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Bolsonaro muda tom de pronunciamento, volta a citar OMS e é alvo de panelaço

Na TV, presidente diz que doença não pode causar mais desemprego, mas não fala em fim de isolamento; discurso é acompanhado por protestos

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 20h37
Atualizado 02 de abril de 2020 | 15h32

BRASÍLIA – Em mais uma tentativa de sair do isolamento político, o presidente Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira, 31, novo pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV e disse que o efeito colateral do coronavírus não pode ser pior do que a própria doença. O discurso do presidente foi novamente acompanhado por panelaços em vários pontos do País. 

Sob pressão de seus ministros mais próximos, Bolsonaro baixou o tom e pôs a preocupação com a “vida” no mesmo patamar que o “emprego”. Pediu, ainda, a união do Parlamento, Judiciário,  governadores e prefeitos para enfrentar a pandemia. ​Diferentemente do pronunciamento feito na semana passada, porém, Bolsonaro não defendeu explicitamente o fim do isolamento social, medida considerada como mais eficaz no combate à Covid-19. “Não me valho dessas palavaras para negar a importância de medidas de prevenção e controle contra a pandemia”, disse.

“Temos uma missão: salvar vidas sem deixar para trás os empregos. Por um lado, temos que ter cautela com todos, principalmente com os mais velhos. Por outro, temos que combater  desemprego que cresce rapidamente. Vamos cumprir esta missão ao mesmo tempo em que cuidamos da saúde das pessoas”, completou o presidente. “Infelizmente, teremos perdas neste caminho.” O pronunciamento foi ao ar no mesmo dia em que o País registrou 42 mortes por coronavírus em apenas 24 horas – recorde para um mesmo dia. Já são 5.717 casos confirmados.

Uma semana após ter tratado a pandemia como uma “gripezinha”, Bolsonaro distorceu,na TV e mais cedo, em uma entrevista, uma declaração do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Gheybresus, para defender o fim da quarentena e dizer que está certo na condução da crise. “Como disse o diretor-geral da OMS: todo indivíduo importa. Ao mesmo tempo, devemos evitar a destruição de empregos, que já vem trazendo muito sofrimento para os trabalhadores brasileiros”, disse no pronunciamento.

Bolsonaro tem mostrado instabilidade emocional nas conversas com interlocutores e avalia que, se as atividades não forem retomadas logo e a economia não reagir, seu governo terá acabado, porque o Brasil vai quebrar. Ao longo do dia, Bolsonaro já havia recorrido a declarações do diretor-geral da OMS. Ao defender o retorno ao trabalho, o presidente argumentou que Tedros também tinha tomado essa direção, mas acabou sendo desmentido horas depois pela autoridade da OMS. Pela manhã, o presidente disse que o diretor-geral da OMS tinha dito que os empregados informais “têm que trabalhar” na crise. Ao contrário do que ele sugeriu, no entanto, Tedros não fez relação entre trabalho e medidas de isolamento. O presidente também omitiu trecho do discurso em que o diretor-geral da OMS destacou a necessidade de governos de todo o mundo garantirem assistência aos mais vulneráveis.

Estadão Verifica:  Vídeo do diretor da OMS foi tirado de contexto para validar discurso de Bolsonaro

“Vocês viram o presidente da OMS ontem?”, perguntou Bolsonaro a jornalistas. “O que ele disse, praticamente... Em especial, com os informais, tem que trabalhar. O que acontece? Nós temos dois problemas: o vírus e o desemprego. Não podem ser dissociados. Temos que atacar juntos”, insistiu. Bolsonaro lembrou que chegaram a chamá-lo de “genocida”. “Eu sou genocida defendendo o direito de você levar um prato de comida para casa”, disse ele.

Quando chegou ao “púlpito” instalado diante do Palácio da Alvorada para falar com a imprensa, o presidente carregava folhas de papel sulfite com um texto escrito a mão, que citava o discurso de Tedros. Questionado sobre a necessidade da quarentena defendida por Mandetta, ele se irritou com os repórteres. Um apoiador passou, então, a criticar os jornalistas com xingamentos. Instado a continuar a responder, o presidente estimulou seus simpatizantes a hostilizar a imprensa e mandou que os repórteres ficassem quietos. Diante dessa atitude, os jornalistas se retiraram.

O discurso de Tedros ao qual Bolsonaro se referiu destacava que cada país é diferente e pregava proteção econômica aos mais necessitados. O chefe da OMS, que nasceu na Etiópia, pregou solidariedade e afirmou que as ações governamentais devem considerar as pessoas mais vulneráveis “porque todo indivíduo importa”. 

Diante da polêmica, Tedros postou uma mensagem nas redes sociais dizendo que em nenhum momento se posicionou contra medidas de isolamento. “Pessoas sem fonte de renda regular ou sem qualquer reserva financeira merecem políticas sociais que garantam a dignidade e permitam que elas cumpram as medidas de saúde pública para a Covid-19 recomendadas pelas autoridades nacionais de saúde e pela OMS”, escreveu ele.

Pela primeira vez, Bolsonaro admitiu, durante o pronunciamento, que não existe vacina ou remédio com eficácia comprovada contra o novo coronavírus e defendeu a necessidade de se preservar ao máximo “a vida e os empregos”. “O vírus é uma realidade, ainda não existe vacina contra ele ou remédio com a eficiência cientificamente comprovada. Apesar da hidroxicloroquina parecer bastante eficaz. O coronavírus veio e, um dia, irá embora”, afirmou. 

Bolsonaro escala Moro para entrevista sobre conoravírus 

Acuado, Bolsonaro procurou afastar comentários de que está em confronto com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, a quem já chamou de “egoísta” por não defender o governo, como revelou o Estado. À tarde, após reunião ministerial, ele escalou Moro e o ministro da Economia, Paulo Guedes - que andava sumido - para uma entrevista coletiva, no Palácio do Planalto.

Os dois apareceram ao lado do chefe da Casa Civil, Braga Netto, e do titular da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que vira e mexe é desautorizado pelo presidente. Durante a entrevista, Braga Netto passou várias vezes uma “cola” para os ministros,  com informações  sobre o que deveria ser dito distribuídas em pequenos bilhetes.

Apesar da estratégia construída novamente pelo Planalto para unificar o discurso, Mandetta desmentiu Bolsonaro e negou que a OMS tenha defendido o retorno imediato das pessoas ao trabalho. “Nós vamos trabalhar com o máximo de planejamento. E, no momento, nós vamos fazer, sim, o máximo de distanciamento social, o máximo de permanência dentro das nossas residências (...) para que a gente possa chegar ao momento de falar ‘estamos mais preparados e entendemos aonde vamos’”, disse o ministro da Saúde. “Precisamos lançar camadas de proteção, especialmente para os mais frágeis”, endossou Guedes. 

O Congresso aprovou o pagamento de R$ 600 mensais para que trabalhadores informais fiquem em casa no período de pico da doença. A lei que oficializa o benefício, porém, ainda não foi sancionada por Bolsonaro e a falta de agilidade nos pagamentos tem despertado críticas. Guedes tampouco deu indicação de quando o dinheiro começará a ser liberado. Até agora, a pandemia provocou 201 mortes no Brasil, que tem 5717 casos confirmados.

Panelaços

Assim como na semana passada, o discurso do presidente  Bolsonaro desta terça-feira foi seguido de panelaços em ao menos 12 cidades do País: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Natal, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Belém, Curitiba e Florianópolis.  A hashtag (palavra-chave) #panelacocontrabolsonaro era o segundo assunto mais comentado do Twitter no Brasil por volta das 21h. 

Em São Paulo, aos gritos de “Fora Bolsonaro”, manifestantes bateram panelas em todas as regiões da cidade. Há relatos de protestos em bairros como Vila Mariana, Barra Funda, Cidade Tiradentes, Heliópolis, Bela Vista, Santo Amaro, República, Santa Celícia, Pinheiros Jardins.

Em Brasília, moradores relataram manifestações na Asa Sul e Asa Norte.

Um intenso protesto por meio de panelaço e gritaria ocorreu em vários bairros do Rio de Janeiro e em Niterói, na Região Metropolitana.

As manifestações também ocorreram em todas as regiões da capital, pelo menos nos bairros de Ipanema, Copacabana, Leme, Botafogo, Flamengo, Glória, Laranjeiras, Cosme Velho e Jardim Botânico, na zona sul, Cachambi, Tijuca e Grajaú, na zona norte, e Barra da Tijuca, Praça Seca e Freguesia, na zona oeste.

Em Niterói, ao menos no Ingá, bairro da zona sul, houve protestos. Além das panelas, foram usadas buzinas e até rojões, além de gritaria de várias palavras de ordem, como “Bolsonaro assassino”. Na rua Rodolfo Dantas, em Copacabana, um defensor solitário de Bolsonaro gritava “vai bater panela na puta que pariu”, e acabou levando mais gente a se manifestar contra ele.

Em Natal, no Rio Grande do Norte, moradores relataram panelaços nos bairros Capim Macio, Petrópolis, Tirol e Vila de Ponte Negra

Na capital baiana, Salvador, foram ouvidos panelaços em Pituba, Nazaré, Matatu, Imbuí, Macaúbas, Vila Laura, Itaigara e no bairro da Graça

Em Fortaleza, as manifestações contra o presidente ocorreram em diversos bairros. Benfica, Guararapes, Varjota, Meireles e Damas foram alguns. 

A capital mineira, Belo Horizonte, teve panelaços e gritos de "Fora Bolsonaro" em ao menos cinco locais: Ipiranga, Coração Eucarístico, Carmo, São Lucas e no Centro.

Nas redes sociais, moradores relataram panelaços em Recife, capital de Pernambuco. Além de "Fora Bolsonaro", houve gritos de "Ditadura nunca mais" e "Bolsonaro assassino". Ao menos cinco bairros tiveram panelaços: Graças, Ibura, Boa Viagem, Mangabeira, Casa Amarela e Jaqueira.

Moradores de bairros de Porto Alegre também se manifestaram durante e após o pronunciamento do presidente. Rubem Berta, na Zona Norte, e os bairros nobres Menino de Deus e Bom Fim tiveram panelaços.

Em Belém, moradores dos bairros Marco, São Brás, Cidade Velha e Batista Campos também registraram protestos.

Em Curitiba, a bateção de panelas foi acompanhada de gritos de "Fora Bolsonaro", "Fora assassino" e "Fora fascista". Além do centro, houve protesto nos bairros Pinheirinho, Água Verde e Batel.

O centro de Florianópolis e os bairros Coqueiros, Estreito e a Avenida Beira Mar Norte também bateram panelas contra Bolsonaro.

Fim do isolamento

Na contramão do que defende o ministério da Saúde e a OMS, o presidente está tentando afrouxar as medidas de isolamento para o combate ao novo coronavírus. No último domingo, 29, um dia após o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, pedir para não menosprezar a gravidade da pandemia do novo coronavírus em suas manifestações públicas, Bolsonaro foi às ruas de Brasília e causou aglomerações ao visitar vários comércios locais ainda abertos. A atitude, de acordo com especialistas, pode enquadrar o mandatário no artigo 268 do Código Penal ou na Lei de Responsabilidade

Apesar da tensão com o ministro da Saúde, Bolsonaro indicou nesta terça que Mandetta vai continuar no cargo. “Comigo ninguém vai viver sob tensão, está bem o Mandetta”, disse Bolsonaro.

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