Bolsonaro ataca jornalista do 'Estado' e nega ter compartilhado vídeo convocando para atos

Bolsonaro diz que Vera Magalhães ‘mentiu’ ao noticiar que ele divulgou vídeo convocando seguidores para ato contra o Congresso

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 19h25
Atualizado 28 de fevereiro de 2020 | 17h33

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro atacou nesta quinta-feira, 27, duas vezes a editora do BR Político e colunista do Estado Vera Magalhães. Bolsonaro acusou a jornalista de mentir ao divulgar que ele compartilhou dois vídeos para seus contatos no WhatsApp, convocando para manifestações em defesa do governo no dia 15 de março. Os movimentos de direita anunciaram que os atos serão contra o Congresso. 

Bolsonaro ofendeu a jornalista em entrevista na entrada do Palácio da Alvorada e também em transmissão ao vivo em sua página no Facebook. Nas duas ocasiões, o presidente disse que o vídeo divulgado por Vera é de 2015. Naquele ano, porém, Bolsonaro era deputado, e não presidente, e a facada sofrida por ele – que aparece na gravação – ocorreu na campanha de 2018.

Além disso, o vídeo faz clara menção a Bolsonaro já no cargo de presidente. “(...) Temos um presidente trabalhador, incansável, cristão, patriota, capaz, justo, incorruptível”, diz o texto da gravação.

Bolsonaro, no entanto, insistiu que o vídeo é antigo e insultou a jornalista. “Vera Magalhães, eu não sou da tua laia. (...) Ela queria dar um furo de reportagem com aquele meu vídeo convocando o pessoal para 15 de março, mas no seu afã de dar o furo rapidamente, ela esqueceu de ver a data que era 2015. Se bem que dá para ver, perceber um pouquinho no meu semblante, que estou um pouco mais jovem. Mais um trabalho porco que a mídia toda repercutiu”, disse o presidente na transmissão ao vivo.

Pouco antes, na entrevista diante do Alvorada, Bolsonaro havia sido questionado se o seu aval às manifestações contra o Congresso poderia atrapalhar o governo. “Estou aguardando a Vera mostrar o vídeo dela. E não vai mostrar, né? O caráter dela...”, disse, sem concluir a frase.

O BR Político revelou que Bolsonaro compartilhou dois vídeos convocando para os protestos. O site divulgou também o print da tela do celular que mostra o presidente como autor dos disparos, além dos vídeos. 

“A Vera mentiu. Eu quero que a Vera mostre o vídeo em que eu estou convocando as pessoas para isso”, afirmou o presidente, mais uma vez ignorando que as peças já haviam sido publicadas.

Repercussão. Bolsonaro veio a público dois dias após a reportagem ser publicada, no momento em que as reações no Congresso e no Judiciário se intensificaram. O ministro do Supremo Celso de Mello chegou a dizer que Bolsonaro pode ter cometido crime de responsabilidade.

O discurso de Bolsonaro, com ataques a jornalista, vai na mesma linha das postagens de seus seguidores nas redes sociais. Apesar das declarações do presidente, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, confirmou que Bolsonaro compartilhou um dos vídeos divulgados pelo BR Político, sob a justificativa de que a peça fazia a sua defesa. O ex-deputado Alberto Fraga, amigo de Bolsonaro, também confirmou ao Estado ter recebido um vídeo do telefone pessoal do presidente. A reportagem apurou que Bolsonaro deu uma bronca nos dois.

A Diretoria de Jornalismo do Grupo Estado lamentou as declarações do presidente. “O Estado de S. Paulo lamenta que o presidente da República ataque a jornalista Vera Magalhães, acusando-a de mentir por ter revelado que ele divulgou, via WhatsApp, dois vídeos conclamando a participação nas manifestações. Ao agir assim, ignorando os fatos, endossa conteúdos falsos vinculados ao tema que circulam nas redes sociais, algumas com ameaças veladas, direcionadas a Vera Magalhães.”

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