Governo do Estado de São Paulo
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Governadores veem com ceticismo iniciativa do Planalto em criar comitê contra covid-19

Chefes dos executivos estaduais criticaram a iniciativa do presidente Jair Bolsonaro de criar um gabinete de crise; Doria chamou grupo de ‘adulação’

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 21h04

Os governadores não alinhados ao Palácio do Planalto receberam com ceticismo e criticaram a iniciativa do presidente Jair Bolsonaro de criar um gabinete de crise para combater a pandemia de covid-19. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), chamou a medida de “comitê de adulação”. Já o governador do Piauí, que é coordenador do Fórum de Governadores, inicialmente elogiou a proposta, mas depois mudou o tom.

A ideia foi apresentada nesta quarta-feira, 24, em Brasília, em um reunião com apenas sete governadores, sendo seis deles alinhados com o governo federal. O único oposicionista foi o governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), que foi como representante do Nordeste. Pela proposta, o comitê será coordenado pelo presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que marcou reunião com os 27 governadores para a próxima sexta-feira.

Após a reunião, Doria criticou duramente o encontro, em entrevista coletiva. O tom destoou das declarações públicas dos colegas, mas a fala do tucano ecoa a opinião de outros governadores ouvidos pela reportagem. “Este comitê não nos representa. Não fomos convidados e aquilo que representa a saúde e a necessidade de proteção à vida dos brasileiros de São Paulo deve ser tratado com o governador do Estado de São Paulo, e não com representante”, disse Doria. “O Brasil quer vacinação, não quer comitê de adulação.”

A expectativa é que essa iniciativa “caia no vazio”, segundo um representante do Nordeste ouvido pelo Estadão, porque na prática rebaixa os governadores, que teriam que dialogar com o presidente por meio de Pacheco. Doria, por sua vez, avalia que não faz sentido criar um grupo de trabalho sem a presença de representantes dos prefeitos, que são os responsáveis por aplicar a vacina na ponta do processo. Entidades ligadas aos prefeitos também reclamaram (mais informações na página A4).

Já o coordenador do Fórum Nacional de Governadores, Wellington Dias (PT), do Piauí, classificou inicialmente como “positiva” a criação de um comitê para coordenar as ações na pandemia. “O próprio presidente da República disse nesta reunião que quer ter semanalmente uma agenda. Outro grupo, com perfil mais técnico, vai acompanhar, sob a coordenação do presidente do Congresso”, disse. O governador petista também classificou como “importante” a posição do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que, segundo ele, prometeu trazer a ciência para dentro do ministério. Nenhum dos três governadores alvo da ação no STF apresentada pelo governo federal contra as medidas de isolamento estiveram na reunião em Brasília.

Cobrança

Após ser cobrado pelos colegas, Dias gravou um novo vídeo no começo da noite de terça. “Dialogando com os participantes (da reunião), eu, que comemorei em um primeiro momento a organização do comitê-covid, soube que infelizmente a informação real é que não tem participação de estados e municípios”, afirmou.”Como é possível tratar a pandemia se essa integração?”, questionou. Ele chamou de “terceirização do diálogo” o fato de Bolsonaro ter escolhido Pacheco como interlocutor. 

“Foi um passo para que exista a coordenação nacional que sempre desejamos. Espero que o presidente do Senado e o ministro da Saúde dialoguem com todos os governadores, sem discriminações ou exclusões. E que o pacto seja ampliado para abranger a participação de mais instituições”, afirmou ao Estadão o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

Em vídeo publicado em suas redes socais, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), disse que é “bem vinda” a mudança do presidente “em direção ao que é certo”. O gaúcho disse que a criação do gabinete de crise chegou com um ano de atraso, que o pronunciamento de Bolsonaro na TV foi “incoerente”, e que apenas os governadores “afinados ideologicamente” com o presidente foram chamados, mas em seguida contemporizou. “O Brasil não precisa ficar no confronto político e precisa da mudança de posicionamento do presidente”, afirmou.

Há dez dias, Doria, Dias, Leite, Dino e o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), se reuniram para elaborar uma estratégia em relação ao governo federal. A ideia original era criação de um comitê que incluísse representantes dos prefeitos, secretários estaduais e municipais de Saúde, Butantan e Fiocruz. O modelo não prosperou. / COLABOROU DANIEL WETERMAN

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