Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Bebianno confirma que Bolsonaro sinalizou que irá exonerá-lo na segunda

Ministro afirmou que tem 'carinho' pelo presidente e que não está à procura de emprego, após ter sido oferecido a ele um cargo na diretoria da Itaipu Binacional

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 12h18

Visivelmente abatido, o ministro da Secretaria-geral, Gustavo Bebianno, confirmou, no início da tarde deste sábado, 16, que o presidente Jair Bolsonaro indicou que vai exonerá-lo na próxima segunda-feira, 18. Ao deixar o hotel onde mora, em Brasília, ele afirmou que está com a consciência tranquila e que ainda tem "carinho" pelo presidente.

Apesar da sinalização de que será demitido, Bebianno disse que ainda aguarda a formalização da exoneração na edição do Diário Oficial da União (DOU) de segunda-feira. "Sim, a sinalização é essa. A tendência é essa, exoneração. Quando vocês perguntam, é o seguinte, eu quero ver o papel com a exoneração, a hora que sair o papel com a exoneração é porque eu fui exonerado", disse.

Em reunião na sexta, Bolsonaro sinalizou que queria exonerar o ministro e ofereceu a ele um cargo na diretoria de Itaipu Binacional, embora a possibilidade seja vedada pela Lei das Estatais. A oferta foi prontamente recusada por Bebianno. "Não estou aqui por causa de emprego", justificou o ministro neste sábado.

Bebianno ressaltou que passou dois anos trabalhando pela eleição de Bolsonaro, tendo assumido a presidência do PSL durante a campanha do presidente. "Meu projeto era eleger a pessoa que me inspirava confiança e eu achava que ia mudar os rumos do Brasil para melhor. Eu apostei nisso, investi minha vida nisso e continuo acreditando. O governo é ótimo", elogiou.

Questionado sobre o clima acirrado no encontro com Bolsonaro, relatado por interlocutores, Bebianno minimizou e disse que cada um teve a oportunidade de dizer o que pensa. Ele afirmou, ainda, que Bolsonaro mencionou, "por alto", as suspeitas de que Bebianno estaria vazando informações para a imprensa, o que, segundo aliados, irritou o presidente e foi a gota d'água. O ministro nega os vazamentos.

Apesar da crise, Bebianno afirmou que "o presidente é um ser humano como outro qualquer". "Ele passou por cirurgia muito difícil, passou duas semanas enfiado num hospital recebendo informações que muitas vezes não chegam de maneira correta. A pessoa fica de mau humor, fica irritadiça, está sentido", declarou.

Ele afirmou, ainda, que Bolsonaro "precisa de um tempo para ele depurar na cabeça dele e ele colocar na balança o que ele quer fazer". "Só isso. Ele é um ser humano como outro qualquer", reforçou.

Na madrugada deste sábado, Bebianno publicou um texto em redes sociais sobre lealdade. Indagado sobre o teor da publicação, que foi visto como uma indireta para Bolsonaro, disse apenas que "foi uma mensagem que teve vontade de publicar".

Bebianno evitou entrar em confronto direto com o filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (RJ), que o chamou de mentiroso e intensificou a crise. "Não vou comentar isso agora, quando acabar, se eu sentir vontade, eu vou dar satisfações. Quem me conhece sabe quem eu sou."

Entenda o caso

Antes do encontro com o presidente, Bebianno se reuniu com os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Santos Cruz (Secretaria de Governo), quando foi avisado de que seria mantido no cargoBolsonaro havia cedido às pressões de civis e militares de dentro e fora do governo. Até mesmo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pediu pelo ministro, hoje sua ponte com o Palácio do Planalto. 

Onyx, que foi escalado para articular a crise instalada no Planalto, se reuniu com Bolsonaro neste sábado, durante uma hora. Ele saiu do Palácio da Alvorada sem falar com a imprensa. 

A reviravolta ocorreu, segundo revelou a TV Record, quando o presidente tomou ciência de que Bebianno teria vazado áudios de duas conversas entre eles pelo WhatsApp com orientações de trabalho. O Estado confirmou a versão com um auxiliar do ministro. Seria o troco no vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, por ele ter publicado no Twitter mensagem de voz com o presidente negando uma afirmação do ministro. 

Ciente de que Bebianno está com “ódio” de Bolsonaro, nas palavras de um ministro, o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, foi escalado para tentar construir no fim de semana uma saída honrosa para o colega. 

O núcleo militar do governo e deputados do PSL não descartam que ele deixe o governo “atirando”, razão pela qual a demissão está sendo costurada. O ministro presidiu o PSL durante a eleição e coordenou a campanha de Bolsonaro. Período em que era frequentador assíduo da casa do presidente.

Ao desabafar nesta sexta-feira com integrantes do governo, Bebianno afirmou que “não se dá um tiro na nuca do seu próprio soldado”. “É preciso ter o mínimo de consideração com quem esteve ao lado dele o tempo todo”, disse Bebianno, segundo o portal de notícias G1. 

Com o clima acirrado, Bebianno já precificou a demissão. Seus assessores começaram a limpar as gavetas para bater em retirada. 

O ministro, porém, mantém a posição de que não pedirá para sair. Caberá ao presidente o desgaste de exonerá-lo. E, caso Bolsonaro mude de ideia, Bebianno exige que ele faça um apelo público que para fique.

Até a reunião entre Bolsonaro e Bebianno o núcleo militar do governo participou das conversas para tentar amainar a crise, mas eles se retiraram das negociações quando Bolsonaro voltou a admitir a demissão do auxiliar. A condução da crise ficou nas mãos de Onyx. No encontro estavam alguns dos principais defensores de Bebianno nos últimos dias: o vice-presidente da República, Hamilton Mourão e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno. 

Integrantes do governo e do Legislativo argumentavam que a saída de Bebianno neste momento poderia atrapalhar a tramitação da reforma da Previdência. Outro motivo era o receio de que Carlos Bolsonaro ganhasse ainda mais poder e influência dentro do governo. 

Após reuniões com ministros e auxiliares, o presidente teria concordado ontem com a avaliação da necessidade de afastar o seu filho de questões da administração federal – o que muitos duvidam. Carlos foi o pivô da crise ao usar o Twitter para acusar Bebianno de mentir sobre conversas que teria tido com Bolsonaro, na terça-feira passada. Bolsonaro retuitou. 

Na ocasião, Bebianno tentava afastar os rumores de indisposição com o presidente por causa das acusações de que teria participação em um suposto esquema de candidatos laranjas do PSL, quando ele presidia a sigla.

Nesta sexta, Mourão disse que Bolsonaro vai “botar ordem nos filhos”. “Tenho certeza de que o presidente, em momento aprazado e correto, vai botar ordem na rapaziada dele”, declarou o vice-presidente.

No Rio, Carlos Bolsonaro retomou ontem os trabalhos na Câmara Municipal. Tirou foto de um requerimento de colega para homenagear Mourão e compartilhou as imagens nas redes sociais. / TÂNIA MONTEIRO, RENATA AGOSTINI, JULIA LINDNER e CAMILA TURTELLI

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