Ex-presidente do STM diz esperar 'severa apuração' sobre defesa de golpe de Estado

Blogueiro bolsonarista pediu a coronel chefe da Ajudância de Ordens da Presidência 'intervenção militar'; oficial comparou manifestantes contra governo a 'terroristas'

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 09h03

Caro leitor,

O tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, chefe da Ajudância de Ordem da Presidência, tem boas razões para manter conversas com o blogueiro Allan dos Santos, um expoente do movimento bolsonarista que defende um golpe de Estado das Forças Armadas contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso. E elas não têm relação com a defesa de um suposto Poder Moderador, rejeitado por generais como Carlos Alberto dos Santos Cruz, Adhemar da Costa Machado Filho e Francisco Albuquerque. É que Cid e sua família têm um histórico de convivência com o presidente Jair Bolsonaro desde os anos 1970.

Seu avô, o coronel Antonio Carlos Cid, um artilheiro da turma de 1955 da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), trabalhou na Casa Militar sob as ordens do general Bayma Denys, durante o governo de José Sarney. Anos antes, ele ajudara o então cadete Bolsonaro em um momento importante. Conta um general ouvido pela coluna que o presidente se indispôs com um oficial médico na Aman, e o episódio só não teve consequências mais graves porque o avô do ajudante de ordens interveio.

Isso aconteceu porque Bolsonaro era colega de turma de um dos filhos militares do coronel – o futuro general Mauro Cesar Lorena Cid, pai do assessor do presidente. O general e o chefe do Executivo pertencem à mesma turma – a de 1977 – da Aman. Ambos são artilheiros, paraquedistas e serviram no 8.º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista.

O general, assim como o filho, pertenceu às "forças especiais", aquele pessoal do Exército que se parece com o Rambo. Em 2008, comandava a 9.ª Brigada de Infantaria Motorizada quando apresentou, em nome da Força, desculpas às famílias de três jovens do Morro da Providência, no Rio, entregues por militares da brigada a traficantes do Morro da Mineira, que os mataram. Seu último cargo na ativa foi a chefia do Departamento de Educação e Cultura.

Ao passar para a reserva em 2019, em vez de ir ocupar um lugar na Esplanada, o general Cid ganhou uma sinecura em Miami (EUA) – ele é o representante da Agência de Promoção das Exportações (Apex), com salário pago em dólar (US$ 9,6 mil).  Ao todo, o general acumula vencimentos de cerca de R$ 80 mil (R$ 50,8 mil da Apex e R$ 30 mil como militar).  Os militares com supersalários da Apex não estão submetidos à regra do teto, que impede o servidor de receber mais do que um ministro do STF. Se Bolsonaro faz até chover – como afirmou o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) –, é na horta de militares que a fartura se multiplica.

 


Neto do coronel Cid e filho do general Cid, o então major Cid foi logo nomeado em 2019 chefe da Ajudância de Ordens da Presidência por Bolsonaro. Desde então se dedicou a filmar o presidente para divulgar as imagens nas redes sociais de Bolsonaro. Em março, esteve na comitiva que acompanhou o presidente aos Estados Unidos e, a exemplo do chefe imediato, o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional, o GSI), contraiu a covid-19.

O ajudante de ordens devia ficar em quarentena, mas, seguindo os exemplos de Heleno e de Bolsonaro, decidiu desrespeitar a orientação médica. Em uma paradinha no Palácio do Alvorada, o então major Cid serviu de escada para o presidente, que o instou a declarar como se “sentia bem” para endossar a versão de que o novo coronavírus não afeta os jovens e saudáveis. O oficial não viu nenhum mal nisso.

Pois agora se sabe que, além da covid-19, o tenente-coronel Cid também se viu envolvido em outra das confusões do bolsonarismo: a organização de atos antidemocráticos, um crime definido pela Lei de Segurança Nacional. O oficial foi ouvido pela Polícia Federal, ainda que como testemunha, para esclarecer  o conteúdo de mensagens trocadas por ele com o blogueiro Allan Santos, aquele que uma vez disse que a masturbação matava neurônios e agora quer provocar extravagâncias do Poder Militar... 

Em depoimento prestado na sexta-feira, dia 11, Cid declarou à PF que não se recordava de “ter estabelecido” conversas com Allan sobre a “necessidade de intervenção das Forças Armadas” e negou apoiar a ideia. Os investigadores passaram ler as dezenas de mensagens do oficial para lhe refrescar a memória. No dia 1.º  de junho, após o blogueiro enviar um link sobre manifestações de grupos antifascistas contra o governo, o militar respondeu: “Grupos guerrilheiros/terroristas. Estamos voltando para 68, mas agora com apoio da mídia”.

O blogueiro então escreveu:  “As FFAA (Forças Armadas) precisam ENTRAR URGENTEMENTE”. E o tenente-coronel retorquiu com um “Opa!”. Escreveu então o Blog do Fausto: “Questionado sobre a declaração, Mauro Cid disse que o seu ‘Opa!’ era ‘apenas uma saudação, como, por exemplo, Bom dia!’.” Ao ler a reportagem, um coronel, também artilheiro como toda a família Cid, disse: “De toda a reportagem, o mais grave é o ‘opa’. Todos sabemos no meio que opa é sinal de concordância”.

O ajudante de ordens do presidente se refere aos críticos ao governo como terroristas de 1968. Como se sabe, a solução encontrada pelos militares naquele ano foi o AI-5, aquele mesmo ato que Eduardo Bolsonaro queria reeditar. Os autoritários de todos os matizes sempre chamaram seus adversários de terroristas. Assim os acusados eram chamados nas troikas – as infames comissões que Stalin criou para executar seus opositores durante o Grande Terror, de 1936-1938. Assim também o nazifascismo classificava os que se lhe opunham. E os fazia desaparecer, depois de presos pela Gestapo nas Nacht-und-Nebel-Aktionen ( As Operações Noite e Neblina).

A PF ainda não fez nenhum juízo sobre a conduta do tenente-coronel. E nem é certo que o faça – ele é apenas uma testemunha.  O ex-presidente do Superior Tribunal Militar (STM), brigadeiro Sérgio Xavier Ferolla, lembrou à coluna que, em tese, qualquer oficial que "cometa possível crime como membro da equipe palaciana deverá responder por ele frente à Justiça Federal". "Após o julgamento, caberá à Justiça Militar analisar as decorrências no âmbito da caserna, para específico julgamento e sanções adequadas." É assim que as coisas devem funcionar.

Um outro órgão, porém, deveria se interessar pelas conversas políticas do tenente-coronel durante o serviço no Planalto: o GSI. A não ser que o gabinete comandado pelo general Heleno acredite que o Estatuto dos Militares e o regulamento disciplinar são peças de museu ou apenas aplicáveis a militares críticos ao governo. E devia fazer isso até mesmo para que o oficial tenha a oportunidade de se explicar. É o GSI o responsável pela conduta do militar que está agregado. Enquanto isso, oficiais democratas, como o brigadeiro Ferolla, assistem a tudo com um único desejo: "No caso presente, espera-se severa apuração pela PF".

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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