Marcello Casal/ Agência Brasil
Marcello Casal/ Agência Brasil

Formulador de estratégia contra o coronavírus pede demissão do Ministério da Saúde

Chefe da pasta, Luiz Henrique Mandetta não aceita decisão do auxiliar

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 12h20
Atualizado 16 de abril de 2020 | 17h33

BRASÍLIA – O enfermeiro epidemiologista Wanderson de Oliveira pediu demissão na manhã desta quarta-feira, 15, do cargo de secretário nacional de Vigilância em Saúde, mas o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não aceitou a decisão. Ele é um dos principais formuladores da estratégia do Ministério da Saúde para enfrentar a covid-19 e vinha se queixando a colegas sobre o discurso do presidente Jair Bolsonaro contrário ao isolamento social mais amplo. Em carta de despedida, Wanderson diz que a demissão de Mandetta está “programada para as próximas horas ou dias”.(leia a íntegra abaixo).

No texto divulgado à sua equipe, Oliveira disse que havia se reunido com o ministro e que a demissão do titular da Saúde poderia ser comunicada até via Twitter. “Só Deus para entender o que o querem fazer”, escreveu. Mandetta já avisou a auxiliares que deve ser demitido por Bolsonaro. A data da exoneração não é certa, mas, o clima é de despedida entre funcionários da pasta. A saída, porém, só deve ocorrer quando o governo encontar um nome para substituí-lo.

À tarde, Mandetta disse que houve ‘ruído’ na demissão de Wanderson. “Hoje teve muito ruído por conta do Wanderson, por causa de toda essa ambiência ele falou para o setor que ia sair, aquilo virou, chegou lá para mim, eu já falei que não aceito, o Wanderson está aqui. Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde. Por isso fiz questão de vir nessa coletiva de hoje”, declarou Mandetta no início, acrescentando: “Nós vamos trabalhar juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde.”

Oliveira é presença constante nas entrevistas diárias em que o ministério apresenta o balanços sobre os casos de coronavírus no País. O ex-secretário é apontado como um dos principais mentores da estratégia de combate ao novo coronavírus no governo. Ele já havia dado sinais de que deixaria o posto ao distribuir ontem a colegas um relatório sobre a sua gestão.

O epidemiologista, no entanto, vinha afirmando que entregaria o cargo junto da saída de Mandetta, mas antecipou seu pedido de demissão. Oliveira disse a colegas que indicou a seu cargo, interinamente, Gerson Pereira, atual diretor do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. “Ele é um profissional excelente e vai dar seguimento a tudo que estamos fazendo”, escreveu Oliveira. 

 A primeira passagem de Oliveira pelo Ministério da Saúde ocorreu ainda em 2001, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Doutor em epidemiologia, ele é servidor do Hospital das Forças Armadas e têm experiência internacional em investigação de surtos, como da covid-19. O ex-secretário é tido como referência mundial em estudos sobre zika vírus.

O governo, no entanto, ainda discute um nome para assumir o cargo de Mandetta. Uma solução provisória, segundo auxiliares do presidente, seria colocar o “número 2” do ministério, João Gabbardo, no cargo de ministro. A leitura é de que a troca seria menos traumática para o momento que apostar no deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que é radicalmente contra a estratégia de isolamento social para combater a doença, como hoje defende o ministério. 

Na semana passada, em entrevista na qual revelou que auxiliares chegaram a limpar suas gavetas no gabinete achando que ele seria demitido naquele dia, Mandetta afirmou que, caso fosse embora, seu time sairia junto. “Aqui nós entramos juntos, estamos juntos e quando eu deixar o ministério a gente vai colaborar de outra forma com a equipe que virá. Entramos juntos e vamos sair juntos”, afirmou o ministro.

Estratégia contra o coronavírus opõe ministro e presidente

Desde o início da crise do coronavírus, ministro e presidente têm se desentendido sobre a melhor estratégia de combate à doença. Enquanto Bolsonaro defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, o ministro tem mantido a orientação da pasta para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do titular da Saúde segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Ministro e presidente também têm divergido sobre o uso da cloroquina em pacientes da covid-19. Bolsonaro é um entusiasta do medicamento indicado para tratar a malária, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. Mandetta, por sua vez, tem pedido cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus

As últimas atitudes do ministro elevaram a temperatura do confronto e, na visão de auxiliares, podem acelerar sua saída da equipe. O estopim da nova crise foi a entrevista de Mandetta ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite de domingo. O tom adotado pelo ministro foi considerado por militares do governo e até mesmo por secretários estaduais da Saúde como uma “provocação” ao presidente.

Nessa terça, 14, em entrevista da estreia da série “Estadão Live Talks”, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que Mandetta “cruzou a linha da bola” quando disse, no domingo, que a população não sabe se deve acreditar nele ou em Bolsonaro. “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Nenhum cavaleiro pode cruzar na frente da linha da bola”, explicou o vice. “Ele fez uma falta. Merecia um cartão”, continuou Mourão.

O ministro admitiu a auxiliares ter cometido um erro estratégico e que tentaria nos próximos dias sair do foco da crise. Assessores do presidente observam que Bolsonaro só não dispensou o ministro ainda porque faz um cálculo pragmático.

Pesquisas mostram que Mandetta, hoje, é mais popular que Bolsonaro e sua demissão, neste momento, poderia agravar a crise. Por isso a solução caseira, de manter Gabbardo no comando da pasta, passou a ser cogitada.

Veja a carta de demissão de Wanderson de Oliveira

"Bom dia!

Finalmente chegou o momento da despedida. Ontem tive reunião com o Ministro e sua saída está programada para as próximas horas ou dias. Infelizmente não temos como precisar o momento exato. Pode ser um anúncio respeitoso diretamente para ele ou pode ser um Twitter. Só Deus para entender o que o querem fazer.

De qualquer forma, a gestão do Mandetta acabou e preciso me preparar para sair junto, pois esse é um cargo eletivo e só estou nele por decisão do Mandetta. No entanto, por conhecer tão profundamente a SVS, tenho certeza que parte do que fizemos na SVS vai continuar, pois é uma secretaria técnica e sempre nos pautamos pela transparência, ética e preceitos constitucionais.

A maioria da equipe vai permanecer e darão continuidade ao trabalho de excelência que sempre fizeram e para isso não precisam mais de mim.

Foi uma honra enorme trabalhar mais uma vez com você. Para que não tenhamos solução de continuidade, indiquei o meu amigo querido Gerson Pereira para ficar de Secretário interino. Ele é um Profissional excelente e vai dar seguimento a tudo que estamos fazendo.

Vou entregar o cargo assim que a decisão sobre o Mandetta for resolvida. Todos estão livres para fazer o que desejarem.

Tenho certeza que a SVS continuará grande e será maior, pois vocês é que fazem ela acontecer. Minhas contribuições foram pontuais e insignificantes, perto do que essa Secretaria é como uma só equipe. A SVS é minha escola e minha gratidão por ter trabalhado com você será eterna. Muito obrigado por me permitir estar Secretário Nacional de Vigilância em Saúde. Jamais imaginei que seria o primeiro enfermeiro a ocupar tão elevado e importante cargo e o primeiro de muitos que virão.

Muito obrigado!"

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