Presidência da República / Divulgação
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Entidades médicas rebatem fala de Bolsonaro e reafirmam necessidade de isolamento

Presidente passa à população 'falsa impressão' que as medidas de contenção social são inadequadas e que a Covid-19 é semelhante ao resfriado comum, diz Sociedade Brasileira de Infectologia

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2020 | 09h19
Atualizado 25 de março de 2020 | 21h20

O pronunciamento feito nesta terça, 24, pelo presidente Jair Bolsonaro em rede nacional contra medidas de isolamento da população para o combate ao coronavírus repercutiu de forma negativa no meio médico e científico. Entidades divulgaram notas rebatendo as falas do presidente e reforçando a necessidade de distanciamento social para conter a pandemia. 

Para a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Bolsonaro agiu de forma criminosa e se colocou como "inimigo da saúde do povo". Segundo a entidade, ao negar o  conjunto de evidências científicas que vem pautando o combate à pandemia em todo o mundo, desvalorizando o trabalho sério e dedicado de toda uma rede nacional e mundial de cientistas e desenvolvedores de tecnologias em saúde, o presidente comete o crime de “infração de medida sanitária preventiva”, estabelecido no artigo 268 do  Código Penal Brasileiro, que cita a necessidade de "determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa”.

Durante seu pronunciamento em TV e rádio, o presidente voltou a usar a palavra "histeria" para classificar as medidas de isolamento impostas por Estados e municípios em todo o País, como fechamento de comércios e restrições a locais públicos, como parques e escolas. Bolsonaro chegou a criticar diretamente o fechamento de escolas, sejam públicas e privadas, já que, segundo ele, apenas idosos podem sofrer consequências mais graves se contagiados.   

Apoiada por outras seis entidades, como a Associação Brasileira de Enfermagem e pela Associação Paulista de Medicina, a nota ressalta que o  "pronunciamento perverso pode resultar em mais sofrimento e mortes na já tão sofrida população brasileira, particularmente entre os segmentos vulneráveis da sociedade" e exige das instituições da República uma reação contra a postura do presidente.

Também por meio de nota, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) considerou a fala do presidente irresponsável e um desserviço à população. "Assistimos ontem estarrecidos ao pronunciamento do presidente da República em direção contrária às recomendações do próprio Ministério da Saúde, de organizações de saúde internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, de cientistas e de governos de todo o mundo. Em um momento crítico como este, esperávamos ouvir um pronunciamento do chefe de Nação que trouxesse medidas efetivas para o enfrentamento da pandemia, orientações bem fundamentadas, escoradas na experiência de outros locais, no conhecimento científico acumulado e nas instituições e profissionais da saúde."

Para a SBPC, o pronunciamento significou um desserviço às ações consequentes de enfrentamento do coronavírus que estão sendo sugeridas e implementadas pelo próprio Ministério da Saúde  "É preciso que os poderes constitucionais brasileiros assumam as suas responsabilidades e impeçam atitudes irresponsáveis, mesmo que da autoridade máxima da Nação, que colocam todo o País em risco. Esta conjuntura exige união da sociedade brasileira, lideranças firmes e responsáveis e que estejam à altura do momento, para se que se possa enfrentar com êxito uma pandemia que poderá trazer sérias consequências para o povo brasileiro."

Na mesma linha, a Sociedade Brasileira de Infectologia critica a classificação dada pelo presidente à doença: "resfriadinho" e se mostrou preocupada com a "falsa impressão" dada por ele de que as medidas anunciadas são inadequadas.

"Neste difícil momento da pandemia de Covid-19 em todo o mundo e no Brasil, trouxe-nos preocupação o pronunciamento oficial do presidente da República Jair Bolsonaro, ao ser contra o fechamento de escolas e ao se referir a essa nova doença infecciosa como 'um resfriadinho'. Tais mensagens podem dar a falsa impressão à população que as medidas de contenção social são inadequadas e que a Covid-19 é semelhante ao resfriado comum, esta sim uma doença com baixa letalidade. É também temerário dizer que as cerca de 800 mortes diárias que estão ocorrendo na Itália, realmente a maioria entre idosos, seja relacionada apenas ao clima frio do inverno europeu. A pandemia é grave, pois até hoje já foram

registrados mais de 420 mil casos confirmados no mundo e quase 19 mil óbitos, sendo 46 no Brasil", afirma o presidente da entidade, Clóvis Arns da Cunha. 

De acordo com a entidade, Bolsonaro acerta quando elogia o trabalho do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta,

e sua equipe, e também quando mostra-se preocupado com o impacto socioeconômico da pandemia, mas reforça que, "do ponto de vista científico-epidemiológico, o distanciamento social é fundamental para conter a disseminação do novo coronavírus, quando ele atinge a fase de transmissão comunitária", na qual o Brasil atualmente se encontra. Hoje, há casos registrados em todos os Estados.

Nesta quarta-feira, 25, o presidente voltou a defender suas posições contra o isolamento social, contrariando mais uma vez as recomendações médicas e sugeridas por integrantes de seu próprio governo, como o ministro da saúde e sua equipe. Em entrevista concedida na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro chegou a reclamar que caminhoneiros - parte de seu eleitorado -  não têm mais onde se alimentar com o fechamento de restaurantes nas estradas.

Outras associações também se manifestaram ao longo desta quarta-feira.  O Estado computou ao menos dez. 

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), por exemplo, considera "temerário" o discurso de Jair Bolsonaro. "Incentivar os brasileiros que têm a possibilidade de permanecer em casa a voltarem às ruas pode ter consequências trágicas. Ademais, é um desrespeito com os profissionais de diversas categorias — como médicos, enfermeiros, policiais, bombeiros, motoristas, entregadores, funcionários de mercados e muitos outros — que se expõem diariamente ao risco, por exercerem funções que não podem ser interrompidas", afirmou.

O presidente da Associação Paulista de Medicina, José Luiz Gomes do Amaral, disse ainda que se a intenção do presidente foi acalmar a população, a reação da sociedade mostra que ele não alcançou seus objetivos. "Você não traz esperança minimizando o problema, mas reforçando as soluções. Existe um perigo próximo, evidente, real e gravíssimo. Enfrentá-lo é prioritário. Todos nos preocupamos com o impacto do isolamento social na economia, particularmente o impacto da recessão sobre a saúde. Também isso não deve ser minimizado. Mas que não se deixe a preocupação com o futuro inviabilizar o presente.”

Já a Sociedade Brasileira de Hipertensão entende que o momento é crítico, e prudência e resguardo são as medidas mais acertadas para tentar conter a disseminação da pandemia. "Entendemos que o ineditismo da situação leva a uma grande insegurança das pessoas e trás um forte impacto na vida pessoal e profissional, mas sem essas medidas o impacto poderá ser muito maior. Este também é um momento de aprendizado e resiliência", disse a presidente Frida Liane Plavnik.

 

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