Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

‘O Brasil precisa discutir quem será o fiador das mortes’, diz Doria sobre Bolsonaro

Governador critica o presidente e campanha pela reabertura do comércio; ‘Quem será o fiador das mortes no Brasil

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 16h00
Atualizado 12 de abril de 2020 | 19h45

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), fez um discurso repleto de críticas ao presidente Jair Bolsonaro em resposta à campanha em defesa da retomada das atividades comerciais do País. “O Brasil precisa discutir quem será o fiador das mortes no Brasil”, disse Doria. O pronunciamento ocorreu durante vistoria das obras do hospital de campanha que está sendo construído no Estádio do Pacaembu.

Ainda durante a madrugada desta sexta-feira, 27, Doria registrou um boletim de ocorrência após receber telefonema com ameaças de morte, segundo informou o Palácio dos Bandeirantes. A segurança do governador foi reforçada e a Polícia Civil apura a origem da ameaça.

O governador paulista acusou o chamado “gabinete do ódio”, grupo de assessores que trabalha no Palácio do Planalto, de orquestrar a série de ameaças que disse ter recebido na noite de sexta-feira. Ele afirmou também “não ter medo” de Bolsonaro, citando pelos apelidos os filhos do presidente Flávio, Eduardo e Carlos.

Com tom de voz ríspido, Doria afirmou que a administração federal é formada por dois governos: um que acertava as ações de saúde e outro que não. “O Brasil precisa de união, não de ódio, não é hora fazer política, fazer campanha, propagar ideologismos.”

Ele afirmou que a recomendação pelo isolamento social vinha do próprio Ministério da Saúde e que há mais de 50 países adotando quarentena como estratégia contra a doença. “O mundo inteiro está errado e o único certo é o presidente Jair Bolsonaro?”, questionou o governador, para quem “o Brasil pode parar para lamentar a irresponsabilidade de alguns e a morte de muitos”. “Não é racional fazer política com a saúde e a vida das pessoas, especialmente as mais pobres.”

Doria também pediu atenção à cidade de Milão, na Itália, que teve uma campanha há algumas semanas contrária às ações de fechamento de bares e que, nesta sexta-feira, 27, se desculpou. “São 4.400 italianos mortos”, afirmou, para depois dizer: “A política que mata pessoas não salva economia.”

O governador afirmou ainda que caminhoneiros, que vêm divulgando vídeos com queixas às ações de isolamento, poderão usar os postos de pesagem nas rodovias do Estado como áreas de descanso.

Durante a agenda, ele divulgou repasses para a Prefeitura de São Paulo, que montou dois hospitais de campanha. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), também rebateu Bolsonaro, que disse que prefeitos e governadores deveriam ser cobrados pelo pagamento de encargos trabalhistas. “Estamos mais preocupados com o artigo 121 do Código Penal, que trata de homicídio”, afirmou Covas.

O Boletim de Ocorrência feito por Doria e registrado pela Delegacia de Operações Policiais Estratégicas (Dope) diz que “as ameaças foram dirigidas ao telefone celular do governador e davam conta, em tom ameaçador, de que atos seriam realizados em frente à sua residência pessoal”. Em nota, o Palácio dos Bandeirantes informou que “a Polícia Civil investiga o caso e o governador colabora com a investigação”.

Doria disse ter recebido “centenas” de mensagens na noite de anteontem após assistir ao Jornal Nacional da TV Globo. Depois, outras dezenas de telefonemas, que tratavam da invasão de sua casa. O governador classificou o episódio relatado à Polícia Civil paulista como uma “ação determinada não apenas por robôs como por instruções certamente partidas do dito ‘gabinete do ódio’ em Brasília, que nos últimos 15 meses só tem produzido conflagrações, atritos, bobagens, erros e instabilidade na vida do País”.

“(Vou) Aproveitar para dizer também para bolsomínios, bolsonaristas, ameaçadores, agressores como estes que estão aí fora gritando, que eu não tenho medo de cara feia, não tenho medo de zero um, zero dois, zero três, zero quatro, não tenho medo de Bolsonaro”, completou. Conforme Doria, a Polícia Civil está investigando o caso e monitorando os telefonemas e WhatsApp.

Doria virou um ‘papagaio de auditório’, diz Bolsonaro

 Em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, Bolsonaro reagiu às declarações do governador paulista. “Ouvi poucos segundos. Eu tenho o que fazer. Não vou ficar ouvindo esse cidadão aí dando entrevista, ele virou um papagaio de auditório. Está o tempo todo dando entrevista.”, afirmou. “No meu entender, São Paulo não está no caminho certo. A população já entendeu que ele exagerou na dose, espero que dê para ele um comprimido de humildade para ele poder conduzir esse Estado maravilhoso.”

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