Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Bolsonaro põe em dúvida agressão a profissionais do 'Estado': 'Se houve, partiu de infiltrados'

Presidente alega que não viu as agressões ao fotógrafo Dida Sampaio e a outros membros da equipe

Emilly Behnke e Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 08h48
Atualizado 04 de maio de 2020 | 10h45

BRASÍLIA -  O presidente Jair Bolsonaro colocou em dúvida a agressão agressão sofrida por profissionais do Estadão em ato realizado contra o Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF) do domingo, 3, em Brasília, e disse que, "se houve", partiu de "possíveis infiltrados". Bolsonaro esteve presente na manifestação, mas disse que não viu a violência ao fotógrafo Dida Sampaio e a outros membros da equipe de reportagem.

"Teria havido uma agressão lá. Teria havido. Não sei. Condenamos qualquer agressão. Não sei", afimou o presidente a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. "Eu não vi nada. Estava dentro do Palácio. Na rampa. Não vi. Recriminamos qualquer agressão que porventura tenha havido. Se houve agressão foi de algum infiltrado, algum maluco, deve ser punido", completou.

Pouco antes de falar com apoiadores, o presidente publicou em suas redes sociais críticas ao destaque dado pela Rede Globo ao ocorrido.

"A TV Globo no Fantástico de ontem se dedicou a ataques ao presidente Jair Bolsonaro, pelo fato de um fotógrafo do Jornal O Estado de SP ter sido agredido por alguns possíveis infiltrados na pacífica manifestação", disse.

O mesmo texto foi disparado nas primeiras horas da manhã por Bolsonaro para alguns de seus contatos pessoais. O presidente disse condenar a violência e alegou que não viu a agressão, pois estava na área cercada do Palácio do Planalto.

"Também condenamos a violência. Contudo, não vi tal ato, pois estava nos limites do Palácio do Planalto e apenas assisti a alegria de um povo que, espontaneamente, defendia um governo eleito, a democracia e a liberdade", escreveu. 

Imagens captadas pelo fotógrafo Ueslei Marcelino, da agência Reuters, mostram Sampaio caído no chão, cercado de apoiadores de Bolsonaro. O profissional do Estado registrava imagens do presidente em frente à rampa do Palácio do Planalto, numa área restrita à imprensa, quando foi agredido. Ao cair e bater com cabeça no chão, ele foi cercado por apoiadores do presidente, como mostra essa sequência de fotos. Os manifestantes gritavam palavras de ordem, como “fora Estadão” e “lixo”.

Após se levantar, o fotógrafo foi agredido com socos, chutes e tapas. Sampaio precisou deixar o local rapidamente para uma área segura e buscou o apoio da Polícia Militar. O fotógrafo registrou um Boletim de Ocorrência. No documento, Sampaio relata que passou por “uma espécie de corredor polonês”, quando tentava sair do local. 

Tanto nas redes sociais quanto a apoiadores Bolsonaro comparou a agressão aos profissionais de imprensa com situação de pessoas que estão sendo abordadas por forças policiais em algumas cidades por descumprirem o distanciamento social.

"Até agora não vi, em dias anteriores a TV Globo sair em defesa de uma senhora e filha que foram colocadas a força dentro de um camburão por estarem nadando em Copacabana, outra ser algemada por estar numa praça em Araraquara/SP ou um trabalhador também ser algemado e conduzido brutalmente para uma DP no Piauí", afirmou.

Segundo o chefe do Executivo, "a maior violência que o povo sofre no Brasil é aquela contra seus direitos fundamentais, com o apoio ou omissão da Rede Globo".

O presidente participou da manifestação antidemocrática na Esplanada dos Ministérios e fez transmissão ao vivo em suas redes sociais.

No ato, manifestantes também gritaram palavras de ordem contra o ex-ministro Sérgio Moro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). No protesto, apoiadores de Bolsonaro chegaram a agredir fisicamente profissionais do jornal O Estado de S. Paulo.

Ministros do Supremo, partidos políticos, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e entidades como a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) rechaçaram ontem os ataques. Em nota, a direção do Estadão disse que “trata-se de uma agressão covarde contra o jornal, a imprensa e a democracia”. A postagem de Bolsonaro nas redes sociais foi a primeira manifestação oficial de alguém do governo sobre o episódio.

 

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