Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Após Bolsonaro participar de ato, Ministério da Saúde se opõe a aglomerações; Mandetta vê 'equívoco'

Presidente havia sido orientado a ficar em isolamento até refazer testes para o novo coronavírus; ministro da Saúde diz que fazer aglomerações 'é completamente equivocado'

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2020 | 19h53

BRASÍLIA - Após o presidente Jair Bolsonaro atropelar recomendações sanitárias e participar de ato pró-governo, o Ministério da Saúde voltou a orientar que sejam evitadas aglomerações e contatos próximos. “A recomendação vale para manifestações, shows, cultos e encontros, entre outras atividades”, disse a pasta em nota enviada no fim da tarde deste domingo, 15. Já o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), disse que fazer aglomerações "é completamente equivocado". 

Mandetta, no entanto, ponderou que não há proibição do ministério sobre a realização de atos deste tipo. "Como eu digo, o Ministério da Saúde, por exemplo, sobre cigarro, adverte. A pessoa vai lá, compra, olha a imagem, e segue fumando. Acho que fazer aglomeração é completamente equivocado", disse à CNN Brasil. 

O ministro se esquivou de críticas à conduta do presidente. "Não estou dizendo que do presidente e dos outros… é um equívoco, todos sabem. Agora, existe proibição? Não."

Orientado a ficar em isolamento até refazer testes para o novo coronavírus, Bolsonaro participou da manifestação em Brasília. Primeiro com o punho fechado, o presidente cumprimentou apoiadores. Depois, chegou a usar o telefone celular de algumas pessoas para tirar selfies ao lado delas, além de cumprimentá-las com as mãos abertas. Em alguns momentos, chegou a colar o rosto ao de apoiadores para fazer fotos.

Em menos de dois minutos seis celulares de fãs passaram pelas mãos de Bolsonaro para selfies.

Fontes médicas e do governo informaram que a recomendação para Bolsonaro, que testou negativo para coronavírus, era permanecer em isolamento até a próxima quarta-feira quando completam sete  dias de seu último contato com o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, infectado com o coranavírus. Além dele, outras seis pessoas que estiveram com Bolsonaro nos Estados Unidos também testaram positivo para a covid-19.

No ato em Brasília, manifestantes gritavam “Fora Maia” e um deles chegou a pedir que o presidente fechasse o Congresso Nacional. Os apoiadores também criticaram o presidente do STF, Dias Toffoli.

Na semana passada, Bolsonaro chegou a pedir para que as manifestações fossem adiadas, mas apoiadores seguiram insistido em promover os protestos e iniciaram um movimento nas redes sociais: #DesculpeJairMasEuVou.

Recomendações do Ministério

O Ministério da Saúde fez recomendações na semana passada para que eventos com aglomerações fossem cancelados, adiados ou feitos sem público. Ontem, após pressão do setor de Turismo, a pasta recuou e orientou a medida apenas para locais com transmissão comunitária do vírus, quando não é possível identificar quem pegou de quem. São os casos de São Paulo e do Rio de Janeiro.

O recuo do ministério por pressão do setor do turismo e a ida de Bolsonaro ao protesto, atropelando a cartilha sanitária do governo, causaram constrangimento entre autoridades que trabalham para conter o avanço do novo coronavírus. A leitura é de que falta autonomia ao ministério para decidir quais medidas devem ser adotadas pelo País. 

Causou ainda perplexidade no governo a presença do diretor-presidente substituto da Anvisa, Antonio Barra Torres, no ato pró-governo. Ele estava ao lado de Bolsonaro e chegou a fazer fotos com o presidente. 

Barra Torres se tornou um conselheiro de Bolsonaro para assuntos de saúde. Apesar de elogiado por ações para conter uma crise sanitária no Brasil, o ministro Mandetta não cai nas graças de Bolsonaro, dizem fontes do governo.

A Anvisa não se manifestou sobre se Bolsonaro contrariou recomendações do órgão e da Saúde para evitar uma epidemia de novo coronavírus. Disse apenas que Barra Torres aceitou convite para conversa informal no Palácio do Planalto com Bolsonaro.

/ Colaboraram Camila Turtelli e Jussara Soares

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