Dida Sampaio
Dida Sampaio

Bolsonaro ataca jornalista do 'Estado' e a acusa falsamente de mentir

Presidente fez críticas durante coletiva que tratou de medidas de combate à pandemia do novo coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 21h53

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) criticou a colunista do Estado e editora do site BR Político nesta quarta-feira, dia 18, e a acusou falsamente de ter mentido em suas reportagens.

“A jornalista Vera Magalhães, que foi uma mentirosa sem qualquer compromisso com a verdade, está divulgando que eu faria um movimento dia 31 de março na frente dos quarteis”, afirmou incorretamente o presidente durante coletiva que tratou de medidas de combate à pandemia do novo coronavírus.

“Fake News. Esse tipo de profissional não merece respeito por parte nossa aqui no Brasil. Lamento a jornalista Vera Magalhães estar divulgando fake news. Ela poderia ser convocada, se tivesse uma maioria consciente na CPI da Fake News, para falar sobre isso daí”, acrescentou.

Não é verdade a informação de que Vera Magalhães teria noticiado que o presidente estaria fazendo convocações para o dia 31. No site BR Político, a jornalista noticiou na terça-feira, dia 17, que atos estão sendo convocados para o dia 31. Em nenhum momento a reportagem atribuiu a iniciativa ao mandatário.

Vera Magalhães foi a jornalista que publicou, em 25 de fevereiro, uma reportagem mostrando que o presidente usou sua conta do WhatsApp para distribuir dois vídeos convocando apoiadores a atos que estavam sendo organizados para 15 de março.

Diante da repercussão negativa da reportagem de fevereiro, Bolsonaro atacou a jornalista em entrevista na entrada do Palácio da Alvorada e em transmissão ao vivo no Facebook. Ele negou que os vídeos que ele havia disseminado fossem convocações para março deste ano – alegou que eram de 2015. Ambos os vídeos, porém, incluem cenas da facada que ele sofreu na campanha de 2018.

Depois, em 7 de março, Bolsonaro convocou seus apoiadores aos protestos do dia 15. 

Nesta quarta-feira, o presidente tentou negar, na mesma coletiva em que atacou Vera Magalhães, que houvesse convocado apoiadores para os atos a seu favor do último domingo.

“O povo, por sua livre espontânea vontade, decidiu ir às ruas”, disse. “Não convoquei ninguém, não existe nem um áudio e nenhuma imagem minha convocando para o dia 15 de março. Existe um vídeo convocando para o dia 15 de março de 2015”, alegou, sobre os atos pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

No entanto, foi um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, quem divulgou vídeo da convocatória no último dia sete. “Presidente @jairbolsonaro se pronunciou agora pouco em Roraima sobre as manifestações de 15 de março”, escreveu na ocasião.

O presidente também compartilhou um vídeo da mesma viagem a Roraima. Na agenda oficial, consta a ida do mandatário para Boa Vista naquele mesmo dia 7.

O diretor de Jornalismo do Grupo Estado, João Caminoto, lamentou que o presidente tenha atacado Vera Magalhães e que ele não tenha respeitados os fatos.

Leia a íntegra da nota:

Lamento que o presidente Jair Bolsonaro tenha voltado a atacar hoje a jornalista Vera Magalhães, colunista do Estadão e editora do site BR Político, durante entrevista coletiva marcada para anunciar medidas em relação à pandemia de covid-19.

Ele primeiramente chamou a jornalista de “inconsequente” por ter publicado, em 25 de fevereiro, uma reportagem mostrando que ele usara o WhatsApp para distribuir dois vídeos convocando manifestantes para atos que vinham sendo organizados para 15 de março, em defesa de seu governo.

Insistiu na tese que havia sustentado dois dias depois da reportagem, segundo a qual divulgara, na verdade, um vídeo de 2015. Os dois vídeos, que mostramos desde a primeira reportagem e depois, ao desmentir o presidente, têm imagens da facada que ele sofreu na campanha de 2018 e de sua posse, em janeiro de 2019.

Em outro momento, ele voltou a ofender a jornalista, chamando-a de “uma mentirosa, sem qualquer compromisso com a verdade”. “Ela divulgou que eu faria um movimento no dia 31 de março. Fake news. Lamento a jornalista Vera Magalhães estar divulgando fake news. Ela poderia ser convocada pela CPI das Fake News”, afirmou, durante a entrevista.

Infelizmente, o presidente não respeitou os fatos. A jornalista não publicou, nem no BR Político, nem em sua coluna, nem em suas contas nas redes sociais, que o presidente “faria um movimento” no dia 31 de março.

Reportagem assinada por ela no BR Político mostrou que números de WhatsApp localizados no exterior e perfis de simpatizantes do presidente estavam convocando para um ato em frente aos quartéis no dia 31. Publicou fac-símile dessas convocações e links para esses perfis.

Depois de uma entrevista em tom conciliatório feita por Bolsonaro na terça-feira, em que ele convocou uma reunião com chefes dos demais Poderes, Vera publicou, em sua conta no Twitter, que já que decidira arrefecer os ânimos Bolsonaro deveria “desmobilizar” os atos previstos para o dia 31, ou Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre não confiariam na propensão ao diálogo.

Bolsonaro respondeu, também pelo Twitter. “Vá procurar o que fazer, senhora!”, escreveu.

Continuamos dedicados à nossa missão de oferecer à sociedade brasileira conteúdo de qualidade e no combate das fake news, ainda mais num momento tão crítico como o atual.

João Caminoto , diretor de Jornalismo do Grupo Estado

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