Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Mandetta admite ‘descompasso’ com Bolsonaro e diz não ser ‘insubstituível’

Ministro impede que um de seus auxiliares pedisse demissão apesar da saída ter sido confirmada pela pasta da Saúde

Julia Lindner e André Borges, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 17h22
Atualizado 16 de abril de 2020 | 19h37

BRASÍLIA – Diante da possibilidade de deixar o cargo, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, admitiu nesta quarta-feira, 15, em clima de fim de trabalho, que “há um descompasso” entre as diretrizes da pasta e o presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, Bolsonaro “claramente externa que quer outro tipo de posição” em relação ao combate da covid-19. O ministro disse, no entanto, que ficará no posto o tempo necessário para uma eventual transição.

“Parece que eu sou contra o presidente, e o presidente é contra mim... mas são visões diferentes do mesmo problema. Se tivesse uma visão única seria um problema muito fácil de solucionar, e não é”, disse Mandetta, durante entrevista coletiva realizada na tarde desta quarta-feira, 15, no Palácio do Planalto. O ministro enfatizou, ainda, que ele e sua equipe “não são insubstituíveis”. “Nunca falei que somos (insubstituíveis). São visões diferentes”, reforçou.

Questionado sobre a sua permanência na pasta diante das divergências entre ele e o presidente, Mandetta respondeu que “claramente, isso não é desconhecido, há um descompasso entre o Ministério da Saúde...”, sem completar a frase. “Isso aí a gente colocou e deixa muito claro que vai trabalhar até 100% dos limites da nossa possibilidade. Lá, enquanto eu estiver, nada muda. Seguiremos trabalhando”, acrescentou.

Nesta quarta, Mandetta impediu que um de seus principais auxiliares, o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, pedisse demissão, apesar de sua saída ter sido oficialmente comunicada pela pasta. Apontado como um dos principais mentores da estratégia de combate ao novo coronavírus no governo, Oliveira enviou uma mensagem de despedida aos colegas pela manhã. Na carta, ele afirma que teve reunião com Mandetta e que a saída do ministro “estava programada para as próximas horas ou dias”. 

“Hoje teve muito ruído por conta do Wanderson, por causa de toda essa ambiência ele falou para o setor que ia sair, aquilo virou, chegou lá para mim, eu já falei que não aceito, o Wanderson está aqui. Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde. Por isso fiz questão de vir nessa coletiva de hoje”, declarou Mandetta no início, acrescentando: “Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde.”

Com a demissão dada como certa, Mandetta, fez questão de participar da entrevista coletiva no Palácio do Planalto. A avaliação de assessores do presidente é que o ministro não quis perder o que pode ter sido a última oportunidade de, ainda no cargo, voltar a confrontar Bolsonaro, fazendo sempre a defesa da ciência.

 O “ato final” pegou de surpresa integrantes do governo e políticos em Brasília. Inicialmente, a entrevista de hoje se resumiria a uma apresentação técnica dos números da covid-19, mas Mandetta surgiu, de última hora, para falar com os jornalistas. Não estava só.

Inicialmente, o Palácio do Planalto havia proibido perguntas de jornalistas na entrevista. Pela segunda vez, no entanto, Mandetta quebrou o protocolo e autorizou os questionamentos da imprensa, que incluíram dúvidas sobre a situação do ministro à frente da pasta.

“Aceitamos todo tipo de crítica, têm coisas certas e outras erradas, não temos problemas em encará-las. Não estamos aqui para dificultar a vida de ninguém, mas claramente esse não é um caminho que tenha ressonância para que seja conduzido dessa maneira”, afirmou, sobre a sua linha de atuação, que defende a postura dos Estados em manterem o isolamento social.

Segundo apurou o Estado, o ministro descobriu nesta quarta-feira, 15, que seria demitido após ligações de colegas médicos que haviam sido sondados ao cargo. Na sequência, Mandetta iniciou uma operação de bastidores para anunciar a sua saída aos subordinados do ministério e evitar desgaste político. Ele ainda aguarda decisão oficial de Bolsonaro.

“Eu deixo muito claro isso. Eu deixo o Ministério da Saúde em três situações: uma é quando o presidente não quiser mais o meu trabalho; a segundo é se eu pegar uma gripe dessas e tenho que ser afastado por forças alheias; e a terceira é quando eu sentir que o trabalho feito já não é mais necessário porque de alguma maneira passamos por esse estresse. Todas essas alternativas continuam e são válidas”, afirmou.

Gabbardo chegou a ser cogitado como substituto de Mandetta

Na entrevista, o secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, também descartou a possibilidade de assumir a pasta no lugar de Mandetta, como chegou a ser cogitado no governo. “Tenho um compromisso com o ministro Mandetta. O dia que ele sair, eu saio junto com ele”, declarou o número 2 do órgão. “Eu entrei no Ministério da Saúde muito jovem, em 1981. Ano que vem eu completo 40 anos de Ministério da Saúde. Eu não vou jogar no lixo esse meu patrimônio.”

Gabbardo disse que, confirmada a saída de Mandetta, ficaria no cargo apenas para concluir um processo de transição no ministério. “Se o presidente indicar uma nova equipe para o Ministério da Saúde, eu não vou abandonar o barco. Vou ficar durante todo o tempo necessário para fazer a transição com toda tranquilidade, porque tenho consciência de que a população espera por esse trabalho e a continuidade dele. Não podemos interromper isso por qualquer razão”, disse.

Mandetta admitiu, em diversos momentos, bem como seus principais assessores, que já não há dúvidas sobre o fim de seu trabalho à frente do ministério: “Ele (Bolsonaro) claramente externa que quer outro tipo de posição do Ministério da Saúde, que eu, baseado em ciência, tenho esse caminho para oferecer.”

O ministro chegou a admitir que soube da procura de outros nomes para assumir seu posto, mas disse que deixou o governo à vontade para procurar candidatos.

Mandetta quis passar tranquilidade e disse que tem rezado muito nos últimos dias. “Estamos muito tranquilos, sabemos de nossa responsabilidade. Temos um foco muito grande. Sou muito devoto, rezo para os meus santos todos, para Nossa Senhora Aparecida. Sou devoto de São Jorge, que nessa semana tem o seu dia, cada um tem sua fé, é muito importante nesse momento.”

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