Bolsonaro aposta em racha do G7 para isolar Renan

“Essa tropa de choque não é digna do nome”, diz relator da CPI

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2021 | 16h11

Caro leitor,

O Palácio do Planalto aposta na divisão do G7 para virar o jogo na CPI da Covid e desconstruir evidências de que o presidente Jair Bolsonaro montou um gabinete paralelo de aconselhamento negacionista durante as tratativas para compra de vacinas contra o coronavírus. Após duas semanas de depoimentos, emissários de Bolsonaro têm feito acenos ao presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), e incentivam o confronto entre ele e o relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

“Essa tropa de choque do governo não é digna do nome”, disse Renan ao Estadão, numa referência aos aliados do Planalto na CPI. “Na nossa época, a gente fazia o serviço direito”, ironizou ele, sem dar detalhes sobre essas articulações políticas.

Depois do que se verificou na sessão de quarta-feira, 12, quando Renan ameaçou de prisão o ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten, sob a justificativa de que ele mentia "descaradamente" à CPI, as atenções do Planalto estão agora voltadas para o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, marcado para o dia 19.

A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou no STF com um pedido de habeas corpus para permitir que Pazuello fique em silêncio, só respondendo às perguntas que quiser.

“É preciso que as pessoas venham depor na CPI com habeas corpus debaixo do braço porque o relator parece ter uma sentença pronta. Trata-se de um clássico caso de abuso de autoridade”, protestou o senador Marcos Rogério (DEM-RO), integrante da tropa de choque governista. “Se as coisas continuarem assim, nós vamos apresentar um relatório paralelo”, anunciou Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas.

A estratégia do Planalto para atrair Aziz e isolar Renan ficou ainda mais clara quando o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) elogiou o presidente da CPI e chamou o relator de “vagabundo”. A ordem do governo aos aliados é uma só: abrir fogo contra Renan. “Se Jesus teve um traidor, temos um vagabundo inquirindo pessoas de bem no nosso País. É um crime o que vem acontecendo com essa CPI”, disse Bolsonaro, nesta quinta-feira, 13, em Maceió (AL), terra do senador que apoia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e virou inimigo do Planalto.

Estadão apurou que o governo consultou a AGU para verificar a conveniência de algum aliado entrar com nova ação judicial para tirar Renan da relatoria da CPI. O assunto também está sob análise do advogado-geral da União, André Mendonça.

Desde que a comissão foi instalada, no mês passado, o momento mais tenso ocorreu na sessão desta quarta-feira, após Renan anunciar que iria requerer a prisão do ex-secretário de Comunicação da Presidência.

Embora Wajngarten tenha feito de tudo para defender Bolsonaro, a confirmação da existência de uma carta da Pfizer, datada de 12 de setembro – oferecendo vacinas contra covid e ignorada pelo governo –, foi vista pela CPI como prova concreta da negligência do presidente na condução da pandemia.

A situação piorou nesta quinta-feira, 13, quando o presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, disse que a infrutífera tentativa de negociação da Pfizer com Bolsonaro começou ainda antes, em agosto. Naquele mês, a Pfizer ofereceu 100 milhões de doses de vacina ao governo. Murillo confirmou que o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o assessor especial para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, participaram das negociações. Ao lado do ex-ministro Osmar Terra, a dupla integra o time de “aconselhamento paralelo” de Bolsonaro sobre como conduzir a crise sanitária.

Apesar das divergências de procedimentos demonstradas durante as sessões da CPI, até agora não existe um racha irremediável no G7, o grupo de sete senadores que se dizem independentes ou de oposição. É comum que, nas noites de quinta-feira, o trio formado por Aziz, Renan e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI, se reúna para avaliar os trabalhos, acertar os ponteiros e discutir o caminho a seguir.

No último dia 6, por exemplo, o encontro ocorreu na casa de Aziz e foi regado ao Malbec argentino Felino, considerado “denso e equilibrado” por enólogos.  

A CPI tem momentos longe dos holofotes que explicam alguns de seus movimentos. Poucos sabem, mas no  intervalo do interrogatório de Wajngarten, senadores do G7 já haviam avisado Aziz, a portas fechadas, que planejavam pedir a prisão do ex-auxiliar de Bolsonaro. “Não façam isso porque vamos acabar com a CPI. É um tiro no pé. Eu não vou deferir”, respondeu Aziz.

Horas depois, no entanto, Renan “sacou” o pedido de prisão. Naquele momento, Aziz estava fora da sessão porque tinha ido tomar um lanche. Os trabalhos eram conduzidos por Randolfe. Ao retornar à sua cadeira, Aziz ficou furioso. “Eu tinha combinado com vocês que eu não iria deferir prisão. Eu não sou idiota”, disse ele, mais tarde, aos colegas.

Preocupado com os desdobramentos da CPI, o governo investe em articulações para rachar o G7, apoia adversários de Renan em Alagoas e tenta ressuscitar processos do senador na Justiça. “Ninguém tem sangue de barata”, avisou Flávio, o filho “01”.

Nessa empreitada, Bolsonaro conta com o apoio do “gabinete do ódio” e do presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), rival de Renan e líder do Centrão. O Planalto e seus aliados carimbam agora as investigações do Senado como “CPI do Fim do Mundo” e procuram conter a sangria do governo. O curioso é que esse mesmo termo foi cunhado por Lula – hoje o principal adversário de Bolsonaro – para se referir à CPI dos Bingos, que, em 2005, abriu várias frentes de apuração ao mesmo tempo.

Quase dezesseis anos depois, o mundo não acabou. Mas um vírus que já matou 430.596 brasileiros corrói cada vez mais a imagem do presidente.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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