Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Eduardo Leite: 'Talvez o melhor candidato (para 2022) esteja até fora do PSDB neste momento'

Governador do Rio Grande do Sul não descarta prévias tucanas e diz que partido precisa construir um projeto antes de definir quem vai representá-lo na próxima eleição presidencial; leia a entrevista exclusiva

Entrevista com

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2020 | 14h56

Para o governador do Rio Grande do SulEduardo Leite (PSDB), seu partido ainda não tem um nome definido para a disputa da Presidência da República em 2022, ainda que o governador paulista João Doria (PSDB) encabece a corrida contra os planos de reeleição de Jair Bolsonaro.

Em entrevista ao Estado, Leite não descarta prévias e diz que o partido deve primeiro construir um projeto para só depois se preocupar em quem vai representá-lo - até um nome de fora do partido é visto como uma possibilidade. "É natural que Doria seja um possível candidato, mas as circunstâncias de 2022 é que vão dizer o que o País está buscando. Talvez o melhor candidato esteja até fora do PSDB neste momento, talvez o PSDB possa apoiar alguém de fora. Por que não?"

O tucano é ligado à Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps) e seu nome foi citado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) ao lado do de Doria e do apresentador Luciano Huck, também ligado a movimentos de renovação política, como opções do "centro progressista".

Ao Estado, Leite se mostrou preocupado com as turbulências políticas que o Brasil enfrenta. Em sua avaliação, a postura bélica de Bolsonaro em relação ao Congresso e à imprensa "torna as coisas mais difíceis". Ele cita a experiência em seu Estado, em que conseguiu aprovar reformas, entre elas a da Previdência, e privatizações. "Convicções políticas fortes não demandam enfrentamento. E fizemos reformas profundas."

O senhor já falou que não acredita em reeleição. Como ficará a disputa pelo governo estadual em 2022 no Rio Grande do Sul?

Fui prefeito (de Pelotas) entre 2012 e 2016 e já era crítico da reeleição. Prefiro ajudar que o projeto tenha continuidade, mas com outra pessoa. Em Pelotas, ajudei a eleger minha vice-prefeita pela continuidade, mas com a troca do comandante. É positivo que isso possa acontecer também no Estado. Minha disposição é de não concorrer à reeleição.

E já pensa em ser candidato à Presidência da República?

Não, de forma alguma. Meu foco está em administrar o Estado. O foco é aquilo para o que fui eleito. Minha responsabilidade no cargo é enorme. Governar com olhos na próxima eleição é uma irresponsabilidade. Toda minha energia está aqui.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou que você, Doria e o apresentador Luciano Huck expressam o "reformismo do centro progressista"

É uma grande gentileza, mas isso não significa a minha candidatura. Ninguém é candidato de si mesmo, principalmente à Presidência. É uma situação em que o candidato atende a um chamado de um grupo de pessoas, de um projeto. Eu não procurava ser candidato ao governo do Estado quando deixei Pelotas. Mas houve um chamamento, um grupo de pessoas, do meu partido, que entendiam que eu poderia liderar esse projeto e eu atendi. Não acredito que esse chamado já esteja acontecendo em relação à 2022, nem acho que seja a hora.

Então o PSDB não tem candidato definido? Para muitos, essa pessoa é João Doria...

Não acho que tenha candidato definido. Doria, como é para qualquer governador de São Paulo, é um nome que desponta. É o maior Estado da nação em economia e população. É natural que Doria seja um possível candidato, mas as circunstâncias de 2022 é que vão dizer o que o País está buscando, qual o projeto. Primeiro, temos que discutir o projeto, depois as pessoas.

Em prévias dentro do partido?

Em algumas eleições, o PSDB fez prévias. O que eu acho é o seguinte: vamos focar em governar. A partir do momento adequado, talvez no próximo ano, vamos discutir do ponto de vista programático o que se pretende para a economia e para a gestão pública. E aí chegar no processo eleitoral buscando identificar o melhor candidato para representar esse projeto. Talvez o melhor candidato esteja até fora do PSDB neste momento, talvez o PSDB possa apoiar alguém de fora. Por que não?

O que acha que causou o resultado do PIB do primeiro ano do governo Bolsonaro? Brasil registrou crescimento de 1,1%, frustrando expectativas.

Ao longo do ano, talvez a demora no encaminhamento da reforma da Previdência, ou mesmo as turbulências políticas causadas pelo enfrentamento do governo com o Congresso tenham gerado em parte esse arrefecimento do ímpeto de investimento no País. O tumulto político que o País vive acaba prejudicando os investimentos, o emprego e retarda a melhoria da vida das pessoas. O investimento vem quanto menor for o risco. Tem que diminuir riscos, e o tumulto político oferece riscos. As pessoas veem uma agenda liberal, mas as turbulências políticas ameaçam colocar em prática essa agenda, já que ela precisa de aprovação no Congresso.

Como os embates do presidente Jair Bolsonaro com o Congresso e com a imprensa impactam nesse contexto?

Gera um ambiente que torna as coisas mais difíceis. Eu posso dizer da minha experiência. Sem enfrentamentos, fizemos privatizações, um novo código ambiental, aprovamos um orçamento que congelou repasses a outros Poderes, mudanças na previdência estadual, tudo sem turbulência política. Convicções políticas fortes não demandam enfrentamento. E fizemos reformas profundas.

O Rio Grande do Sul foi um dos primeiros Estados a conseguir aprovar mudanças na Previdência estadual. Como foi isso?

Há uma determinação desde a campanha. Eu falava que precisaríamos enfrentar o tema da previdência e das carreiras. Era um problema no Estado. E depois formamos uma base bastante ampla na Assembleia. Tratei o tema pessoalmente, conversei com todos os partidos, recebi cada deputado, fiz uma agenda intensa de diálogos, um grande esforço para que pudéssemos chegar no momento de apresentar os projetos com essa consistência de apoio na Assembleia.

Mas teve resistência e protestos, não é?

Não teve confusão, troca de socos, não teve gente armada, não teve que evacuar plenário nem teve tropa de choque dentro na Assembleia. Houve manifestação legítima de quem era contrário, mas sem confusão. Quando assumimos, fui a cada um dos sindicatos e falei das reformas, algumas que eles poderiam não gostar. De forma leal, levamos primeiro ao conhecimento dos sindicatos para saber o que poderia ser ajustado. Aí aguardamos, não a aprovação do sindicato, mas a opinião. Ouvimos antes de encaminhar. Houve manifestação com 10 mil pessoas na frente do palácio, greve deflagrada, mas sem confusões.

E qual sua avaliação desse movimento nacional pelas mudanças nas previdências estaduais? Muitas reformas estão sendo aprovadas, como mostra o Monitor da Previdência nos Estados do 'Estadão'.

É importante que todos aprovem. O ideal seria que na reforma federal os Estados estivessem contemplados em relação às idades mínimas, por exemplo. Qualquer desequilíbrio em um Estado da nação acaba levando a um chamamento à União para resolver e isso significa que os outros Estados vão pagar a conta dos Estados que não fizeram a lição de casa.

No ano passado, vários governadores se uniram em consórcios regionais. O senhor está no Cosud (Integração Sul e Sudeste). Como tem sido esta experiência?

Muito positiva. O Cosud é uma oportunidade de integração. Tem sido bastante produtivo  para debater os temas que estão na pauta nacional para nos posicionarmos e ajudarmos a orientar inclusive em âmbito de Congresso a deliberação de itens que fluem nas questões federativas. Temos afinidades econômicas, culturais, de setores produtivos. Respondemos por 70% da economia nacional e 60% da população, isso é relevante em termos de posicionamento.

Como as decisões do consórcio chegam a Brasília?

Fazemos uma carta aberta que é encaminhada às autoridades. Já enviamos ao presidente, aos presidentes das Casas legislativas, e individualmente fazemos nossa gestão junto a esses agentes. A partir do que discutimos em (encontro do Cosud em) Foz do Iguaçu (em fevereiro deste ano), por exemplo, falei com (Rodrigo) Maia (DEM-RJ, presidente da Câmara) para falar do Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica).

Por que se tornou necessária essa união de governadores em consórcios?

Pela afinidade de temas, podemos ajudar a orientar a política de investimentos do governo federal. Além disso, os Estados podem se juntar para fazer investimentos, parcerias. Trocas de experiências são muito válidas.

E politicamente?

É uma forma de articulação entre esses Estados para se posicionar politicamente nos temas de impacto da federação em defesa dos interesses das regiões.

E o senhor tem visto uma abertura do governo federal em relação a isso? Como tem sido a relação com o presidente?

Tem sido importante porque levamos o posicionamento comum dos governadores. Esse posicionamento é especialmente levado ao Congresso, onde se tomam as decisões. Com a Presidência, não tem havido um tratamento mais direto. Com governo federal, de boa relação. Aqui no (encontro do Cosud no) Sul, participaram também o secretário Salim Mattar e o então presidente do BNDES Joaquim Levy. Agora em Foz, o ministro (da Justiça, Sérgio) Moro. Temos sempre a participação de figuras do governo federal, o que ajuda a promover integração e aproximação.

Os 27 governadores têm um grupo do Fórum de Governadores no WhatsApp. Como tem sido?

É um instrumento de trabalho. Uma tecnologia que permite essa aproximação para debater temas comuns a todos. Mas não é fácil. Às vezes, a conversa fica truncada. Neste momento, tenho 30 mensagens não lidas. Se ali tiver um debate, eu posso já ter perdido o fio. É uma forma interessante de estarmos rapidamente prontos para tomar um posicionamento sobre alguma coisa.

Como são as coisas por lá? Mandam mensagem de madrugada, textão, foto com mensagem de "bom dia"?

Tem mensagens de aniversário, o pessoal manda. Mas é um instrumento de trabalho. Não tem mensagem de bom dia, essas coisas. Isso eu reservo para o grupo das minhas tias. No grupo dos governadores, temos várias visões ideológicas de vários Estados com realidades distantes. É difícil construir consenso, mesmo assim tiramos decisões em comum. Há um respeito grande entre os governadores. Antes das diferenças políticas, quando você ocupa o cargo de governador, a solidariedade entre os que ocupam a mesma função acaba falando mais alto. Camilo (Santana, governador do Ceará) recentemente recebeu mensagens de solidariedade e de prontidão dos colegas governadores em relação às dificuldades que ele passava por lá (motim de policiais militares).

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