Dida Sampaio/Estadão
O presidnete Jair Bolsonaro durante entrevista na porta do Palácio do Alvorada, na quarta-feira, 25 Dida Sampaio/Estadão

‘Infelizmente algumas mortes terão. Paciência’, diz Bolsonaro ao pedir o fim do isolamento

Após governo lançar campanha ‘O Brasil não pode parar, Bolsonaro admite que covid-19 fará vítimas fatais no País, mas volta a cobrar o fim da quarentena e abertura do comércio

Julia Lindner e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 17h42
Atualizado 31 de março de 2020 | 18h46

BRASÍLIA – No dia seguinte ao lançamento da campanha do governo intitulada “O Brasil não pode parar”, o presidente Jair Bolsonaro cobrou o fim da quarentena para deter o coronavírus, mesmo admitindo que o País contabilizará mortes por causa da doença. “Vamos enfrentar o vírus. Vai chegar, vai passar. Infelizmente algumas mortes terão. Paciência, acontece, e vamos tocar o barco. As consequências, depois dessas medidas equivocadas, vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus”, disse Bolsonaro em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente da TV Band. 

Medidas equivocadas, na avaliação do presidente, são ações de isolamento social, como o fechamento do comércio e de escolas. A estratégia defendida pelo Planalto vai na contramão do esforço mundial para o combate à propagação da doença e acabou levando Bolsonaro a um embate com governadores que já dura quase uma semana.

Enquanto alguns Estados seguiram o posicionamento do presidente e flexibilizaram ontem a restrição ao funcionamento do comércio, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) voltou a defender o isolamento. “O mundo inteiro está errado e o único certo é o presidente Jair Bolsonaro?”.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), afirmou que é preciso que o presidente “entenda a gravidade do contágio do coronavírus no Brasil.” “Não é hora para brincadeiras, não é hora de política, não há espaço para isso”, afirmou.

Houve também reações da sociedade civil. Uma nota conjunta assinada por Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Academia Brasileira de Ciências (ABC) e outras entidades pede para a população ficar em casa, “respeitando s recomendações da ciência, dos profissionais de saúde e da experiência internacional.” 

Apesar das críticas sofridas após o pronunciamento em rede nacional de rádio e TV na terça-feira, quando tratou a pandemia do coronavírus como “uma gripezinha”, Bolsonaro seguiu, na entrevista, a mesma linha da campanha publicitária, pedindo que as pessoas retomem suas atividades.

“O brasileiro quer trabalhar, esse negócio de confinamento aí tem que acabar. Temos que voltar às nossas rotinas. Deixem os pais, os velhinhos, os avós em casa e vamos trabalhar”, insistiu. “Alguns vão morrer? Vão morrer, lamento, essa é a vida. Não podemos parar fábricas de automóveis porque têm 60 mil mortes no trânsito por ano.”

A divulgação da campanha do governo e as constantes críticas de Bolsonaro ao isolamento social levaram grupos que o apoiam a organizar carreatas em ao menos seis Estados para pedir o fim das medidas restritivas. Por meio das redes sociais, esses grupos pretendem pressionar prefeitos e governadores a reverem suas medidas. No fim do dia, houve registros de panelaços contra o presidente. 

+ LEIA TAMBÉM: Entidades médicas rebatem fala de Bolsonaro e reafirmam necessidade de isolamento

Bolsonaro defende seu ponto de vista argumentando que as pessoas correm o risco de perder o emprego se o período de quarentena for prolongado, porque a economia já está parando. “O que vai acontecer com o Brasil? Vão quebrar o Brasil por causa do vírus.” Segundo ele, a solução para o Brasil é deixar “os velhinhos em casa” e retomar o trabalho, conforme afirmou na entrevista a Datena.

Durante o programa de TV, Bolsonaro colocou em dúvida o uso de estatísticas mundiais para se proteger contra o avanço da covid-19, ao dizer que “não tem que procurar números de fora do Brasil para justificar medidas aqui dentro”. Um estudo do Imperial College de Londres publicado na quinta-feira, 26, mostra que ao menos 44 mil brasileiros devem morrer em decorrência da covid-19. Se apenas idosos ficarem isolados, o número de mortes sobe para 529 mil.

“No mundo todo tem umas 20 e poucas mil pessoas (mortas por covid-19). Então porque 400 mil no Brasil? Não, eu não acredito. Isso é chute.”, disse. O presidente também colocou em dúvida o número de casos do coronavírus em São Paulo. “Não estou acreditando nos números”, declarou. 

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'O Brasil precisa discutir quem será o fiador das mortes', diz Doria sobre Bolsonaro

Governador critica o presidente e campanha pela reabertura do comércio; ‘Quem será o fiador das mortes no Brasil

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 16h00
Atualizado 12 de abril de 2020 | 19h45

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez um discurso repleto de críticas ao presidente Jair Bolsonaro em resposta à campanha em defesa da retomada das atividades comerciais do País. “O Brasil precisa discutir quem será o fiador das mortes no Brasil”, disse Doria. O pronunciamento ocorreu durante vistoria das obras do hospital de campanha que está sendo construído no Estádio do Pacaembu.

Ainda durante a madrugada desta sexta-feira, 27, Doria registrou um boletim de ocorrência após receber telefonema com ameaças de morte, segundo informou o Palácio dos Bandeirantes. A segurança do governador foi reforçada e a Polícia Civil apura a origem da ameaça.

O governador paulista acusou o chamado “gabinete do ódio”, grupo de assessores que trabalha no Palácio do Planalto, de orquestrar a série de ameaças que disse ter recebido na noite de sexta-feira. Ele afirmou também “não ter medo” de Bolsonaro, citando pelos apelidos os filhos do presidente Flávio, Eduardo e Carlos.

Com tom de voz ríspido, Doria afirmou que a administração federal é formada por dois governos: um que acertava as ações de saúde e outro que não. “O Brasil precisa de união, não de ódio, não é hora fazer política, fazer campanha, propagar ideologismos.”

Ele afirmou que a recomendação pelo isolamento social vinha do próprio Ministério da Saúde e que há mais de 50 países adotando quarentena como estratégia contra a doença. “O mundo inteiro está errado e o único certo é o presidente Jair Bolsonaro?”, questionou o governador, para quem “o Brasil pode parar para lamentar a irresponsabilidade de alguns e a morte de muitos”. “Não é racional fazer política com a saúde e a vida das pessoas, especialmente as mais pobres.”

Doria também pediu atenção à cidade de Milão, na Itália, que teve uma campanha há algumas semanas contrária às ações de fechamento de bares e que, nesta sexta-feira, 27, se desculpou. “São 4.400 italianos mortos”, afirmou, para depois dizer: “A política que mata pessoas não salva economia.”

O governador afirmou ainda que caminhoneiros, que vêm divulgando vídeos com queixas às ações de isolamento, poderão usar os postos de pesagem nas rodovias do Estado como áreas de descanso.

Durante a agenda, ele divulgou repasses para a Prefeitura de São Paulo, que montou dois hospitais de campanha. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), também rebateu Bolsonaro, que disse que prefeitos e governadores deveriam ser cobrados pelo pagamento de encargos trabalhistas. “Estamos mais preocupados com o artigo 121 do Código Penal, que trata de homicídio”, afirmou Covas.

O Boletim de Ocorrência feito por Doria e registrado pela Delegacia de Operações Policiais Estratégicas (Dope) diz que “as ameaças foram dirigidas ao telefone celular do governador e davam conta, em tom ameaçador, de que atos seriam realizados em frente à sua residência pessoal”. Em nota, o Palácio dos Bandeirantes informou que “a Polícia Civil investiga o caso e o governador colabora com a investigação”.

Doria disse ter recebido “centenas” de mensagens na noite de anteontem após assistir ao Jornal Nacional da TV Globo. Depois, outras dezenas de telefonemas, que tratavam da invasão de sua casa. O governador classificou o episódio relatado à Polícia Civil paulista como uma “ação determinada não apenas por robôs como por instruções certamente partidas do dito ‘gabinete do ódio’ em Brasília, que nos últimos 15 meses só tem produzido conflagrações, atritos, bobagens, erros e instabilidade na vida do País”.

“(Vou) Aproveitar para dizer também para bolsomínios, bolsonaristas, ameaçadores, agressores como estes que estão aí fora gritando, que eu não tenho medo de cara feia, não tenho medo de zero um, zero dois, zero três, zero quatro, não tenho medo de Bolsonaro”, completou. Conforme Doria, a Polícia Civil está investigando o caso e monitorando os telefonemas e WhatsApp.

Doria virou um ‘papagaio de auditório’, diz Bolsonaro

 Em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, Bolsonaro reagiu às declarações do governador paulista. “Ouvi poucos segundos. Eu tenho o que fazer. Não vou ficar ouvindo esse cidadão aí dando entrevista, ele virou um papagaio de auditório. Está o tempo todo dando entrevista.”, afirmou. “No meu entender, São Paulo não está no caminho certo. A população já entendeu que ele exagerou na dose, espero que dê para ele um comprimido de humildade para ele poder conduzir esse Estado maravilhoso.”

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Parlamentares tentam barrar campanha do Planalto contra isolamento

No Instagram, publicação no perfil do governo federal diz que 'no mundo todo, são raros os casos de vítimas fatais do coronavírus entre jovens e adultos'

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2020 | 20h49
Atualizado 27 de março de 2020 | 17h51

BRASÍLIA  - O governo federal lançou uma campanha publicitária chamada "O Brasil não pode parar" para defender a flexibilização do isolamento social. A iniciativa é parte da estratégia montada pelo Palácio do Planalto para reforçar a narrativa do governo em relação à crise envolvendo novo coronavírus, que vai na contramão dos órgão de saúde, além de divulgar medidas que o presidente Jair Bolsonaro considera necessárias para a retomada econômica. Também há previsão de vídeos institucionais. 

No Instagram, uma publicação feita no perfil do governo federal diz que "no mundo todo, são raros os casos de vítimas fatais do coronavírus entre jovens e adultos". A campanha dá a senha para a defesa do fim da quarentena. "A quase totalidade dos óbitos se deu com idosos. Portanto, é preciso proteger estas pessoas e todos os integrantes dos grupos de risco, com todo cuidado, carinho e respeito. Para estes, o isolamento. Para todos os demais, distanciamento, atenção redobrada e muita responsabilidade. Vamos, com cuidado e consciência, voltar à normalidade", diz o texto.

Um vídeo divulgado na noite desta quinta-feira pelo filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), mostra cenas de trabalhadores em atividades com um narrador ao fundo repetindo o tema da campanha. "Para trabalhadores autônomos, o Brasil não pode parar. Para ambulantes, engenheiros, feirantes, arquitetos, pedreiros, advogados, professores particulares e prestadores de serviço em geral, o Brasil não pode parar", diz a narração. Ao fim, é exibida a marca do governo federal. O vídeo não foi divulgado oficialmente pelo Palácio do Planalto.

Em publicação na edição extra do Diário Oficial da União (DOU) de quinta-feira, 26, o governo federal publicou a contratação por R$ 4,9 milhões uma agência de publicidade sem licitação. A justificativa é "disseminar informações de interesse público à sociedade, por meio de desenvolvimento de ações de comunicação". A empresa contratada é a iComunicação Integrada.

Questionada, a Secretaria de Comunicação não informou se a campanha já foi elaborada por esta empresa e se haverá outras. Nesta sexta-feira, um grupo de parlamentares disse que vai ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a campanha.

O fim do isolamento e a suspensão de restrições às circulações de pessoas contrariam recomendações médicas e do próprio Ministério da Saúde no combate à propagação da covid-19. Especialistas apontam que a quarentena é uma das formas mais eficazes de se evitar a transmissão. Isso porque o contato com alguém contaminado é a principal forma de contágio do coronavírus e o isolamento da população é uma recomendação do próprio Ministério da Saúde, que segue as orientações da Organização Mundial da Saúde. A covid-19 já infectou quase 3 mil pessoas no País, com 77 mortes. No mundo todo, o número de mortos ultrapassa 15 mil.

A campanha do governo foi lançada dois dias depois de Bolsonaro convocar a rede nacional de TV e rádio na terça-feira, para defender a suspensão de medidas adotadas na maior parte do País no combate ao coronavírus. O presidente afirmou que autoridades estaduais e municipais "devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transporte, o fechamento dos comércios e o confinamento em massa". Também defendeu a reabertura das escolas, com o argumento de que o risco maior da doença é para idosos e pessoas com outras comorbidades (outras doenças). O argumento do presidente é de que o efeito destas restrições na economia do País será a de deixar milhões de desempregados.

O pronunciamento do presidente, em que voltou a minimizar a covid-19, tratando a doença como "gripezinha" e "resfriadozinho", deixou perplexos a comunidade médica e até mesmo aliados políticos.

A OMS já alertou que há risco da doença mesmo entre os jovens. "Vocês não são invencíveis. Esse vírus pode colocar você no hospital por semanas ou até matar. Mesmo que não fique doente, as escolhas que faz sobre onde ir podem fazer a diferença sobre a vida ou a morte de outra pessoa", afirmou na semana passada o diretor-geral do órgão, Tedros Ghebreyesus.

Especialistas também apontam o risco de um jovem contaminado com coronavírus, mesmo que não desenvolva os sintomas, possa transmitir o vírus para algum parente idoso, como pais e avós.

Na noite de quinta-feira, 26, em entrevista em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente voltou defender o fim do isolamento e disse que a reação negativa na internet envolveu cerca de 70% dos comentários. Bolsonaro afirmou, no entanto, que vai reverter essa imagem, mostrando que o povo foi "enganado" sobre a propagação do coronavírus.

Exemplo da Itália

Um dos países mais afetados pelo novo coronavírus, a Itália, inicialmente, também ignorou recomendações de isolamento da população após os primeiros casos confirmados do coronavírus. O dado mais recente do país europeu mostra que o número de mortos já ultrapassou 8 mil.

No dia 19 de fevereiro, 48 mil torcedores da Atalanta, time da cidade, foram a Milão ver a vitória por 4 a 1 contra o Valencia, da Espanha, pela Liga dos Campeões. Foi uma “bomba biológica", diria mais tarde o prefeito Giorgio Gori. No dia 27, a Confederação das Indústrias de Bergamo lançou um manifesto dizendo que tudo seguia normal. “Bergamo está funcionando”, dizia o vídeo.

Era um recado para os parceiros internacionais. Naquele momento, perto dali, na cidade de Codogno, o pesquisador Mattia, de 38 anos, seguia internado na UTI. Primeiro paciente da Itália diagnosticado com covid-19, ele estava em estado grave. Mesmo assim, as fábricas e o comércio da região permaneciam abertos - a cidade tinha então 103 casos. O próprio primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, dizia na ocasião que fechar as fronteiras do país “causaria danos econômicos irreversíveis e não era praticável”.

Todos tinham uma certeza: o país não podia parar. Naquele momento, a Itália tinha 650 infectados. Hoje são mais de 80 mil.

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Bolsonaristas fazem carreatas pedindo reabertura do comércio e fim do isolamento

Atos contra isolamento e pró-governo são registrados em capitais e no interior de São Paulo

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 15h08
Atualizado 27 de março de 2020 | 17h57

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro fizeram carreatas nesta sexta-feira, 27, pedindo a reabertura do comércio e o fim das medidas de isolamento tomadas pelo governo estadual como forma de combate ao novo coronavírus

Em São Paulo, a principal movimentação aconteceu pela Avenida 9 de Julho no início da tarde. Segundo entregadores de aplicativos que trabalham na região, eram cerca de 50 carros, vários deles com bandeiras do Brasil, tocando buzinas, entoando gritos de apoio a Bolsonaro e ofensas ao governador João Doria (PSDB). 

Alguns deles pediam o impeachment de Doria, conforme os relatos, e outros gritavam ‘o Brasil não pode parar’, tema da campanha criada pelo governo contra o isolamento decretado na maioria dos Estados. De acordo com os entregadores, alguns moradores da região foram às janelas de seus apartamentos e gritaram palavrões contra integrantes da carreata. Outros pediam ‘Fora Bolsonaro.’

Também houve carreata contra o fechamento do comércio no fim da manhã desta sexta-feira na Radial Leste, na região do Tatuapé, na zona leste da capital paulista. De carro, manifestantes anunciaram ser contra o fechamento do comércio. 

O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alfredo Cotait, criticou a manifestação. Segundo ele, a associação mantém o respeito ao decreto governamental. “Somos contra qualquer tipo de manifestação contrária à decisão governamental”. Cotait reforça que defende o diálogo entre as partes. “Somos a favor do diálogo para se chegar a uma flexibilização do decreto que restringe a abertura do comércio até 7 de abril”, disse. 

“Dentro do Estado de São Paulo, deveria ter uma flexibilização de cidade para cidade. Em locais onde ainda não há o risco, o comércio poderia funcionar, adotando as devidas cautelas sanitárias. E onde já há a proliferação do vírus, nos grandes centros comerciais, manter o fechamento. Ter uma ação diferenciada”, pediu.

Atos também no Interior do Estado

Também foram realizadas nesta sexta-feira, 27, manifestações pela reabertura do comércio em ao menos cinco cidades do interior de São Paulo. Em todas, houve aglomerações de pessoas, contrariando a determinação de evitar aglomerações das autoridades sanitárias.

Uma carreata organizada por comerciantes e autônomos pediu a reabertura do comércio, na manhã desta sexta-feira em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. O grupo de manifestantes se reuniu em frente ao prédio da prefeitura e saiu em carreata pela Avenida Andaló, uma das principais da cidade.

Os integrantes gritavam palavras de ordem contra a prefeitura e o governo estadual e empunhavam bandeiras do Brasil. A Polícia Militar acompanhou a carreata, que foi encerrada sem incidentes. O Movimento Cidadania Brasil (MCB), que normalmente convoca atos na cidade, divulgou nota informando que não convocou, nem participou da manifestação.

Em nota, a prefeitura informou que as medidas de contingenciamento para enfrentar o avanço do coronavírus foram tomadas de acordo com recomendação da Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e secretaria municipal. “A manifestação é livre em um regime democrático desde que seja realizada de maneira pacífica”, afirmou. A prefeitura informou ainda que, na segunda-feira, 30, já está prevista uma avaliação com lideranças empresariais para saber se há possibilidade de tomar alguma medida que penalize menos o comércio.

Em Franca, comerciantes se reuniram em frente à prefeitura e pediram a reabertura do comércio, fechado em razão da quarentena. Os manifestantes gritaram palavras de ordem contra o governador Doria. A Polícia Militar informou que, no período de maior concentração, o protesto reuniu 250 veículos, entre carros e motos.

Em Hortolândia, empresários e comerciantes, realizaram uma carreata com buzinaço contra a proibição temporária do funcionamento presencial do comércio não essencial. O comboio saiu da loja Havan, no Parque dos Pinheiros, e seguiu em direção à prefeitura, exibindo bandeiras do Brasil.

Em Bauru, um grupo de empresários realizou uma manifestação no aeroclube local, pedindo a flexibilização do decreto municipal que impede o funcionamento de setores do comércio e a indústria. Os comerciantes cobraram a abertura imediata do comércio. Houve carreata também em Fernandópolis.

Santa Catarina 

Na noite desta quinta-feira, algumas dezenas de motoristas fizeram uma carreata em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, estado onde o presidente teve o maior porcentual de votos. A manifestação, postada pelo próprio Bolsonaro em suas redes sociais, foi em comemoração à decisão do governador Carlos Moisés (PSL) de suspender o fechamento do comércio. Também houve carreata em apoio a Bolsonaro em Curitiba, sede da Operação Lava Jato.

Paraná

 

A carreata ocorreu no fim da manhã desta sexta-feira e contou com cerca de 200 empresários (todos com carros de luxo), pedindo a volta da abertura do comércio e o "isolamento vertical". A carreata começou na frente do estádio do Athletico Paranaense, que fica em bairro nobre de Curitiba, e passou pelo centro da cidade.

Tocantins

Mais de 100 empresários de pequeno e médio porte e autônomos da capital do Tocantins, Palmas, ocuparam as principais avenidas de Palmas na manhã desta sexta-feira em protesto pelo fim do isolamento social imposto por decretos do governo estadual e prefeitura. A mobilização terminou com os empresários tentando entregar uma carta para a prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro (PSDB) com as reivindicações do grupo, que se organizou fora de entidades como Associação Comercial de Palmas (Acipa) e da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL).

Rio Grande do Sul

Contrariando os decretos da Prefeitura de Porto Alegre, centenas de motoristas, insuflados pelas falas do presidente Jair Bolsonaro, saíram em carreata pelas ruas da capital gaúcha, nesta tarde, defendendo a reabertura do comércio e das atividades em geral. O encontro foi marcado para às 14h no Largo Zumbi dos Palmares, na região central da cidade. Com bandeiras e cartazes, os condutores pediam o fim da quarentena puxados pela #OBrasilNãoPodeParar. Alguns motoristas utilizavam máscaras para evitar o contágio do coronavírus. Um caminhão com um bandeira de Bolsonaro tomou, em parte, a dianteira da carreata. 

Espírito Santo

Cerca de cem comerciantes fizeram uma carreata pelas ruas de Vitória, capital do Espírito Santo, no início da tarde desta sexta-feira, 27. O objetivo da manifestação era pedir a reabertura do comércio não essencial, que está fechado por conta de um decreto estadual, publicado pelo governador Renato Casagrande (PSB), e de um decreto municipal, publicado pelo prefeito da capital Luciano Rezende (Cidadania) na última sexta-feira, 20. A manifestação cruzou toda a Avenida Beira Mar e terminou em frente ao Palácio Anchieta, sede do Executivo Estadual. /Ricardo Galhardo, Paulo Favero, Renata Okumura e José Maria Tomazela. Edson Fonseca, Lailton Costa, Lucas Rivas, Matheus Brum, especiais para o Estado

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A empresários, Maia reforça necessidade de isolamento: 'Liberar agora vai ser uma tragédia'

Presidente da Câmara dos Deputados diz que reza pela resistência dos brasileiros e avalia que adiamento das eleições de 2020 criaria "risco institucional"

Emilly Behnke e Camila Turtelli, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 14h51

BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), voltou a defender o isolamento durante o período de crise provocado pelo surto do novo coronavírus. Em evento com empresários do grupo Lide, ele citou o exemplo da Itália e falou em "tragédia" semelhante ao país europeu caso haja uma recomendação contra a quarentena. Ao comentar o adiamento das eleições, Maia disse que questão não é simples e que poderia causar um problema, já que juízes teriam que assumir os mandatos.

“O que vimos em países em que o isolamento acabou rápido foi uma tragédia. Vamos rezar para que a população brasileira tenha um nível de resistência maior que a de outros países”, disse o presidente da Câmara.

Maia destacou a necessidade de evitar o colapso do sistema de saúde. Ele demonstrou preocupação com as classes sociais menos favorecidas, que enfrentam dificuldades de manter o isolamento em residências com muitas pessoas.

Durante a conversa, empresários reclamaram da falta de agilidade do governo. Para Maia, é preciso união dos poderes públicos. "Nesse momento de crise, é ruim atropelar o outro", comentou. Ele sugeriu uma conversa entre as lideranças políticas do País.

"Vamos sentar todos numa mesa, presidentes [dos três Poderes], talvez um governador por região, para que a gente possa abrir um diálogo e construir algo com o que nos une e não com o que nos divide” afirmou.

Adiamento das eleições

Rodrigo Maia avaliou também que adiar as eleições municipais previstas para outubro deste ano não é uma questão simples ante a crise provocada pelo novo coronavírus. Segundo ele, haveria um "risco institucional muito grande" em adiar o pleito.

"Quem assumiria nas prefeituras seriam juízes, não os prefeitos", disse. Maia destacou que a população "vota por quatro anos e não por seis anos". "Isso precisa ser respeitado, no meu ponto de vista", afirmou.

Para o presidente da Câmara, o importante é focar nas medidas atuais de combate ao novo coronavírus e planejar o período pós-crise. "Vamos cuidar dos dois (próximos) meses, vamos garantir previsibilidade, vamos montar um planejamento para depois desse momento mais agudo para que a gente consiga colocar dinheiro para o setor produtivo voltar a produzir", defendeu.

Segundo Maia, uma vez que ocorra a injeção de dinheiro público e a liberação da população aos poucos do estado de isolamento, será possível retomar a economia e pensar nas eleições. "Acho que a gente passa a ter as condições (depois da retomada) de em um prazo de 30, 40 dias realizar as eleições", complementou.

 

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Mandetta defende igrejas abertas, mas não repete Bolsonaro sobre fim de isolamento

Ministro teve reunião por videoconferência com secretários de saúde e adaptou discurso, mas evitou conflito com o presidente Jair Bolsonaro

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 14h01

BRASÍLIA - Na primeira reunião com gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) após o presidente Jair Bolsonaro cobrar regras mais brandas contra o novo coronavírus, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), adotou um tom diferente e prometeu a secretários de Estados e municípios que tomará apenas decisões técnicas, baseadas em evidências científicas. 

Segundo pessoas que acompanharam a reunião, realizada por videoconferência na quinta-feira, 26, o ministro modulou o discurso ao de Bolsonaro, mas sem aderir a teses como do isolamento vertical, que atingiria apenas idosos e doentes crônicos. Mandetta, no entanto, defendeu a abertura de igrejas para cultos e orações. Ele teria dito que não se pode proibir que pessoas busquem conforto.

O ministro também não defendeu na reunião o uso da cloroquina, medicamento usado para o tratamento de doenças como malária e que, em pesquisas preliminares, também se mostrou eficiente no combate à covid-19. Mesmo sem resultados conclusivos, Bolsonaro tem feito propaganda da substância e determinou o aumento da produção em laboratórios públicos.

Como mostrou o Estado, Bolsonaro tenta impor uma narrativa para sair das cordas na gestão da crise provocada pelo avanço do coronavírus no País. Após ter feito um pronunciamento à Nação, em cadeia nacional de TV e rádio, criticando o fechamento de escolas e do comércio para combater a doença, o presidente conseguiu enquadrar Mandetta.

Sob pressão, em entrevista na quarta-feira, 25, o ministro admitiu que o modelo de quarentena adotado em boa parte do País não ficou bom e passou a suavizar o tom na defesa de medidas de restrições

Apesar de notar uma sutil mudança no discurso de Mandetta, quem esteve na reunião com secretários nesta quinta-feira afirmou “alívio”, pois o ministro não endossou plenamente o discurso de Bolsonaro, que atacou em rede nacional de TV governadores, chamou a covid-19 de "gripezinha" e repetiu que há muita "histeria".

Mandetta pediu atenção e cautela nas medidas de restrição de circulação, mas não pediu retomada de serviço. Segundo presentes, em nenhum momento ele citou o isolamento vertical, a nova bandeira de Bolsonaro. Também não se falou em abrir escolas, como pede o presidente.

Uma campanha publicitária batizada de "O Brasil não pode parar" foi lançada nesta quinta-feira pelo governo federal para defender a flexibilização do isolamento social adotado na maioria do País. A intenção do Palácio do Planalto é mostrar os efeitos de medidas como o fechamento de empresas na economia.

Na conversa com Mandetta, os secretários de Estados e municípios disseram que não interromperam todas as atividades, mas apenas o que consideram essencial para evitar o avanço da doença. Também ressaltaram que cada local está tomando medidas conforme o número de casos registrados.

Na leitura dos presentes, o ministro optou por adaptar o discurso ao de Bolsonaro, mas sem se comprometer com medidas como o isolamento vertical, reafirmando que todas as decisões serão feitas por critérios técnicos. A estratégia, para estas fontes, é evitar o conflito com o presidente para não desmoronar a ação de combate à covid-19 feita até aqui.

Respiradores

Uma cobrança dos secretários foi que nem todos os Estados receberam a parte combinada da primeira leva de kits para instalação de leitos móveis de UTI. O governo prometeu distribuir 540, no primeiro momento, dos 2 mil pacotes para montagem de leitos extras prometidos, sendo que cada unidade da federação teria no mínimo 10 leitos. Os equipamentos teriam sido entregues primeiro em locais com mais casos, como no sul e sudeste, mas gestores de outras regiões pediram o envio imediato para conseguir montar uma "reserva técnica". O ministro prometeu acelerar o envio.

Não houve ainda um acordo, mas secretários de Estados e municípios pedem para o governo federal fazer compras em larga escala, centralizadas, de respiradores. Os produtos seriam distribuídos conforme a demanda.

Os gestores argumentam que centralizar as compras no Ministério da Saúde evitaria um leilão entre Estados e municípios, o que só beneficiaria o fornecedor. Além disso, permitiria baixar os preços do produto, aproveitando o poder de compra do SUS. A ideia não é proibir que um Estado com poder de compra, como São Paulo, busque os próprios produtos. O governo federal só pede para ser informado sobre as aquisições, para evitar que um Estado acumule equipamentos, enquanto outro local, com mais casos, precisa do produto.

Edital

O Ministério da Saúde lançou na noite de quinta-feira, 26, edital para compra direta de 15 mil ventiladores pulmonares microprocessados com capacidade de ventilar pacientes adultos. A pasta chegou a elaborar uma versão prévia do edital prevendo a compra de outros 15 mil respiradores do tipo "eletrônico portátil", mas a versão final foi modificada.

Secretários também pediram para o Ministério da Saúde acelerar a compra e entrega de equipamentos de proteção individual, como luvas e máscaras. Uma sugestão é que o produto seja entregue por via aérea, inclusive com aviões da FAB, para contornar bloqueios em rodovias.

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