Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Bolsonaro decide manter Bebianno no governo, dizem aliados

Ideia do presidente é que Carlos Bolsonaro, seu filho, pare de interferir nas questões do governo

Tânia Monteiro, Renata Agostini e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 13h47

Interlocutores do presidente Jair Bolsonaro afirmam que ele decidiu atender aos apelos políticos e manter o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, no cargo. Ele está envolvido em suspeitas de desvios de recursos de campanhas do PSL e entrou em atrito com o filho do presidente, Carlos Bolsonaro. O presidente também decidiu fazer com que Carlos não interfira mais nas questões do governo. 

Bolsonaro ainda não conversou com Bebianno. A informação de sua permanência no governo foi dada a ele pelos colegas Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Carlos Alberto Santos Cruz (Secretaria de Governo). Ambos fazem parte do grupo que trabalhou para amainar a crise entre Bolsonaro e Bebianno e garantir a permanência do ex-presidente do PSL no governo. Bebianno, que foi chamado publicamente de mentiroso pelo presidente e seu filho Carlos, avisou que não pediria demissão, apesar da pressão, e que caberia a Bolsonaro tomar a iniciativa se quisesse.

Quanto a Carlos Bolsonaro, o acertado de que o filho do presidente será "controlado" a partir de agora causa desconfiança de que essa parte do acordo será realmente cumprida. Carlos tem feito ataques a membros do governo e chegou a divulgar o áudio de Whatsapp do pai para corroborar seu ataque a Bebianno, a quem chamou de mentiroso. 

A disputa entre Carlos e Bebianno é antiga. O ministro deixou vazar ainda na transição que o vereador integraria o governo, o que provocou críticas até mesmo de eleitores de Bolsonaro nas redes sociais condenando o nepotismo. Esse movimento tirou de Carlos a chance de despachar do Planalto. 

Onyx e Santos Cruz foram ao encontro de Bebianno após conversarem com o presidente sobre o caso. Como o Estado revelou ontem, preocupados com a ação dos filhos, que em vários momentos têm trazido diferentes crises para o governo e com a proteção que eles têm recebido do pai, os "bombeiros" do Planalto entraram em campo.

Mais do que proteger Bebianno, esses interlocutores do presidente estão convencidos de que “é preciso estancar” essa ação dos filhos de Bolsonaro, que estariam prejudicando o País. Lembram que misturar família e governo nunca deu bons resultados e isso, mais uma vez, está sendo provado com seguidos episódios nestes menos de dois meses de nova administração.

Além das desavenças com Carlos, a tensão instalada entre Bolsonaro e Bebianno tem origem em suspeitas de financiamento de candidaturas laranjas pelo PSLA crise ocorre no momento em que o Planalto tenta manter coesão para as negociações da pauta de votação mais importante no Legislativo, a da reforma da Previdência.

Para Entender

A crise entre Bebianno e a família Bolsonaro em 7 pontos

Caso tem origem em suspeitas de financiamento de candidaturas laranjas e nas desavenças entre o ministro e o filho do presidente. Clique aqui e entenda a tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Secretaria-Geral da Presidência.

CRONOLOGIA DO CASO BEBIANNO

5 de janeiro de 2018

De olho nas eleições para o Planalto, o então deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) desistiu de se filiar ao PEN, que seria rebatizado de Patriota. A decisão foi vista como uma vitória de Gustavo Bebianno num duelo que se arrastava desde novembro com os irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro.

7 de março

Agora como pré-candidato ao Planalto, Bolsonaro se filiou ao PSL, presidido por Luciano Bivar (PE). Bebianno foi escalado por Bolsonaro para comandar o partido durante a campanha eleitoral. A contragosto dos filhos de Bolsonaro, Bebianno atuou para aproximar Julian Lemos, um militante da Paraíba, do comando da campanha e tornar o senador Magno Malta (PR-ES) candidato a vice na chapa presidencial. As negociações irritaram Carlos e Flávio.

Julho

Bebianno procura o presidente do PR, Valdemar da Costa Neto, para costurar uma aliança do partido com o PSL na disputa presidencial. Valdemar exigiu coligação proporcional em São Paulo, para reforçar a legenda e eleger mais deputados na onda de votos de Eduardo Bolsonaro. Eduardo se opôs.

15 de agosto de 2018

Flávio Bolsonaro foi convencido pelo pai a registrar o empresário Paulo Marinho, ligado a Bebianno, como suplente na sua candidatura ao Senado. E Carlos reclamou que Bebianno também atuou para impedir que disputasse uma cadeira na Câmara Federal pelo Rio. Com isso, o filho do presidente permaneceria como vereador e ficaria longe do pai numa eventual vitória nas eleições presidenciais.

21 de novembro de 2018

Durante o governo de transição, Bebianno antecipou o anúncio da escolha de Carlos Bolsonaro como chefe da Secretaria de Comunicação do governo (Secom), surpreendendo o filho do presidente que ainda estudava se a situação configurava nepotismo. No Twitter, Carlos afirmou que “não tem nada disso”. Em seguida, informou que deixaria o controle das redes sociais do pai.

6 de dezembro de 2018

O ‘Estado’ revelou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou em relatório “movimentações atípicas” de um ex-assessor de Flávio Bolsonaro. O filho do presidente reclamou ao pai que Bebianno não estaria atuando para estancar a crise.

17 de janeiro de 2019

O Supremo Tribunal Federal suspendeu as investigações sobre o relatório do Coaf contra Flávio no âmbito do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro. Bebianno teria atuado para que a Corte analisasse o caso mesmo no recesso. A decisão de recorrer ao Supremo foi vista como um erro no núcleo do governo. A partir daí, Flávio passou a apoiar Carlos na luta do irmão contra o ministro.

1º de fevereiro de 2019

Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi reeleito presidente da Câmara. A campanha dele à reeleição contou com apoio de Bebianno. Carlos e outro filho de Bolsonaro, Eduardo, deputado do PSL por São Paulo, eram contra a aproximação do Planalto e a candidatura de Maia.

12 de fevereiro de 2019

Em meio a denúncias de supostas irregularidades nas candidaturas do PSL, Bebianno disse ao ‘Globo’ que o caso não criou crise no governo e tinha conversado sobre o assunto com Bolsonaro – naquele momento internado. “Não existe crise nenhuma. Só hoje falei 3 vezes com o presidente”, afirmou o ministro.

No começo da tarde do dia 13, Carlos escreveu no Twitter: “É uma mentira absoluta de Bebianno que ontem teria falado 3 vezes com Bolsonaro”. Também postou: “Não há roupa suja a ser lavada! Apenas a verdade: Bolsonaro não tratou com Bebiano o assunto exposto pelo O Globo como disse que tratou”. Horas depois, Bolsonaro retuitou as mensagens. Numa entrevista à noite divulgada pela TV Record, o presidente disse que Bebianno poderia “voltar às origens” caso estivesse envolvido em irregularidades.

15 de fevereiro de 2019

Bebianno fica no governo. Interlocutores do presidente Jair Bolsonaro afirmam que ele decidiu atender aos apelos políticos e manter o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, no cargo. O presidente ainda não conversou com o ministro. A informação foi dada a Bebianno pelos colegas Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Carlos Alberto Santos Cruz(Secretaria de Governo).

Mais conteúdo sobre:
Gustavo BebiannoJair Bolsonaro

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.