Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Damares decide demitir mulher de blogueiro preso em investigação sobre atos antidemocráticos

O 'Estadão' apurou que a orientação de assessores mais próximos de Bolsonaro é de que o governo faça uma 'limpa' nos ministérios e se afaste de apoiadores 'radicais'

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 13h35

BRASÍLIA - Por orientação do Palácio do Planalto, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, decidiu exonerar a secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da pasta, Sandra Terena. Ela é mulher do blogueiro Oswaldo Eustáquio, que chegou a ser preso por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) durante a investigação sobre o financiamento de atos antidemocráticos.

Segundo informou a assessoria da pasta, a demissão de Sandra faz parte de uma "reestruturação de cargos no ministério", sem dar mais detalhes. A exoneração deve ser oficializada no Diário Oficial da União nos próximos dias. 

Relatório parcial obtido pelo Estadão mostra que a Polícia Federal quer aprofundar as ligações entre o ministério comandado por Damares, Eustáquio e a extremista Sara Giromini. O objetivo é apurar se a contratação a mulher de Eustáquio e de Sara seria uma forma de "distribuir fundos" à suposta organização que instiga atos antidemocráticos.

O Estadão apurou que a orientação de assessores mais próximos de Jair Bolsonaro é de que o governo faça uma "limpa" nos ministérios e se afaste de apoiadores "radicais". A estratégia tem como objetivo desvincular o Palácio do Planalto das polêmicas causadas por estes apoiadores, principalmente as que envolvem o Judiciário e o Congresso, principais focos dos ataques de grupos bolsonaristas nas redes sociais.

Um assessor da Presidência e uma auxiliar de Damares, ouvidos em caráter reservado, disseram que Eustáquio perdeu espaço após se tornar alvo do inquérito no Supremo. Embora apenas sua mulher tivesse cargo no governo, ele sempre se colocou na linha de frente na defesa de políticas da atual gestão e de Bolsonaro.

Em depoimento à Polícia Federal, o blogueiro disse que “fez parte do governo executivo federal de transição do atual presidente da República até 31 de janeiro de 2019”. Procurado na época, o Palácio do Planalto não negou nem confirmou a informação.

Eustáquio foi detido em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, no dia 26 de junho. Segundo apurou o Estadão, investigadores identificaram risco de que ele pudesse fugir do País.

A Polícia Federal vê indícios do envolvimento de Eustáquio na promoção de manifestações, tanto em mídias sociais, quanto fisicamente, em movimentos de rua, para "impulsionar o extremismo do discurso de polarização e antagonismo, por meios ilegais, a Poderes da República (Supremo Tribunal Federal e Congresso Nacional)’. “Ele se inclui tanto no núcleo produtor de conteúdo, como se relaciona com os operadores de pautas ofensivas ao Estado Democrático de Direito”, sustenta a PF.

O blogueiro foi detido no mesmo inquérito que levou à prisão a extremista Sara Giromini, solta após dez dias de prisão provisória. Ela também trabalhou no ministério de Damares, mas foi exonerada no ano passado. Ambos são investigados por integrar núcleo de suposta organização criminosa que visa a obter ganhos econômicos e políticos com a divulgação e coordenação de atos antidemocráticos no País.

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