Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Vacina para crianças estimula ativismo de bolsonaristas contra o imunizante

Campanha contra medidas e passaporte vacinal inclui desinformação e ganha força nas redes após Anvisa dar aval à aplicação de doses em menores de 5 a 11 anos de idade

Levy Teles e Gustavo Queiroz, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2021 | 20h30

Após a Anvisa aprovar, na semana passada, a vacinação contra a covid-19 em crianças de 5 a 11 anos, deputados federais bolsonaristas intensificaram uma postura de combate à imunização e ao passaporte vacinal. A investida ocorre principalmente por meio de mensagens, convocações de atos ou mesmo informações falsas ou sem evidências científicas em grupos antivacina no aplicativo de troca de mensagens Telegram.

A discussão já saiu do ambiente virtual em ao menos 11 capitais brasileiras, com a realização de manifestações nos Legislativos – algumas com episódios de violência. Ativistas antivacina já provocaram uma tentativa de invasão à Assembleia do Rio (Alerj), troca de agressões na Câmara Municipal de Porto Alegre e dois casos em que vereadoras – uma também da capital gaúcha e outra em Campinas – registraram boletim de ocorrência por injúria racial.

No caso mais divulgado, em outubro, houve troca de socos entre manifestantes antivacina e vereadores em sessão do Legislativo de Porto Alegre que discutia o veto ao passaporte municipal na capital gaúcha. Uma manifestante se dirigiu à vereadora Bruna Rodrigues (PCdoB), negra, e a chamou de empregada. Na mesma plenária, um dos ativistas exibiu um cartaz com reprodução da suástica nazista.

A retórica contra o passaporte vacinal e a imunização tem eco na Câmara Federal, conforme levantamento feito pelo Estadão com os 513 deputados federais. A reportagem perguntou, entre outubro e dezembro, a todos os parlamentares da Casa se eles tomaram a vacina contra a covid-19 e se eram a favor ou contra o projeto de lei 5610/2020, que propõe obrigatoriedade na imunização dos congressistas. Do total que respondeu (243), um em cada três preferiu não se manifestar ou se disse contrário à obrigatoriedade vacinal.

Ao Estadão, quatro deputados confirmaram que até agora não tomaram a vacina contra a covid-19: Carla Zambelli (PSL-SP), Junio Amaral (PSL-MG), Marcio Labre (PSL-RJ) e Sargento Fahur (PSD-PR). Fahur defendeu que o imunizante deve ser disponibilizado só para quem quiser. “Se o não vacinado for uma ameaça ao vacinado é sinal que a vacina falhou”, argumentou.

Gráficos que mostram a evolução dos casos de infectados e óbitos por covid-19 no Brasil revelam uma relação direta entre a diminuição dos números de ambos os índices e o aumento da vacinação na população.

Deputados que se manifestaram contra ou não têm uma resposta definitiva sobre o tema deram diferentes justificativas para o posicionamento. Bosco Saraiva (Solidariedade-AM) afirmou que as vacinas estão “em fase experimental”, dr. Luiz Ovando (PSL-MS) argumentou que é mais fácil ser imunizado contraindo o vírus do que pela vacina – afirmações que não têm comprovação científica – e Reinhold Stephanes Jr. (PSL-PR) disse apenas ter “nojo da esquerda”.

'Liberdade'

Em sua maioria, os parlamentares usam como justificativa a “liberdade individual”. Numa discussão em um grupo com 6 mil membros no Telegram, uma usuária disse que, para evitar o rótulo de negacionista, a comunidade deve falar que é a favor “da liberdade” em vez de se manifestar abertamente contra o passaporte.

Esse discurso extrapola o aplicativo e alcança os perfis oficiais de deputados bolsonaristas nas redes sociais. Parlamentares como Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, compartilharam publicações divulgadas em grupos antivacina no Telegram – a principal delas é a associação, sem evidência científica, de casos de problemas cardíacos atribuídos indiretamente à vacinação contra a covid-19.

Investigada no inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal para apurar a divulgação de fake news, Bia Kicis (PSL-DF) é ativa na divulgação de mensagens antivacina. No Twitter, a deputada já compartilhou conteúdo de influenciadores contra o imunizante – um deles divulgou um vídeo em grupo com 6 mil seguidores em que uma mulher afirma, sem qualquer comprovação científica, que seu braço foi “magnetizado” após tomar a vacina contra a covid-19.

A pesquisadora no Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, Patrícia Rossini, aponta que a divulgação de informações sem evidência científica por parlamentares pode ser mais nociva. “Figuras públicas têm um grande alcance perante ao público em geral e também perante à imprensa, que acaba repercutindo essas narrativas, ou seja, o risco é de esses conteúdos falsos chegarem até os discursos mais ‘mainstream’”, disse.

Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro disse que a vacina só poderia ser aplicada “com receita médica” e consentimento dos pais. Já o ministro da Saúde Marcelo Queiroga defendeu que as mortes nessa faixa etária pela doença não demandam “decisões emergenciais”. Até agora, 1.148 crianças de 0 a 9 anos já morreram de covid no Brasil. Em nota, a Anvisa reforçou que “seu ambiente de trabalho é isento de pressões internas e avesso a pressões externas”.

Câmara dos Deputados

  • 513 deputados federais foram perguntados se são a favor ou contra a imunização contra a covid e ao projeto de lei que adota o passaporte antivacina entre parlamentares do Congresso Nacional.
  • 242 deputados responderam à enquete feita pelo Estadão.
  • 153 deputados se declararam favoráveis à proposta de implantar o passaporte vacinal entre os congressistas.
  • 54 deputados são contrários ao projeto de lei.
  • 36 deputados se declararam indecisos ou disseram que preferem não se manifestar sobre  o assunto.
  • 4 deputados federais (Carla Zambelli, Junio Amaral, Marcio Labre e Sargento Fahur) responderam que não se vacinaram nem pretendem se vacinar contra a covid-19.

COLABORARAM GABRIEL FALEIRO, GABRIELA BRUMATTI, JORGE CARRASCO, LAILA NERY, RAFAEL NASCIMENTO E VICTOR FARIAS, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

 

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