Ações de Bolsonaro contra vacina para crianças e passaporte sanitário dividem militares

Apoio e crítica às políticas de enfrentamento à pandemia reproduzem o racha entre os oficiais que apoiam Bolsonaro e os que apostam na 3.ª via

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2021 | 10h11

Caro leitor,

  

 

divididos em relação à presidência de Jair Bolsonaro e à candidatura da terceira via, os militares também passaram os últimos dias do ano ocupados com a crescente polarização em torno da vacinação de crianças de 5 a 11 anos e do passaporte sanitário. Entre os adeptos do presidente há os que manifestaram seu apoio ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e também os que declaram contra a vacina, colocando em dúvida a segurança dos imunizantes, como acontece quase diariamente em todos os grupos de WhatsApp montados pelos bolsonaristas. 

Outros guardam silêncio. O astronauta Marcos Pontes, o ministro Luiz Eduardo Ramos e o general Augusto Heleno se mantiveram calados em suas redes sociais. Nenhum quis embarcar nas polêmicas sanitárias do capitão. Talvez porque saibam que a vacina é um dos maiores erros de Bolsonaro, que ao investir contra os imunizantes só conseguiu diminuir as suas já reduzidas chances de reeleição em 2022. No País que, apesar da sabotagem do governo, conseguiu vacinar proporcionalmente mais do que os EUA, o presidente continua sua cruzada negacionista, contrariando a sensatez da maioria do povo. 

Agora, o capitão tenta impedir que as crianças sejam vacinadas, enquanto a ralé que o segue espalha notícias falsas sobre os imunizantes, atribuindo-lhes mortes inexistentes e riscos fantasiosos. Conseguem convencer uns poucos incautos que se deixam levar pelas mentiras, arriscando suas vidas e as de outros, espalhando a agonia e aflição nos lares divididos pela polarização. E, agora,  o governo pretende pôr todo tipo de obstáculo diante de pais e mães, muitos dos quais foram imunizados pelo governo contra a tuberculose dentro das escolas nos anos 1970, durante o regime de outros militares. 

Entre os negacionistas que diariamente bombardeiam as vacinas está o coronel Tito Canto, um bolsonarista de quatro costados que tem 21 mil seguidores no Twitter.  Na véspera de Natal, pouco antes da ceia, ele encontrou um tempinho para publicar a seguinte mensagem: "De todos os absurdos, hoje eu vi o maior. O Conselho do Secretários de Saúde fez uma carta dirigida às crianças para que elas convençam os pais para que as levem pra vacinar. A carta é assustadora, mas a imprensa gostou. Agora pergunto, cadê o MP e o juizado de menores?" 

Canto duvida da Fiocruz. Ele escreveu: "Fiocruz diz que 80% dos pais querem vacinar os filhos. Agora a Fiocruz também é instituto de pesquisa?" Dois dias antes, o oficial de Cavalaria publicou: "Pode até ser teoria da conspiração, mas às vezes acho que essa pandemia foi produzida pela China sob encomenda." Outro oficial da Cavalaria – um tenente-coronel da ativa que comanda uma unidade no Sul do País – republicou em sua conta uma piada contra o "passaporte da vacina" que havia sido postada anteriormente pelo cantor Roger, líder do grupo Ultraje a Rigor, outro bolsonarista que pula da borda da terra plana... 

O brigadeiro Antonio Lorenzo, um simpático palmeirense que chefiou a comunicação social da Força Aérea e agora ocupa um cargo civil no Ministério da Justiça, compartilhou a publicação do ministro Queiroga em que o titular da Saúde dizia ser necessário "verificar a decisão" da Anvisa a respeito da vacinação das crianças. "A vacinação em crianças, no âmbito de uma política pública, requer uma análise mais aprofundada. Não vamos nos precipitar. Este tema precisa ser melhor discutido com a comunidade científica e com toda sociedade." A impostura do ministro tem apenas o objetivo de agradar o chefe, que não aceita o que a comunidade científica e dezenas de países já concluíram: a vacina é segura. Mesmo para crianças. E salva vidas. 

Seria interessante verificar como seria uma conversa entre Lorenzo e o general Santos Cruz. O ex-ministro chefe da Secretaria de Governo de Bolsonaro reagiu contra as ameaças do presidente aos técnicos da Anvisa – a agência é dirigida pelo almirante Barra Torres – que liberaram a vacina. Hoje filiado ao Podemos e com um pé na campanha do ex-juiz Sérgio Moro, o general escreveu: “Qualquer servidor que emite um parecer técnico tem que ser protegido. Se a autoridade discorda, que não referende e tenha a coragem de assinar embaixo. Expor publicamente e colocar o servidor em risco é COVARDIA! TRAIÇÃO! Falta de qualquer princípio. INACEITÁVEL!"

A vacina se tornou mais um campo de disputa como o Estadão mostrou acontecer também no Congresso  entre os militares. O grupo se dividiu entre o apoio ao presidente que ajudou a pôr no Planalto – e com o qual compartilham valores, marcos referenciais, visão de mundo e expectativas em relação à regressão do País – e o rompimento com Bolsonaro dos que se envergonham de seu radicalismo. As manifestações parecem apenas reforçar as defesas de cada bolha. E, assim, sem que se aperceba, as clivagens entre os militares se aprofundam, deixando ainda mais distante o sonho de quem pensava mobilizá-los para um golpe em 2022. Divididos eleitoralmente, não têm outra alternativa além de resolver nas urnas as suas disputas.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

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