência ao uso das cores da bandeira pelos apoiadores de Bolsonaro. Segundo ele, depois das denúncias ao longo da semana em torno da compra da vacina inidana Covaxin, o lema agora é unir todos brasileiros que são contra o presidente, para depois voltar a se discutir divergência entre políticas econômicas, por exemplo.

Brasília

Os atos em Brasília começaram por volta das 16h e manifestantes se concentraram na Esplanada dos Ministérios. A manifestação tem críticas a Jair Bolsonaro, pedidos de impeachment e cobranças de mais agilidade na vacinação em massa contra a covid-19. Bandeiras e cartazes de alguns manifestantes pediram o retorno do ex-presidente Lula. 

O ex-ministro José Dirceu (PT) participou de manifestação. Condenado em segunda instância por processos relacionados à Operação Lava Jato, José Dirceu deixou a prisão em novembro de 2019. Dirceu participa da manifestação ao lado do senador Paulo Rocha (PT-PA), líder do partido no Senado.

Rio de Janeiro

O protesto no Rio de Janeiro foi encerrado por volta das 13h50 deste sábado, em frente à igreja da Candelária, na região central da cidade, onde líderes de movimentos sociais e estudantis, sindicatos e partidos discursaram. Milhares de manifestantes gritaram palavras de ordem, como "impeachment, já" e "fora, Bolsonaro". Discursaram diversos parlamentares, de vereadores a deputados federais, ligados a partidos de esquerda.

"O Rio de Janeiro é o berço do Bolsonaro, mas o Rio de Janeiro é muito maior do que a milícia, muito maior do que o Bolsonaro representa. Se Bolsonaro saiu do Rio para ser presidente, do Rio de Janeiro também vai sair a sua derrota", disse o deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), que usava camisa verde-amarela. "O verde-amarelo pertence ao povo brasileiro, não pertence à nenhuma ditadura.”

Benedita da Silva, deputada federal pelo PT do Rio, também criticou o presidente. "Não queremos mais o Bolsonaro. O que estamos fazendo hoje e vamos fazer mais ainda é proteção, comida no prato, vacina no braço. Vamos representar cada família que perdeu seu ente querido, porque ele (Bolsonaro) precisava ganhar US$ 1 por cada vacina" discursou.

O protesto contra Bolsonaro começou por volta das 10h no Monumento Zumbi dos Palmares, na Avenida Presidente Vargas, região central da cidade. Os manifestantes iniciaram às 11h uma caminhada por quase dois quilômetros até a igreja da Candelária, na altura da Avenida Rio Branco.

Guardas municipais e policiais militares acompanham o protesto e orientam o trânsito na região. As duas pistas centrais da avenida Presidente Vargas foram fechadas, além de uma pista lateral. O ato na Candelária provocou ainda o fechamento da Avenida Rio Branco, também uma das principais vias do centro da cidade, dificultando o trânsito na região.

Durante a caminhada, manifestantes carregaram bandeiras e cartazes culpando o presidente pelas mais de 522 mil mortes durante a pandemia. Placas faziam referência à acusação de que o governo Bolsonaro cobrou uma propina de US$ 1 por dose de vacina da AstraZeneca. "Quem perdeu alguém por US$ 1", mostrava uma das placas dos manifestantes.

O ato teve ainda demandas diversas, como cultura, educação e fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Um grande boneco inflável do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi montado no início da manifestação, com uma faixa com as palavras "Lula livre" e uma máscara de proteção. A grande maioria dos manifestantes usava máscara, mas havia pontos de aglomeração.

Nos trios elétricos dos organizadores, oradores se revezaram durante a caminhada com críticas ao presidente. Uma das vozes ouvidas foi a da cantora de samba Teresa Cristina.

"É uma pena que a gente esteja passando por isso. Esse presidente é sujo, é muito corrupto", gritou a cantora. Ela cantou o samba enredo da Mangueira de 2019 "Pra ninar gente grande", que ataca narrativas históricas oficiais.

Uma das manifestantes era a publicitária Malu Ibarra, 56, moradora da zona sul do Rio. Ela afirma que participou de todas as grandes manifestações na cidade desde as Diretas Já, que mobilizou cerca de um milhão de pessoas em comício na Avenida Presidente Vargas, em 1984. Para ela, o governo Bolsonaro é o pior desde o golpe militar.

"Estou aqui, em primeiro lugar, para fortalecer a democracia. Estou aqui também a pedindo a saída do Bolsonaro ou tentando esvaziá-lo para que não se mantenha no poder na próxima eleição", disse a publicitária. Ela revelou que anulou seu voto  na eleição presidencial passada.

As manifestações são convocadas e apoiadas por movimentos sociais, partidos políticos, centrais sindicais, entidades estudantis, entre outros grupos organizados.

Fortaleza

Em Fortaleza, a manifestação contra o governo começou na Praça Portugal, no bairro Aldeota, área nobre da capital cearense.  Em sua maioria com máscaras, os manifestantes levantaram cartazes com frases, como “vida, pão, vacina, educação” e “Fora, Bolsonaro”, pedindo o impeachment do presidente. A ordem das lideranças do movimento era “não tire a máscara, tire o presidente”, também estampada em faixas puxando a passeata, que começou na praça e seguiu até o Aterro da Praia de Iracema, onde se encerrou o protesto.

Também houve referências às acusações de prevaricação em aquisições superfaturadas da vacina Covaxin. O ato seguiu pacífico durante todo o trajeto. O atual decreto do governo do Estado do Ceará proíbe aglomerações, mas já permite a ocupação em espaços públicos como praças e calçadões para a prática de atividades físicas com a obrigatoriedade do uso de máscara.

Recife

No Recife, centenas de pessoas participam do ato deste sábado. Movimentos sociais e militâncias de partidos de esquerda marcam presença expressiva, mas, diferentemente do protesto do dia 19 de junho na capital pernambucana, muitos idosos, famílias e crianças participam do ato.

Poucos carros de som conduzem a multidão, que, em sua maioria, caminha sob gritos de "fora, Bolsonaro" e "genocida", bem como o som de batucadas de percussão. A maior parte das pessoas veste vermelho, preto (com alguma referência ao luto pelos mais de 522 mil mortos pela covid-19 no País) ou as cores da bandeira do Brasil.

Em comparação aos dois protestos anteriores na capital pernambucana, há um registro maior no número de cartazes que pedem explicitamente o impeachment do presidente. Há também outros que citam crime de prevaricação, corrupção e a CPI da Covid.

Políticos de oposição ao governo Bolsonaro, como o senador Humberto Costa (PT) — membro da CPI — marcam presença no ato. Em alguns momentos, manifestantes puxam o canto "olê-olê-olá, Lula, Lula", em referência ao ex-presidente petista.

Maceió

Em Maceió, devido às fortes chuvas que caíram na cidade nos últimos dias, o número de manifestantes foi muito menor do que o registrado no ato do dia 19 de junho. A Polícia Militar não divulgou estimativa quanto ao número de participantes do ato.

As centenas de manifestantes presentes gritavam palavras de ordem como "Bolsonaro genocida" e "fora, Bolsonaro", os manifestantes percorreram as ruas da capital empunhando faixas e cartazes. O ato também fez referência às suspeitas de corrupção na compra de vacinas, alvo de investigação por parte da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da CPI da Covid.

São Luís

 Na capital maranhense, os manifestantes ocuparam a Praça Deodoro, região central de São Luís, na manhã deste sábado. Eles pediam o impeachment do presidente Bolsonaro, e a manutenção do auxílio emergencial no valor de R$ 600,00.

“Mais uma vez, viemos pedir a manutenção do auxílio emergencial até o fim da pandemia. Estamos em defesa da vida e contra a má distribuição das vacinas. Somos contra esse governo genocida e o impeachment é a melhor saída”, diz Eduardo Correa, estudante de Economia da Universidade Federal do Maranhão.

O ato teve uma pequena discussão entre manifestantes e um jovem, identificado como Eduardo Andrade, apoiador do presidente que proferiu palavras de apoio a Bolsonaro no meio da manifestação. Na mesma hora, a situação foi tranquilizada pela turma do “deixa disso”.

Com um número maior de participantes do que a manifestação de 19 de junho, o ato contou com a presença de movimentos partidários e entidades, como Psol, PSTU, PDT, PCdoB, PSB, PT, PCB, PCO, UJS, UJC, CUT, Sinproessema, UNE, UBES, CTB e APLUMA. O ato terminou na Ponte José Sarney.

Porto Velho

Na capital de Rondônia, centenas de pessoas se reuniram para pedir o impeachment do presidente Bolsonaro e melhor gestão das políticas públicas durante a pandemia. O ato iniciou por volta das 8h30 (horário local), na Praça das 3 Caixas D'Água.

Em passeata, com máscaras e pedindo distanciamento mínimo entre os manifestantes, e em dezenas de carros, o ato percorreu as principais vias da região central de Porto Velho. Empunhando cruzes, o grupo que puxava o ato encenou as milhares de mortes no país pela covid-19.

Durante o ato, manifestantes lembraram o escândalo envolvendo a compra de vacinas pelo governo federal e cobraram ampliação da imunização no Estado, que tem o segundo pior índice de vacinação no País.

O ato reuniu movimentos sindicais, estudantis e representações de grupos indígenas, que aproveitaram para protestar também contra a agenda de ações governamentais que quer aprovar o marco temporal nos processos para demarcação de territórios e liberar exploração econômica, como a mineração, nas terras indígenas.  

Este foi o terceiro ato registrado na capital de Rondônia contra o governo federal este ano.

Goiânia

A concentração para o protesto contra o presidente Bolsonaro em Goiânia começou às 9h na Praça Cívica, centro administrativo do governo estadual, região central da cidade. Os manifestantes saíram em caminhada às 10h50 na direção da Praça do Trabalhador.  

Dois carros de som participaram da manifestação, que foi organizada por dezenas de entidades, sindicatos e partidos. Os manifestantes usaram de alegorias e humor para criticar a gestão da pandemia pelo presidente Bolsonaro. Um manifestante levou um simulacro de uma seringa com a inscrição “impeachment”. Já um bloco musical com instrumentos de sucata entoou a palavra de ordem: “O Bolsonaro é um bandido, vale menos que um pequi roído.”

Houve um princípio de confusão no momento que a manifestação passou pelo cruzamento da avenida Goiás com a rua 61. Um manifestante foi detido pela polícia durante alguns minutos, por suspeita de pichação. Outros participantes do protesto pediram para que ele fosse libertado, o que acabou acontecendo e a caminhada prosseguiu.

Na parte final do ato, já na praça do Trabalhador, um policial da cavalaria caiu do cavalo e se feriu. Ele foi atendido inicialmente por outros militares dentro de uma viatura. Em seguida, foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e levado em uma ambulância. O ato foi encerrado após ao meio-dia.  

João Pessoa

Em João Pessoa, a concentração começou pela manhã, no centro da cidade. Vários manifestantes portavam fotos de vítimas da covid-19. Algumas foram espalhadas pelas ruas durante a caminhada.

Salvador

A população de Salvador voltou às ruas pela primeira vez neste sábado, após as denúncias de irregularidades na aquisição de vacinas pelo governo federal. Aos gritos de "genocida", manifestantes acusaram a gestão de corrupção na compra dos imunizantes e pediram o impeachment do presidente Bolsonaro. Na pauta de reivindicações, também esteve o fim de cortes na educação, a geração de emprego e a aceleração da campanha de vacinação contra covid-19.

Apesar da expectativa de que os protestos pelo País tivessem adesão de setores da direita, na capital baiana, foram às ruas, majoritariamente, partidos e movimentos sociais de esquerda. Foi possível perceber aglomerações, mas, ao contrário de atos realizados por bolsonaristas, os manifestantes usaram e distribuíram máscaras. No trio elétrico, a organização pedia que o público respeitasse o distanciamento social.

O protesto começou no bairro do Campo Grande, Centro da Capital, e foi até o Farol da Barra, ocorredo de forma pacífica, com acompanhamento da Polícia Militar. Na sexta, 2, apoiadores de Bolsonaro fizeram uma motociata na cidade.

Belo Horizonte

Em Belo Horizonte, os manifestantes se concentraram na praça da Liberdade, de onde saíram em caminhada pelo centro da capital. Vestidos principalmente de preto, mas também com as cores de seus times e de vermelho, os manifestantes gritavam “Bolsonaro, genocida. Não compra vacina, mas adora uma propina”, além de “Fora, Bolsonaro” e “Genocida”.

Ao som de batuques, o protesto deste sábado também contou com grande presença de grupos indígenas, que pediam o impeachment de Bolsonaro e o chamavam de genocida. A profissional de Relações Públicas Regina Perillo foi pela primeira vez às ruas contra Bolsonaro, após tomar a segunda dose da vacina. Emocionada no meio da multidão, ela ficou impressionada com a quase unanimidade no uso de máscaras. “Eu vi uma pessoa apenas sem máscara”, disse ela. 

Pela manhã, um outro ato fechou uma avenida do centro de BH e queimou pneus, também defendendo o impeachment de Bolsonaro.

Porto Alegre

O protesto em Porto Alegre seguiu o roteiro das manifestações anteriores. Os participantes se reuniram no Largo Glênio Peres por volta das 15h, onde lideranças de esquerda assumiram o microfone. No carro de som, nomes como Manuela D'Avila (PCdoB) e Maria do Rosário (PT), acompanhados de líderes sindicais e de movimentos sociais, se manifestaram pedindo a saída imediata do presidente do poder. "Queremos o impeachment de Bolsonaro", disse Manuela.

A caminhada começou por volta das 15h40, e tomou a avenida Júlio de Castilhos. E se estendeu até o Largo Zumbi dos Palmares, onde encerrou por volta das 18h. Todo ato transcorreu de forma pacífica. A questão ideológica dos atos foi levantada por militantes do PCB, que ao final do ato foram ao microfone em um carro de som menor. O grupo puxava gritos de "nem Lula nem Bolsonaro" e defendia que "é preciso fortalecer que este é um movimento da esquerda." Ali, ainda foi dito que havia representantes da juventude do Livres, movimento de direita. Além disso, também citaram a participação de partidos de esquerda que não estavam na organização dos primeiros protestos, como o PT.

Durante a caminhada foi possível ver mais bandeiras do Brasil e símbolos tradicionalmente ligados às manifestações de direita, mesmo que em menor número em relação às bandeiras de partidos e movimentos de esquerda.

Manaus

Com um público menor do que a última manifestação em 19 de junho, os participantes em Manaus se concentraram na Praça da Saudade, no Centro Comercial de Manaus, e realizaram discursos além de promover apresentações culturais em um palco instalado na Praça. Os manifestantes portavam faixas e cartazes contra o presidente e cobrando mais ações para conter a pandemia de covid-19 e criticando a gestão do governo federal durante a pandemia.

Outro motivo para pedir a saída do presidente foi as recentes denúncias apresentadas na CPI da Pandemia no Senado que aponta indícios de corrupção no âmbito do Ministério da Saúde para compra de vacinas.

Curitiba

Mais de dez mil pessoas ee concentraram nas ruas de Curitiba para protestar contra o governo. A manifestação começou às 15h30 e no final da tarde os manifestantes saíram em passeata pelas ruas centrais. O presidente do Grupo Aliança pela Vida, que cuida da proteção de testemunhas, Paulo Pedron, disse que o governo está perdido." É um governo cujas ideias não são pela vida e que cultua a morte, isso mostra a face do fascismo", disse.

Para Marcelo Santana, 52 anos, "a pressão das ruas pode fazer com que o presidente da Câmara, Artur Lira, abra o processo de impeachment e isso será fundamental ", avaliou. Já o mecânico Gasparino dos Reis, 65 anos, estava munido de seis litros de álcool em gel e cuidava da higienização das mãos dos manifestantes. "Temos que dar o exemplo" disse.

Interior de São Paulo

As principais cidades do interior de São Paulo também registraram atos contra o presidente Bolsonaro. Embora não tenha havido estimativa oficial, ao menos quatro cidades — Piracicaba, Bauru, Sorocaba e São José dos Campos — tiveram participação maior do que nas manifestações do último dia 19. Os pedidos de impeachment do presidente da República ganharam mais destaque depois das denúncias de corrupção no governo envolvendo a compra da vacina Covaxin.

Em Campinas, os manifestantes ocuparam o Largo do Rosário e saíram em marcha pelas ruas do centro. Avenidas importantes, como a Francisco Glicério, Moraes Sales e Anchieta ficaram interditadas. Em discursos nos carros de som, houve destaque para a denúncia de corrupção na compra da vacina e para mais de meio milhão de mortes pela covid-19. Os manifestantes usavam máscaras, mas houve aglomeração. A Polícia Militar e a Guarda Municipal acompanharam o ato, mas não calcularam o número de manifestantes.

Durante o protesto em Piracicaba, um apoiador de Bolsonaro misturou-se aos manifestantes e foi agredido. Com o nariz sangrando, ele foi atendido por uma viatura da Polícia Militar e registrou ocorrência por lesões corporais. O grupo caminhou do Mercado Municipal à Praça José Bonifácio. Vários manifestantes levavam cartazes com fotos de familiares mortos pela covid-19, acusando Bolsonaro de “genocida”.

Os atos foram convocados por sindicatos de trabalhadores, partidos de oposição e entidades estudantis. Em São José dos Campos, os manifestantes se concentraram na Praça Afonso Pena, região central da cidade. Faixas e balões pediam o impeachment do presidente. Em Ribeirão Preto, a concentração começou na Esplanada do Theatro Pedro II e os manifestantes caminharam pelas ruas do centro. Houve passeata também na região central de Franca.

Em Sorocaba, os grupos se concentraram em frente à prefeitura e seguiram em carreata até a Praça Cel. Fenando Prestes, a principal da cidade. Discursos pediam a “saída imediata” do presidente Bolsonaro, devido às denúncias de corrupção na compra de vacinas. Com faixas, bandeiras e cartazes, os manifestantes caminharam pelas ruas do centro, interditadas para o trânsito. Os organizadores estimaram participação de 800 pessoas, quase o dobro da manifestação anterior. PM e Guarda Municipal não fizeram estimativas.  

Em Bauru, grupos indígenas engrossaram o protesto acusando o governo Bolsonaro de “genocida de índios”, se posicionando contra a nova regra do marco temporal e cobrando a demarcação de territórios indígenas. Em Araraquara, centenas de pessoas participaram de atos ocupando as principais vias da cidade, com faixas e bandeira. Em São Carlos, os manifestantes se concentraram na Praça Itália e caminharam até a Praça do Mercado. A manifestação em Jundiaí teve ato público com discursos e carreata. Também houve protestos com ao menos uma centena de participantes em Araçatuba, Jales e Limeira.

Exterior

Assim como nos últimos dois atos, protestos contra o presidente Bolsonaro também foram registrados no exterior. Em Berlim, na Alemanha, dezenas de manifestantes se reuniram  no Portão de Brandemburgo. Segundo informou a agência de notícias Deutsche Welle em sua conta brasileira no Twitter, eles criticaram a gestão da pandemia no Brasil, pediram o impeachment de Bolsonaro, além de denunciarem a violência contra os povos indígenas. Cartazes também lembravam a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018.

Além da capital alemã, também foram registrados atos em Munique e Viena.

Atos adiantados

As manifestações de hoje estavam previstas para ocorrer somente em 24 de julho, mas foram antecipadas pelos organizadores depois do caso Covaxin vir à tona na CPI da Covid.

Bolsonaro foi acusado de prevaricação por membros da comissão depois de o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) afirmar em depoimento que alertou o presidente da República sobre supostas irregularidades na compra de milhões de doses da vacina indiana contra a covid-19. Senadores protocolaram uma notícia-crime contra Bolsonaro na última segunda-feira, 28. A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou na noite de sexta-feira, 2, a abertura do inquérito para investigar o presidente. Rosa Weber acolheu pedido assinado pelo vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros.

Na quarta-feira, siglas da esquerda, centro e direita, além de ex-bolsonaristas, protocolaram na Câmara um "superpedido" de impeachment de Bolsonaro. O documento lista 23 crimes que teriam sido cometidos pelo presidente desde que tomou posse. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também convocou uma reunião extraordinária para o dia 20 de julho com o objetivo de discutir a apresentação de um pedido próprio de impeachment.

No último dia 19 de junho, dezenas de milhares de pessoas protestaram contra o presidente em mais de 400 cidades do Brasil e do exterior. Os protestos ocorreram de maneira pacífica e reuniram, segundo os organizadores, mais de 750 mil pessoas. Pelas redes sociais, o presidente Bolsonaro ironizou os protestos. O chefe do Executivo postou o vídeo de um protesto pequeno em Paranaguá para dar a entender que não houve adesão às manifestações.

Redes sociais

Desde o início da manhã, as manifestações contra o presidente Bolsonaro estiveram entre os assuntos mais comentados nas redes sociais. Pelo Twitter, parlamentares de oposição ao governo fizeram postagens contra o presidente. Alguns políticos estiveram no protesto presencialmente, outros acompanharam virtualmente.

O senador Rogério Carvalho (PT-SE), que é médico, citou as suspeitas de cobrança de propina na compra de vacinas contra a covid-19 por parte de integrantes do Ministério da Saúde. "Já existia vacina, mas o governo preferiu a propina! #3JForaBolsonaro", comentou na rede social.

A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), publicou imagens da manifestação em Belém. "Muita gente tomando as ruas para pedir o impeachment de Jair Bolsonaro. De norte a sul do país, o povo quer o fim do governo da morte!", escreveu.

O prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (Psol) participou do protesto na cidade. Pelo Twitter, ele disse: "Participei das manifestações democráticas contra a política genocida do governo Bolsonaro e em homenagem às mais de 520 mil vítimas da covid-19 no Brasil. Por vacina para todos e todas e comida no prato do povo".

A deputada federal Sâmia Bonfim (Psol-SP) publicou mensagem em defesa do impeachment de Bolsonaro acompanhada de um vídeo do ato no Rio de Janeiro. "GIGANTE! Multidão ocupou as nas ruas do Rio de Janeiro contra o genocida. Não vai cair, vamos derrubar!", disse.

Registros das manifestações também viralizaram nas redes neste sábado. Um dos conteúdos de maior alcance é uma foto que mostra uma criança segurando o cartaz "Cadê a vovó?", no Rio de Janeiro. Ela foi compartilhada por nomes como Guilherme Boulos (Psol) e Manuela D'Ávila (PCdoB), entre outros perfis. 

Outra imagem que repercutiu no Twitter é de uma mulher no Recife relatando em um cartaz que o marido morreu porque fez o "tratamento precoce" propagado por Bolsonaro quando precisava de vacina. /ALINE RESKALLA, ALISSON CASTRO, BRENDA ZACHARIAS, BRUNO LUIZ, BRUNO VILLAS BÔAS, CARLOS NEALDO, CÁSSIA MIRANDA, DAVI MAX, DIDA SAMPAIO, EDUARDO AMARAL, FÁBIO BISPO, FERNANDA GUIMARÃES, JOSÉ MARIA TOMAZELA, JULIO CESAR LIMA, LÔRRANE MENDONÇA, MATHEUS LARA, PEDRO JORDÃO, SAMUEL LIMA. THALYS ALCÂNTARA E VINICIUS VALFRÉ.

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