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Bolsonaro cita Kalil e defende cloroquina em pronunciamento

Presidente faz referência ao diretor-geral do Centro de Cardiologia do Sírio-Libanês para defender tratamento considerado experimental

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 20h41
Atualizado 08 de abril de 2020 | 23h13

BRASÍLIA – No quinto pronunciamento em rede nacional de rádio e TV em um mês, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender na noite desta quarta-feira, 8, o amplo uso da cloroquina no combate à pandemia do coronavírus, embora ainda faltem estudos conclusivos sobre a eficácia do medicamento. Ele citou o exemplo do médico Roberto Kalil Filho, diretor-geral do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, que admitiu, também nesta quarta, ter tomado o remédio para se tratar da doença.

Depois de insistir no isolamento vertical (separação daqueles que estão no grupo de risco, como maiores de 60 anos e portadores de doenças crônicas), o presidente tem feito da defesa da cloroquina uma forma de disputa política e ataque a adversários – e no pronunciamento responsabilizou prefeitos e governadores pelas medidas que restringem a circulação de pessoas como forma de evitar a disseminação da doença. 

A fala de Bolsonaro, que durou quatro minutos, foi novamente acompanhada por panelaços nas principais cidades do País. Na mensagem, Bolsonaro disse que defende, há 40 dias, o uso do remédio desde a fase inicial da doença, em desacordo com o que prevê o Ministério da Saúde. A pasta indica cloroquina apenas para pacientes com quadro grave de saúde.

“Após ouvir médicos, pesquisadores e chefes de Estado de outros países, passei a divulgar, nos últimos 40 dias, a possibilidade de tratamento da doença desde sua fase inicial”, afirmou o presidente, citando o caso de Kalil. “Essa decisão poderá entrar para a história como tendo salvo milhares de vidas no Brasil. Nossos parabéns ao Dr. Kalil.”

Citado por Bolsonaro no pronunciamento, Kalil afirmou em entrevistas às rádios Jovem Pan e Bandeirantes que usou a hidroxicloroquina (variação da cloroquina) para tratar a covid-19, junto a outros remédios. Segundo ele, porém, não dá para dizer que o medicamento foi determinante para sua melhora. “Melhorei só por causa dela? Provavelmente não. Ajudou? Espero que sim. Tomei corticoide, anticoagulante, antibiótico”, disse.

No pronunciamento anterior ao desta quarta, Bolsonaro havia admitido a ausência de vacina ou remédio com eficácia comprovada contra o novo coronavírus.“O vírus é uma realidade, ainda não existe vacina contra ele ou remédio com a eficiência cientificamente comprovada. Apesar da hidroxicloroquina parecer bastante eficaz. O coronavírus veio e, um dia, irá embora”, afirmou. 

Mais cedo, em entrevista ao Datena, o presidente parabenizou Mandetta, por ter se convencido do uso da cloroquina, e disse que indicaria o medicamento até para sua mãe, hoje com 93 anos. “Se um irmão meu ligar, imediatamente, vai levar no médico e começar o tratamento (com cloroquina). Ela não pode esperar um dia a mais, caso contrário vem a óbito.”

Na segunda, 7, Mandetta afirmou ter sido pressionado por dois médicos a editar um protocolo para administração do remédio em pacientes da covid-19, após reunião com Bolsonaro. Ele se recusou alegando ausência de embasamento científico.

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro

Na fala desta quarta, Bolsonaro disse que seus ministros “devem estar sintonizados com ele”.“Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do País de forma ampla, usando a equipe de ministros que escolhi para conduzir os destinos da nação.”, afirmou o presidente.

O uso amplo da cloroquina também virou uma arma política na batalha entre Bolsonaro e os governadores. Em recente postagem no Twitter, o presidente desafiou o chefe do Comitê contra a covid-19 em São Paulo, Davi Uip, e também o cardiologista Roberto Kalil – que contraíram coronavírus – a dizer se haviam usado cloroquina no tratamento contra a doença.

O governador de São Paulo, João Doria, reagiu. “Peço respeito à medicina e aos médicos. Nossa guerra é contra o coronavírus. O ministro Mandetta vem cumprindo bem sua função como ministro da Saúde. Não faz sentido atacar o médico David Uip, pelo dito gabinete do ódio. E nem o doutor Roberto Kalil. Por favor, respeitem os médicos e a medicina, os enfermeiros, aqueles que estão doando seu conhecimento e dedicação para ajudar as pessoas a manterem sua saúde”, disse Doria. “O governador não precisa querer politizar assunto da cloroquina”, rebateu Mandetta.

No pronunciamento, Bolsonaro também voltou a responsabilizar governadores e prefeitos por medidas que restringem a circulação de pessoas, como fechamento de comércio e escolas. “O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude ou duração”, disse o presidente, que tem defendido manter o isolamento apenas para idosos e pessoas com doenças crônicas. Na fala em cadeia nacional, porém, adotou um tom mais ameno ao dizer “respeitar a autonomia” dos chefes dos Executivos locais. “Espero que brevemente saiamos juntos e mais fortes para que possamos melhor desenvolver o nosso País.”

Na semana passada, o presidente disse que estudava liberar a maior parte da população voltar ao trabalho por meio de uma “canetada”, passando por cima das determinações de governadores e prefeitos. Ele recuou após ministros do STF dizerem que um decreto presidencial neste sentido poderia ser derrubado na Corte.

Segundo o presidente, o objetivo do governo sempre foi “salvar vidas”. “Ser Presidente da República é olhar o todo, e não apenas as partes”, afirmou. Ele também listou medidas adotadas até agora para ajudar as pessoas afetadas pela crise envolvendo a pandemia, como o auxílio de R$ 600 para trabalhadores informais e a isenção do pagamento da conta de energia elétrica aos beneficiários da tarifa social. “Tenho certeza de que a grande maioria dos brasileiros quer voltar a trabalhar. Esta sempre foi minha orientação a todos os ministros, observadas as normas do Ministério da Saúde.”

Nos bastidores, os auxiliares do presidente afirmavam que ele tinha razão nos seus argumentos, mas ao adotar a virulência e o confronto deixava de ser ouvido.

Na fala desta quarta, o presidente também se solidariza com as famílias das vítimas da covid-19. Ele não havia feito o gesto nos pronunciamentos anteriores. “Gostaria, antes de mais nada, de me solidarizar com as famílias que perderam seus entes queridos nesta guerra que estamos enfrentando.”

Nas redes sociais, chamou a atenção o fato de Bolsonaro citar que tem falado da cloroquina há 40 dias. O uso da substância contra o coronavírus entrou no debate da pandemia há menos tempo, no dia 19 de março, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levantou a possibilidade de o remédio ser eficaz para a covid-19. A fala provocou corrida às farmácias e deixou pacientes que dependem dela sem o medicamento. No dia seguinte, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a restringir a sua venda, exigindo receita médica.

Bolsonaro é alvo de novo panelaço

Moradores de diversas cidades do País voltaram a protestar contra o presidente nesta quarta. Em São Paulo, há registro de panelaços em bairros como República, Jardins, Barra Funda, Ipiranga, Alto da Lapa e Bela Vista.

Diversos bairros do Rio também registraram protesto durante o pronunciamento em rede nacional. As manifestações, que tomaram contas de janelas e sacadas, puderam ser ouvidas nas zonas sul, norte e oeste da capital.

Em Copacabana, Botafogo e Cosme Velho, na zona sul, o barulho das panelas chegou a ser mais intenso do que os registrados em manifestações na semana passada. Em Jacarepaguá, na zona oeste, o panelaço perdurou até mesmo após o fim do pronunciamento de Bolsonaro.

Pronunciamentos anteriores

Desde que o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi confirmado no Brasil, Bolsonaro fez cinco pronunciamentos em cadeia nacional de rádio e TV. Em todos ele foi alvo de panelaços nas janelas.

O terceiro foi o mais duro, preparado sob a consultoria ideológica do “gabinete do ódio”, chefiado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). Na ocasião, o presidente comparou o coronavírus a uma “gripezinha” e pregou a reabertura do comércio e das escolas. No último pronunciamento, Bolsonaro amenizou o tom e pregou um pacto nacional com Congresso, Judiciário, governadores, prefeitos e a sociedade para o enfrentamento da pandemia.

A fala em cadeia nacional, no entanto, não representou uma trégua. O presidente manteve as críticas a governadores e ao próprio ministro da Saúde. A recusa do ministro de contrariar recomendações de organizações de saúde para atender o que prega o presidente levou a um estremecimento na relação e a rumores de que ele seria demitido.

Em entrevista na segunda-feira, Mandetta admitiu que seus auxiliares na pasta chegaram a limpar suas gavetas. Na ocasião, em um pronunciamento à imprensa, ele pediu “paz” para trabalhar e reclamou de  críticas que, em sua visão, criam dificuldades para o seu trabalho. 

Dias antes, Bolsonaro havia afirmado que Mandetta "extrapolou" e que faltava "humildade" ao chefe da pasta da Saúde. E destacou que não o demitiria no "meio da guerra", apesar de ninguém em seu governo ser “indemissível”.

A avaliação do presidente é de que seu ministro adotou uma postura arrogante diante da crise e deveria ouvi-lo mais. “Algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas”, afirmou o presidente no domingo, ao receber apoiadores no Palácio da Alvorada.  Era uma indireta por Mandetta ter participado de uma “live” da dupla sertaneja Jorge e Mateus, quando voltou a defender o isolamento social, um dos pontos de divergência com o chefe do Executivo. / ANDRÉ BORGES, BRUNO NOMURA, JOÃO KER, JULIA LINDNER, JUSSARA SOARES, PALOMA COTES e VINÍCIUS VALFRÉ 

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