Marcos Corrêa/PR - 31/07/2021
Marcos Corrêa/PR - 31/07/2021

Bolsonaro volta a defender mudanças no sistema de votação e diz que não aceitará 'farsa'

Presidente está em Presidente Prudente, onde participou de passeio com motociclistas no interior de São Paulo e de evento em hospital, onde admitiu a possibilidade de 'problemas' no Ministério da Saúde

Fabrício de Castro e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 12h54
Atualizado 31 de julho de 2021 | 16h50

BRASÍLIA - Alvo de críticas após ter disseminado informações falsas sobre as urnas eletrônicas na última quinta-feira, 29, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender neste sábado, 31, a necessidade de mudanças no atual sistema de votação. Durante evento com motociclistas em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, ele defendeu "eleições limpas, da forma que o povo deseja".

"Não aceitaremos uma farsa", acrescentou Bolsonaro a uma plateia de apoiadores, sem fazer referência direta ao voto impresso. Na última quinta-feira, o presidente havia apresentado, durante transmissão ao vivo nas redes sociais, uma mistura de fake news, vídeos descontextualizados que circulam há anos na internet e análises enviesadas sobre números oficiais da apuração dos votos para atacar o atual sistema. Ao mesmo tempo, admitiu não ter provas, mas sim "indícios" de irregularidades.

Bolsonaro e seu grupo político defendem eleições com a impressão de comprovante em papel, como forma de garantir, segundo o presidente, que não haja fraudes — embora o sistema eletrônico não tenha apresentado fraudes desde quepassou a ser adotado, em 1996.

No evento de hoje, Bolsonaro disse desejar a democracia. Logo em seguida, qualificou a palavra utilizada ("democracia") ao acrescentar: "Mas repito, eleições democráticas". O esquema de segurança para a visita do chefe do Executivo custará mais de R$ 300 mil aos cofres públicos, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo

Nas últimas semanas, tanto Bolsonaro quanto os membros mais fiéis do governo têm intensificado as declarações em defesa da mudança do sistema de votação. Para a oposição e para analistas políticos, a estratégia busca abrir espaço para que Bolsonaro e seus apoiadores questionem uma eventual derrota na eleição presidencial de 2022.

Como o Estadão revelou na semana passada, o ministro da Defesa, general de Exército da reserva Walter Souza Braga Netto, mandou recado à cúpula do Congresso de que não haveria eleições sem voto impresso. O próprio presidente ameaçou: "Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições". 

Discurso religioso 

O presidente adotou tons messiânicos na fala e hoje e disse que o seu governo "acredita em Deus, respeita a família e rende homenagem a militares". Além disso, disse que "sabia que não seria fácil", mas que era preciso "mudar o destino do Brasil".

"Agradeço a Deus por minha vida. Este evento de hoje marca também nossa vida. Não existe satisfação maior para político que ser recebido desta forma em qualquer lugar do Brasil", afirmou o presidente. "Mais importante que a própria vida é a nossa liberdade", acrescentou.

Bolsonaro disse ainda que, na função de presidente da República, faz o que o povo quer que seja feito. "Tudo faremos para que nosso Brasil seja realmente uma grande nação", disse, sem dar detalhes a que se referia. "Não dou recado, apenas transmito o que recebo de vocês", acrescentou, também sem explicar a referência.

'Se aparecer algum problema na Saúde, vamos responsabilizar os culpados'

Na tarde deste sábado, Bolsonaro e o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, visitaram o Hospital Regional do Câncer de Presidente Prudente para oficializar o credenciamento do Sistema Único de Saúde (SUS) na unidade. Às vésperas da retomada das investigações da CPI da Covid, o presidente admitiu a possibilidade de "problemas" na pasta da Saúde, mas voltou a falar que não há nenhuma denúncia de corrupção no governo. Queiroga é formalmente investigado pela comissão.

"Pode ser que apareça algum problema no ministério dele (Queiroga), afinal de contas o orçamento diário dele são R$ 550 milhões. Não é fácil você coordenar, fiscalizar e executar esse recurso. Mas, repito, se aparecer algum problema, eu e Queiroga seremos os primeiros a colaborar com as investigações e chegar na responsabilização dos possíveis culpados", afirmou o presidente.

A CPI da Covid investiga um suposto esquema de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin, cujo contrato foi cancelado pelo Ministério da Saúde após o avanço das investigações no Senado. Os senadores suspeitam de favorecimento à empresa Precisa Medicamentos, que intermediou a negociação, e acusam Bolsonaro de ter cometido o crime de prevaricação por não ter determinado a investigação das denúncias. O governo nega as acusações e tenta conter o desgaste na CPI.

No mês passado, o ministério demitiu o diretor do Departamento de Logística da pasta, Roberto Ferreira Dias, após ele ser acusado de pedir propina para negociar vacinas. Agora, o grupo majoritário da CPI decidiu que vai solicitar o afastamento da médica Mayra Pinheiro, acusada de interferir nas apurações, da Secretaria de Gestão em Trabalho.

No evento, Queiroga declarou que Bolsonaro "interfere" no Ministério da Saúde, mas, para cobrar a execução das políticas públicas. A falta de autonomia dos ministros da pasta na pandemia de covid-19 é uma das linhas de investigação da CPI.

"As pessoas me perguntam: o presidente Bolsonaro interfere no Ministério da Saúde? A resposta é sim. O presidente interfere no Ministério da Saúde e em todos os ministérios porque ele cobra que os ministros trabalhem para que todos recursos públicos sejam revertidos em políticas públicas para a sociedade brasileira", disse Queiroga.

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