Youtube / Jovem Pan / Reprodução
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Bolsonaro diz que Mandetta não tem ‘humildade’, mas afirma que não demitiria ministro na ‘guerra’

Questionado sobre as declarações do presidente, ministro da Saúde respondeu: ‘Eu só trabalho, lavoro, lavoro’

Jussara Soares, Julia Lindner e Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 19h48
Atualizado 03 de abril de 2020 | 14h42

BRASÍLIA E SÃO PAULO – Após dias contrariando publicamente as orientações do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a respeito da pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro expôs nesta quinta-feira,2, seu incômodo com o seu auxiliar. Bolsonaro disse que falta “humildade” a Mandetta e, embora tenha dito que não pretende dispensá-lo “no meio da guerra”, ressaltou que ninguém é “indemissível” em seu governo. 

Segundo Bolsonaro, o ministro deveria ouvi-lo mais sobre as decisões relativas às ações de combate e controle da covid-19. Enquanto o presidente defende flexibilizar medidas como fechamento de escolas e do comércio para mitigar os efeitos na economia do País, permitindo que jovens voltem ao trabalho, Mandetta tem mantido a orientação para as pessoas ficarem em casa. A recomendação do ministro segue o que dizem especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), que consideram o isolamento social a forma mais eficaz de se evitar a propagação do vírus. 

 O protagonismo do auxiliar diante da crise envolvendo a pandemia do coronavírus já vinha incomodando o presidente há algum tempo, como revelou o Estado

 “O Mandetta já sabe que a gente está se bicando algum tempo.  Eu não pretendo demitir o ministro no meio da  guerra. Agora, ele é uma pessoa que em algum momento extrapolou. Eu sempre respeitei todos os ministros, o Mandetta também. Ele montou o ministério de acordo com sua vontade. Eu espero que ele dê conta do recado”, disse o presidente em em entrevista a rádio Jovem Pan.

Questionado pelo Estadão/Broadcast sobre as declarações do presidente, Mandetta respondeu: "Eu só trabalho, lavoro, lavoro". Em seguida, desligou o telefone.

O ministro falou com a reportagem durante reunião com a Confederação Nacional de Medicina (CFM) e outras entidades para tratar sobre o uso da cloroquina para tratamento da covid-19. Nesta quarta-feira, o ministro foi excluído de reunião entre Bolsonaro e um grupo de médicos para discutir o mesmo assunto. Enquanto Bolsonaro defende irrestritamente a aplicação do medicamento, Mandetta pede cautela até que haja comprovação científica da eficácia desse fármaco, normalmente usado para malária.

O presidente disse que suas declarações não se tratam de uma ameaça a Mandetta, mas disse que não há ninguém “indemissível” no governo. Bolsonaro reclamou ainda que o ministro deveria ouvi-lo mais. “Não é nenhuma ameaça ao Mandetta não. Se ele sair bem, nenhum problema, mas nenhum ministro meu é indemissível. Todo mundo pode ser demitido, como cinco já foram embora. Eu acho que o Mandetta deveria ouvir um pouco mais o presidente da República.” Além de desejar “boa sorte” a Mandetta, ele afirmou que parte do ministério da Saúde foi contaminado pela “histeria”. 

Segundo Bolsonaro, ele também tem atuado para equilibrar as decisões do Ministério da Saúde e do Ministério da Economia para que não há conflito entre as duas pastas. “Não tem nenhum problema com o (ministro da EconomiaPaulo Guedes, mas o Mandetta quer fazer vale muito a vontade dele. Pode ser que ele esteja certo, mas está faltando um pouco de humildade para conduzir o Brasil nesse momento difícil e que precisamos dele para vencer essa batalha com o menor número de mortos possível”, disse.

Em relação aos pedidos para que deixe o cargo, Bolsonaro afirmou que, de sua parte, “a palavra renúncia não existe”. “Eu fico feliz por estar na frente de um problema grande como esse”, declarou o presidente, acrescentando que o impedimento e a Lei de Responsabilidades são preocupações do governo. Na segunda-feira, 30, líderes da esquerda se uniram em um manifesto para pedir a renúncia do presidente

Isolamento social

Na mesma entrevista,  Bolsonaro disse que espera “o povo pedir mais” para determinar o fim do isolamento social no País, contrariando medidas restritivas adotadas pelos governos estaduais. O presidente justificou que “gente poderosa em Brasília” espera um “tropeção” dele e, portanto, precisa do povo ao seu lado.

“O presidente pode muito, mas não pode tudo. Nós temos gente poderosa em Brasília que espera um tropeção meu. Estou esperando o povo pedir mais. O que eu tenho de base do apoio são alguns parlamentares, não é a maioria, mas eu tenho o povo do nosso lado. Eu só tomo certas decisões o povo estando comigo”, respondeu ao ser questionado porque não toma uma decisão pelo fim do distanciamento social.

Nesta quinta-feira, apoiadores do presidente começaram a convocar manifestações para o próximo domingo dia 5 de abril contra governadores e prefeitos. Nas redes sociais, a hashatg #NasRuas5deAbril passou a ser usada pelos bolsonaristas sob o argumento de que querem voltar ao trabalho. 

Bolsonaro disse que alguns governadores querem que ele tome uma decisão pelo fim do distanciamento social para ele ser responsabilizado.  “O que alguns governadores mais querem que eu tome a decisão para trazer o problema para o meu colo e dali pra frente qualquer morte que acontecer começar a me culpar. Essa é minha preocupação no momento”, admitiu. 

Apesar disso, Bolsonaro afirmou que na próxima semana que o isolamento social não começar a ser flexibilizado ele tomará uma decisão. “Se na semana que vem,  se não começar a ter uma  volta gradativa, vou ter que tomar uma decisão. E daí, seja – não o que Deus quiser, eu sempre acreditei em Deus, mas seja o que os brasileiros quiserem.”

Abertura do comércio

No último domingo, Bolsonaro visitou diversos comércios em regiões do Distrito Federal. O passeio ocorreu um dia após Mandetta reforçar a necessidade de isolamento social para conter o avanço do coronavírus.  Em conversa reservada, o ministro pediu que o presidente não menosprezada a gravidade da pandemia em suas manifestações públicas e não insistisse a ir a um metrô como prometera em uma entrevista coletiva. No diálogo, conforme revelou a colunista do Estado Eliane Cantanhêde, Mandetta deixou claro que, se o presidente fizesse isso, seria obrigado a criticá-lo. E Bolsonaro rebateu que, nesse caso, iria demiti-lo.

Pressionado a alinhar o discurso ao de Bolsonaro, que critica medidas de isolamento social, Mandetta tem dito que vai se pautar pela ciência “até o limite de tudo o que estiver na nossa frente”.

O presidente afirmou que se, na semana que vem, o comércio não começar a reabrir de forma gradativa, “com certeza” o Governo Federal vai ter que tomar uma decisão. Segundo ele, já há um decreto pronto para ser assinado. “O mais prudente é abrirmos de forma paulatina o comércio na próxima segunda-feira. O Brasil não vai aguentar. Se estão pensando em sufocar a economia para desgastar o governo, a população já sabe.” Bolsonaro negou que militares possam ir às ruas para reabrir o comércio. 

Governadores

As medidas de isolamento social de alguns governadores voltaram a ser criticadas pelo presidente. “Não pode falar ‘fique em casa, é uma ordem’. É ditadura isso aqui?", disse o presidente, fazendo referência à proibição de ir à praia no Rio de Janeiro. “É melhor estar na praia do que fazendo churrasco ou em um quarto vendo televisão.”

O governador mais criticado na entrevista foi João Doria, com que Bolsonaro tem trocado farpas com frequência durante crise. Além de dizer que Doria “destrói” a economia de São Paulo, Bolsonaro voltou a acusar o governador de fazer “demagogia barata”. 

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