Pixelcut/Pixabay
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Em reação a desinformação sobre coronavírus, plataformas apagam postagens de base pró-Bolsonaro

Desde o ultimo dia 16, Twitter, Facebook e YouTube aumentaram cuidados com postagens sobre a pandemia; no mesmo período ocorreram remoções de conteúdo de influenciadores importantes que apoiam governo

Tiago Aguiar, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 19h36

Nesta semana nas redes sociais, perfis da rede de apoio do presidente Jair Bolsonaro e até do próprio governo tiveram conteúdos sobre o novo coronavírus apagados ou sinalizados como enganosos. Não foi conspiração ou coincidência: Twitter, Facebook e YouTube revisaram nos últimos dias seus critérios para retirar do ar publicações que tratam sobre a pandemia. 

No último dia 16, o Twitter passou a priorizar, nos seus critérios para retirada de postagens, descrição de medidas de proteção ineficazes, mesmo que não sejam diretamente prejudiciais. Na hierarquização também entraram publicações não estão de acordo com orientações oficiais.

Já o Facebook anunciou nesta terça-feira, 24, que irá incluir como critério de "dano físico" para remoção de conteúdo teorias conspiratórias sinalizadas a partir de organizações de saúde globais como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O YouTube anunciou, que desde ao menos a sexta-feira, 20, aumenta a visualização de autoridades oficiais e revisa com mais prioridade qualquer produtor de conteúdo sobre o tema, seja para diminuir o alcance, ou para permitir a monetização de vídeos.

Base pró-Bolsonaro

A intensificação das medidas coincidiu com o tom conspiratório de parte da base do governo nas redes, que levou a ações concretas pelas empresas.

No último sábado, 21, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) publicaram vídeo antigo de Drauzio Varella sobre o coronavírus, com orientações distintas da que o médico deu nesta semana, sem indicar a desatualização. Os vídeos foram deletados do Twitter.

Nos últimos dois dias mais duas ações parecidas: nesta segunda-feira o Twitter apagou postagens do influenciador bolsonarista Allan dos Santos, em que ele repetia argumentos apresentados por Olavo de Carvalho em vídeo retirado do ar pelo YouTube ainda no próprio dia de publicação, domingo, 22.

Mesmo sem conteúdo falso, quando influenciadores ainda focavam apenas em críticas ao governo chinês e à cobertura da imprensa parte de um fenômeno já identificado por pesquisadores de redes sociais. Um estudo elaborado pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV-DAPP) mostra que entre o dia 12 e 17 deste mês, a base pró-Bolsonaro no Twitter perdeu metade do espaço na rede no debate sobre coronavírus.

Outro levantamento da FGV-DAPP encontrou fenômeno complementar no YouTube: entre os 15 vídeos de maior impacto sobre o coronavírus, no período de 17 a 23 de março, apenas dois não foram feitos por canais oficiais de portais jornalísticos. O instituto tem verificado aumento de tendência positiva do alcance da imprensa para a propagação de informações sobre a pandemia nas três redes sociais 

Jornalistas colaborando

Jornalistas também colaboram para combater a desinformação. A International Fact Checking Network (IFCN) – rede de checadores da qual o Estadão Verifica faz parte -, iniciou a coalizão CoronaVírusFacts. Desde janeiro, mais de 800 verificações sobre a pandemia foram feitas por veículos de 45 países.

Cristina Tardáguila, diretora-adjunta da IFCN e coordenadora da coalizão, conta que versões distintas das mesmas teorias e postagens falsas aparecem em vários idiomas. "A globalização também se aplica à desinformação. É comum vermos um mesmo boato pipocar em diversas partes do planeta em questão de minutos. Não há fronteiras para a desinformação. Daí a importância de expormos ao máximo o trabalho exaustivo dos checadores" afirma Cristina.

Cristina avalia que as pessoas que negam ou minimizam a pandemia não devem ser tratados como palhaços pelas plataformas. "Esse grupo, que não é exclusividade do Brasil, é extremamente perigoso. Não estão ignorando somente os fatos, mas a dor de milhares de pessoas", diz.

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