Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Disputa no Recife opõe herdeiros de Arraes

João Campos e Marília Arraes, respectivamente bisneto e neta do ex-governador, estão em lados opostos na política

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2019 | 05h00

Correções: 29/12/2019 | 13h46

A disputa pela prefeitura do Recife no ano que vem deve colocar em lados opostos os dois principiais herdeiros políticos do ex-governador Miguel Arraes, que morreu em 2005. Filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto de Arraes, o deputado federal João Campos (PSB), de 26 anos, foi escolhido pelo partido disputar a capital pernambucana. Sua principal adversária no campo da esquerda é a deputada federal Marília Arraes, 35 anos, que é neta de Arraes e prima de segundo grau de João.

Depois da morte do pai em um acidente de avião na campanha presidencial de 2014, o deputado pessebista passou a ser visto como o herdeiro político do pai. Já Marília traçou outro caminho. O racha familiar aconteceu naquela disputa eleitoral, quando o PSB escolheu João Campos, então com 18 anos, para comandar a Secretaria Nacional de Juventude da sigla. Na ocasião, Marilia era do mesmo partido do primo e seu grupo também reivindicava o cargo.

Além da disputa interna, Marília discordou do que classificou de “guinada à direita” do PSB por ter apoiado o tucano Aécio Neves no segundo turno da eleição presidencial. “Eles queriam tirar o socialismo do partido. Então rompi e fiquei com Dilma”, disse a vereadora, que então se filiou ao PT.

Tanto João Campos como Marília evitam tratar a disputa como um racha familiar. “Política é uma coisa, família é outra”, disse o jovem deputado. Em 2018, João Campos recebeu 460.387 votos e foi o deputado federal mais bem votado da história de Pernambuco. Marília Arraes, eleita pelo PT, ficou em segundo lugar, com 193.108 votos.

Para “nacionalizar” o nome de João Campos, o PSB articulou com outros partidos de oposição e do Centrão a inclusão dele na CPI do Óleo. A pauta ambiental, aliás, foi a porta de entrada do filho de Eduardo Campos na política. Ele é uma das maiores apostas do RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), grupo suprapartidário criado pelo empresário Guilherme Leal, que foi candidato a vice de Marina Silva em 2010.

“João trouxe outros membros do PSB é uma importante fonte de inspiração para outros jovens. Ele desponta como uma importante liderança jovem”, disse Monica Sodré, coordenadora da RAPS.

Já Marília começou a carreira política no movimento estudantil da Universidade Federal de Pernambuco. Em 2008, ela tinha 24 anos quando se elegeu pelo PSB vereadora do Recife com 9.533 votos, sendo a parlamentar mais nova na 15ª legislatura. “Não havia essa conduta monarquista. Haviam divergências entre os grupos de Eduardo Campos, que teve uma trajetória própria, e Arraes”, disse. Quando governador, Miguel Arraes, de fato, nunca estimulou seus familiares a entrar na política. Pelo contrário.

Leilão. Em 2018, Marília era apontada como candidata natural do PT ao governo de Pernambuco, mas perdeu graças a um acordo nacional do partido com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - o petista, que estava preso em Curitiba e tinha visto sua candidatura à Presidência ser barrada pela Justiça, optou por apoiar o pessebista Paulo Câmara, que foi eleito e chamou o PT para seu governo.

Atualmente, a ala majoritária do PT pernambucano, comandada pelo senador Humberto Costa, defende a manutenção da aliança com o PSB, que tem cargos na administração estadual. Essa tese não agrada a Lula - o ex-presidente quer que o PT lance candidatos em todas as capitais.

Questionado sobre a chance de uma aliança do campo da esquerda em Pernambuco, João Campos lembra da proximidade do PSB com o PT local. “As esquerdas devem fazer uma discussão nacional pensando em 2022”, afirmou.

Correções
29/12/2019 | 13h46

Em 2018, Marília Arraes era apontada como candidata do PT ao governo de Pernambuco e não do PSB, como estava escrito na primeira versão deste texto.  A informação já foi corrigida. 

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