MARCELO CHELLO / ESTADAO
MARCELO CHELLO / ESTADAO

'Vou ser um subversivo dentro do partido, vou encher a paciência para o PSDB se reencontrar'

Reeleito prefeito de São Paulo no domingo, Bruno Covas diz que pretende atuar por construção de aliança de partidos de centro para 2022; segundo ele, pandemia se estabilizou e cidade não precisa fechar parques

Entrevista com

Bruno Covas, reeleito prefeito de São Paulo

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2020 | 17h33

Reeleito prefeito de São Paulo no último domingo, 29, Bruno Covas (PSDB) disse que pretende se envolver nos debates em torno da criação de uma frente ampla de centro para 2022. Em entrevista ao Estadão, o tucano afirmou que essas forças do centro do espectro político saíram vitoriosas das urnas no domingo. Questionado sobre qual deve ser seu papel neste processo, disse que será um "subversivo dentro do próprio partido", uma frase que atribuiu ao avô, Mário Covas. "Vou encher a paciência para que o PSDB possa se reencontrar. Hoje, as pessoas não veem clareza em relação ao programa do partido. Esse vai ser meu papel como militante partidário", declarou.

O prefeito não dá pistas sobre quem seria o nome ideal para representar este grupo numa futura eleição presidencial. "Defendo a união de vários partidos de centro e de pessoas que precisam buscar mais consensos em busca da unidade do País. A busca do nome vem em seguida. Você não monta a tese em torno de um nome." 

Sobre a adoção de medidas mais rígidas para combater a covid-19, anunciadas nesta segunda-feira pelo governador João Doria (PSDB), Covas disse que há uma "estabilidade da pandemia em relação ao número de casos e óbitos". "Não há necessidade de fechar parques ou retroceder em atividades culturais que foram liberadas", disse.

Na entrevista, concedida na Prefeitura, Covas falou sobre a construção do secretariado, tendo em vista uma aliança com mais de dez partidos. a criação de uma Lava Jato municipal, promessa feita para receber o apoio de Joice Hasselmann, e sobre medidas para garantir mais igualdade na Prefeitura.

O que muda agora que o sr tem o próprio mandato eleito e deixa de ser o vice do Doria? 

O nosso tamanho político é sempre a nossa votação. Eu agora passo a ter uma votação de 3. 169.121 votos, que dão mais legitimidade para estar à frente da Prefeitura. É claro que isso vai projetando em termos do tamanho e projeção política. 

O que significa sua vitória para o PSDB? 

Não só para o PSDB, mas para várias forças de centro que perderam muito na eleição de 2018 e agora retomam grandes capitais em 2020. Para o PSDB. é a eleição de alguém que vai, como diria meu avô (Mário Covas), ser um subversivo dentro do próprio partido. Vou encher a paciência para que o PSDB possa se reencontrar. Hoje, as pessoas não veem clareza em relação ao programa do partido. Esse vai ser meu papel como militante partidário. 

Essa foi uma vitória dos partidos de centro ou do centrão? Sua coligação tem todos os partidos do centrão, grupo que dá sustentação ao presidente Jair Bolsonaro no Congresso...

São os partidos que estiveram junto com Geraldo Alckmin na eleição de 2018. Sem atuação deles não teríamos a reforma da previdência. São partidos que sabem encontrar o bom termo através do diálogo.

A rejeição ao governador João Doria é muito grande na capital, chegou a 49% em novembro, segundo o Ibope. O paulistano não perdoa quem deixa o cargo?

O paulistano quer alguém que cuide da cidade de São Paulo. O governador João Doria, apesar de ter saído da Prefeitura, continua a cuidar da cidade como governador. 

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No seu discurso da vitória, o sr disse que o negacionismo está com os dias contados. Se referia ao Bolsonaro?

Eu me referia ao negacionismo, e não só ao presidente Bolsonaro, que entende que isso (a pandemia do novo coronavírus) é uma gripezinha. Tem parte da população e dos políticos que pensa assim. Eu me referi a uma tese, e não a uma pessoa ou outra. A eleição mostrou que a cidade de São Paulo não quer discurso radical. A cidade prefere o diálogo e acredita na democracia. Espero que o presidente Bolsonaro ouça esse recado.

Terminada a eleição, já começaram as conversas sobre 2022. Pretende participar desse debate?

Como prefeito da cidade de São Paulo tenho que ter uma preocupação maior com a cidade. Mas, fora do horário de trabalho e aos finais de semana, também sou militante partidário e vou poder ter minha vida partidária como sempre tive. O que não vou fazer é colocar a Prefeitura de São Paulo à disposição de qualquer projeto político. Mas, como militante, vou falar com as pessoas e estabelecer alianças como qualquer dirigente político. 

O que o sr. vai defender em termos de construção política nacional? Fala-se em uma candidatura de centro com Luciano Huck, João Doria ou Sérgio Moro...

Eu defendo uma tese, que é a tese da união de vários partidos de centro e pessoas que precisam buscar mais consensos em busca da unidade do País. A busca do nome vem em seguida. Você não monta a tese em torno de um nome.

Doria sai fortalecido após sua eleição? Ele é o candidato do partido para disputar o Planalto em 2022?

É claro que ele foi um grande apoiador, mas para chegar em 2022 precisamos passar por 2021. O governador Geraldo Alckmin também foi um grande vitorioso com a eleição do Doria em 2016, e nem por isso se elegeu presidente da República dois anos depois. Isso mostra uma força política, mas ainda tem muito chão. No PSDB, ele é o favorito e o que reúne mais chances. Mas, se estamos falando na construção de uma tese e da construção de uma aliança. a gente não pode colocar condições pra isso. Precisa primeiro criar um arco de aliança.

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Na segunda-feira, o governador João Doria anunciou restrições em São Paulo na quarentena e a volta para a fase amarela. Na campanha, porém, Doria negava que haveria um aumento restritivo. A narrativa eleitoral não foi condizente com a prática? A capital será mais dura que o Estado, como foi em outros momentos? 

Na cidade de São Paulo, há uma estabilidade da pandemia em relação ao número de casos e óbitos. Houve um aumento na quantidade de internações, que foi acompanhado pelo aumento do número de pessoas de fora da cidade que estão internadas aqui. Para a Vigilância Sanitária do município, não há nenhuma necessidade de retroceder qualquer flexibilização. Aqui na cidade só vamos aplicar as novas restrições do governo. Não há necessidade de fechar parque ou retroceder em atividades culturais que foram liberadas. Vai passar a valer essa redução de 12h para 10h em relação a abertura dos estabelecimentos, a ocupação de 60% para 40% e o horário de fechamento, em vez de 23hs será até 22hs. 

A decisão do governador não passa a mensagem de que houve um raciocínio eleitoral? 

Bom, aí é para o governador que você precisa fazer essa pergunta. A Prefeitura nem foi chamada ontem no Palácio (dos Bandeirantes). A gente não faz parte da lista das 60 e poucas cidades que estão em estado de atenção.

O sr prometeu para a Joice Hasselmann que vai fazer uma Lava Jato municipal. Não seria o caso de dar mais independência para a Controladoria Geral do Município? 

Não tem nada a ver com a criação de nenhuma estrutura na Prefeitura ou com alteração das estruturas que já temos, que já têm toda a independência para poder fazer investigação. Eu não controlo o que faz a CGM. Ela tem toda autonomia, Pensamos em um grupo fora da Prefeitura. 

O sr. já marcou com o deputado Orlando Silva (PCdoB) uma reunião sobre o projeto dele de cassar o alvará das empresas reincidentes em caso de racismo? Como será feito na cidade, por decreto ou projeto de lei? 

Ficamos de marcar após a eleição uma conversa aqui para ver de que forma enviar um projeto à Câmara Municipal para tratar do tema. Não posso cassar alvará por decreto. Vamos mandar para a Câmara discutir um projeto de lei.

O sr. vai ampliar o número de negros, mulheres e eventulamente convidar uma trans para o governo?

Me comprometi com o aumento da quantidade de mulheres e ter negros no secretariado. Essas duas questões vou cumprir. Nenhum preconceito a homem ou mulher trans. Não há decisão em relação ao tema.

Como será a divisão de espaços no governo entre os mais de 10 partidos que apoiaram o sr. na campanha? A mudança de correlação de forças na Câmara Municipal vai moldar essa divisão?

A preocupação agora é pensar na organização da Prefeitura. Depois vamos pensar nomes. Só tem sentido a participação no governo se for com nomes aprovados por mim e comprometidos com o programa de governo. 

O sr. avalia reduzir o número de secretarias?

Temos hoje 23 secretarias que pra mim é o teto. Disso não se passa. Nessa semana vamos começar a pensar em relação a reorganização. eu pedi ao Wilson Pedroso (coordenador da campanha) para me ajudar a pensar em um processo de reestruturação da Prefeitura. Vamos começar a pensar se faz sentido reagrupar secretarias, unir, fundir, separar. Depois, a gente começa a pensar em nomes. 

O que o sr. espera para 2021?

Que seja um ano melhor que 2020. A gente sabe com que estamos lidando. Já temos orçamento e planejamento. 

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